Espuma dos dias —- Identificação do roubo de 30 mil milhões de dólares à Venezuela (1/2). Por Maureen Thacik

Nota prévia

Sobre o roubo dos ativos da Venezuela pelos EUA e os opositores do regime bolivariano um elucidativo texto da investigação levada a cabo por Maureen Thacik. A extensão do texto aconselha a que seja publicado em duas partes, hoje a primeira.

FT

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

14 min de leitura

Identificação do roubo de 30 mil milhões de dólares à Venezuela (1/2)

Como Juan Guaidó secou uma nação já exausta e a preparou para o atual assalto dos EUA

 Por Maureen Thacik

Publicado por  em 26 de novembro de 2025 (original aqui)

 

Crédito: ilustração da American Prospect. Fontes: Natacha Pisarenko / AP foto; Jorge Villalba / Getty

 

Em 2018, Henri Falcón tentou salvar a Venezuela. Como governador do populoso estado ocidental de Lara, Falcón obteve vitórias eleitorais esmagadoras e perfis admirados na imprensa ocidental pela sua postura humilde, precisão militar e reputação de concluir projetos de infraestrutura dentro do prazo e abaixo do orçamento. (“Revolução Eficiente” era um dos seus slogans de campanha.) Mas, à medida que os preços do petróleo e as sanções económicas dos EUA mergulharam o país numa depressão terrível, as suas ambições tornaram-se mais modestas. “A prioridade máxima da minha administração será garantir que nenhuma criança venezuelana vá para a cama sem ter comido”, escreveu ele num sombrio artigo de opinião no New York Times, anunciando a sua candidatura presidencial.

Pouco antes de o artigo de opinião ser enviado para a gráfica, Falcón foi chamado a uma reunião na embaixada dos EUA, na qual os funcionários expressaram o seu desagrado com ele. Os partidos políticos de direita radical que haviam planeado a tentativa de golpe falhada, mas violenta, de 2002 contra Hugo Chávez reagiram à primeira eleição de Nicolás Maduro com motins sangrentos, apagões rotativos e uma estratégia de caos fabricado. Mas os aristocratas descontentes, a viver fora da Venezuela enquanto recebiam salários generosos de ONGs financiadas pela USAID, tinham decidido boicotar a eleição e acreditavam que todos os outros também o deveriam fazer.

Falcón estava incrédulo: Substituir Maduro por um tecnocrata competente como ele era a maneira racional de salvar o país economicamente devastado do destino da Somália ou do Haiti. No entanto, foi-lhe dito que a Casa Branca via as eleições, por definição, como ilegítimas, porque o Supremo Tribunal tinha proibido os “políticos mais populares” do país de se candidatarem. Participar nelas era equivalente a colaborar com o regime de Maduro. Caso Falcón optasse, apesar de tudo,  por avançar com a sua candidatura, disseram-lhe,   que ele não ficasse surpreendido ao descobrir que em conjunto com os  seus familiares imediatos estaria  numa lista negra do Gabinete de Controlo de Ativos Estrangeiros (Office of Foreign Assets Control – OFAC), o que o levaria a ficar bloqueado efetivamente do sistema financeiro global, uma ironia cruel dado que um pilar da sua plataforma era estabelecer uma estrita indexação monetária ao dólar.

Em suma, o Departamento de Estado estava a ameaçar destruí-lo financeiramente — por concorrer contra Maduro.

Falcón logo soube que não era o único que havia sido convocado à embaixada para uma tal “conversa”. Embora a maioria dos políticos da oposição tenha concordado a contragosto com o boicote, eles fizeram-no mais por medo do que por solidariedade. Os “políticos populares” proibidos de concorrer, como Leopoldo López, Henrique Capriles e María Corina Machado, tinham sido implicados no planeamento de motins violentos, esforços de sabotagem industrial e golpes militares, coisas a que se opunham os venezuelanos comuns. A ideia por trás do boicote era que a oposição precisava de ter solidariedade, mas os políticos da oposição baseados na Venezuela, como ele, sabiam muito bem que a solidariedade era uma via de sentido único com a direita de Miami.

Na sua coluna no Times, Falcón enquadrou a sua decisão na lógica do Consenso de Washington: ‘Um estudo abrangente da Brookings sobre 171 casos de boicotes em todo o mundo descobriu que, 96% das vezes, os movimentos que promoviam os boicotes não obtiveram resultados positivos’, escreveu ele. Mas Falcon jamais poderia ter imaginado o quão singularmente catastróficos seriam os resultados.

Na época, a coligação de oposição de Falcón (MUD) controlava a câmara legislativa venezuelana após uma surpreendente e esmagadora vitória nas eleições de 2015. As eleições foram precedidas por uma campanha de dois anos de guerra psicológica financiada pelo Departamento de Estado com poder de armamento, detalhada num memorando surpreendente de julho de 2013, intitulado ‘Plano Estratégico Venezuelano’ , elaborado sob a supervisão da USAID por um consórcio de grupos de reflexão colombianos e uma grande empresa americana de reestruturação. A realidade nas ruas de Caracas refletia as ordens do memorando aos membros da coligação de oposição para ‘manter e aumentar os atos de sabotagem que afetam os serviços à população, particularmente o sistema elétrico’; ‘aumentar os problemas com a escassez de alimentos básicos’; e ‘criar situações de crise nas ruas que facilitem a intervenção dos EUA e da NATO, com o apoio do governo colombiano. Sempre que possível, a violência deve resultar em mortes ou ferimentos [itálico nosso]

A vitória foi um ponto de viragem para Ricardo Hausmann, um economista do governo pré-Chávez que na época desempenhava o papel de um empirista moderado e não ideológico, a trabalhar em projetos de crescimento em países tão diversos como Cazaquistão, Paraguai, África do Sul e Peru, e dirigindo uma organização chamada Growth Lab (Laboratório de Crescimento) para o Centro de Desenvolvimento Económico da Kennedy School. Mas ele estava casado com uma linha-dura anti-Chávez chamada Ana Julia Jatar, que trabalhava para uma organização sem fins lucrativos venezuelana fundada por Corina Machado, vencedora do Prémio Nobel da Paz deste ano, que atualmente tem feito circular a ideia de que Maduro está a abrigar militantes do Hamas. Em 2006, Jatar chegou a publicar um livro, Apartheid no Século XXI, em que descreve as campanhas de relações públicas da Venezuela como um sistema neo-segregacionista de opressão. (É de notar que o seu pai tinha escrito um livro, Incapacitando a Extrema-Esquerda, sobre a sua experiência de “eliminar grupos de esquerda” na Venezuela como um oficial no partido governante Ação Democrática durante a década de 1960, de acordo com o livro indispensável de 2023 da jornalista Anya Parampil, Corporate Coup: Venezuela and the End of U.S. Empire.) A vitória eleitoral levou Hausmann a perguntar-se: “Porque é que a Venezuela não pode sair desta enorme crise?”

A eleição presidencial de 2018 veio e foi-se. A afluência de eleitores foi de 45%, a mais baixa da memória recente. Embora um dos institutos de sondagem mais respeitados do país tivesse previsto uma derrota por sete pontos para os Chavistas apenas alguns meses antes, Maduro venceu por 55 pontos, Falcón tornou-se Walter Mondale, e o seu principal conselheiro, Francisco Rodríguez, regressou a Nova Iorque, onde serviu como economista-chefe de um pequeno banco de investimento especializado em dívida latino-americana. A coligação de oposição MUD começou a purgar os apoiantes de Falcón e outros candidatos que tinham quebrado o boicote, muitos dos quais também foram sancionados pelos Estados Unidos pelo seu suposto conluio com o regime de Maduro. “Os políticos da oposição”, escreveu Rodríguez mais tarde, tornaram-se “mais hábeis em fazer lóbi em Washington do que em fazer o trabalho árduo de mobilizar os eleitores para se oporem a Maduro”.

Hausmann confidenciou a uma plateia reunida pelo World Affairs Council of Greater Houston em 1 de novembro de 2018, qual era o verdadeiro plano para a Venezuela. ‘A comunidade internacional está agora focada na ideia de que… em 10 de janeiro [de 2019] é o fim do período presidencial de Nicolás Maduro.'”

IAN BRODIE FOI UM PROMOTOR DE AÇÕES ESPECULATIVAS DE BAIXO VALOR EM VANCOUVER que se especializou em adquirir participações de controlo em obscuras empresas de capital aberto, começando com rumores de algum grande negócio em curso, e depois vendendo as ações após a inevitável subida do preço das ações. Em dado momento no final da década de 1980, Brodie adquiriu o controlo da Petroflame International, nomeou-se CEO e anunciou que tinha adquirido direitos mineiros para a maior mina de ouro inexplorada do mundo, perto da fronteira da Venezuela com a Guiana. Na verdade, a Petroflame tinha comprado algo que se pretendia ser os direitos de mineração de ouro de um mineiro sem escrúpulos que, por sua vez, os tinha comprado de um advogado sem escrúpulos que os tinha expropriado de uma cliente viúva e sem filhos que tinha morrido sem deixar testamento a deixar a mina a alguém.

O preço das suas ações subiu vertiginosamente, mas só para cair de volta à terra quando a gigante mineira de Vancouver, Placer Dome, anunciou que desenvolveria o mesmo local numa joint venture com o governo venezuelano, e o Supremo Tribunal da Venezuela emitiu um acórdão decretando a reivindicação de propriedade da Petroflame como tão duvidosa que era indigna de ser investigada [ou que não merecia ser sequer considerada]—momento em que Brodie já se tinha ido embora há muito tempo e a Petroflame tinha mudado o seu nome para Crystallex.

Mas, inabalável, a Crystallex jogou a sua última cartada contra a Placer Dome e a Venezuela durante quase duas décadas, enquanto distribuía compensações extravagantes a executivos distantes com currículos duvidosos. Em 1998, após uma investigação do Congresso, acusações de suborno e uma série de investigações fascinantes no National Post, o Supremo Tribunal da Venezuela ordenou mais uma vez que a Crystallex cessasse e desistisse [das operações], com um influente congressista a dizer aos repórteres: ‘Esta é a simples verdade: a Crystallex não tem os direitos que está a reivindicar e que está a dizer aos investidores que tinha”. Contudo, após a eleição de Hugo Chávez, a aprovação de uma nova legislação de mineração e uma queda nos preços do ouro, a Crystallex conseguiu um contrato para desenvolver a mina em 2002. Ela embarcou numa série de estudos de viabilidade, sessões de fotos e novas batalhas judiciais que culminaram numa emissão de títulos para financiar o projeto — momento em que o governo Chávez cancelou unilateralmente tudo, citando o longo histórico de atrasos da empresa e as violações dos direitos dos trabalhadores e das leis ambientais, mas, o mais importante para fins legais, a necessidade de preservar a propriedade estatal de recursos vitais durante períodos de turbulência financeira, como a crise de crédito sem precedentes que paralisou os mercados financeiros globais em 2008.

O líder da oposição, Juan Guaidó, fala a apoiantes numa praça pública em Caracas, Venezuela, 25 de janeiro de 2019, após ter-se declarado presidente interino. Crédito: Fernando Llano/AP Photo

Uma equipa de advogados mais astuta teria sem dúvida lidado com a Crystallex de forma diferente. A equipa Chávez poderia ter argumentado que a Crystallex, em toda a sua artimanha e progresso glacial, tinha forçado o governo a agir, e a pagar um acordo suficientemente substancial para evitar o inevitável litígio. Mas o momento não podia ter sido pior: os preços do petróleo que determinavam a solvência da Venezuela entraram em queda livre durante o outono de 2008, colapsando para 35 dólares o barril, de 150 dólares no início desse ano.

A Crystallex entrou com pedido de proteção sob o Capítulo 15 em Delaware, após negociar um empréstimo de falência com um recém-criado fundo de cobertura (hedge fund ou fundo especulativo) de “situações especiais” chamado Tenor Capital Management. Em troca de pagar o batalhão necessário de advogados e consultores de primeira linha, a Tenor negociou uma participação maioritária na reivindicação da Crystallex contra o governo venezuelano e começou a montar uma equipa jurídica para defender o seu caso perante o Centro Internacional para a Resolução de Controvérsias sobre Investimentos (ICSID), um tribunal do Banco Mundial sediado em Washington.

Embora a Crystallex tivesse gasto apenas cerca de 100 milhões de dólares no desenvolvimento da mina, a Tenor processou a Venezuela por 3,6 mil milhões de dólares e, em 2016, um painel de três juízes concedeu à Crystallex 1,2 mil milhões de dólares, mais juros e taxas.

Esse foi o golpe inteligente da Tenor. A Elliott Investment Management havia reescrito as regras da “cretinice” internacional de fundos de cobertura em 2012, quando convenceu o governo do Gana a confiscar uma fragata da marinha argentina que havia atracado num dos seus portos — com mais de 250 marinheiros a bordo — para resolver uma disputa de uma década sobre títulos em incumprimento que havia comprado por uma ninharia. Um tribunal internacional acabou por considerar o confisco ilegal, mas quatro anos depois, o presidente neoliberal da Argentina finalmente desembolsou 2,4 mil milhões de dólares que o país não tinha para resolver a disputa.

Esperando que uma manobra semelhante acelerasse o acordo da Venezuela, a Tenor processou a Citgo, a gigante de refinação do Texas que a estatal petrolífera da Venezuela possuía desde 1991, famosa entre os americanos nos estados onde a empresa forneceu óleo de aquecimento gratuito e subsidiado para abrigos de desabrigados e moradores urbanos de baixo rendimento durante os anos Chávez. Foi um lance muito mais arriscado do que a fragata argentina, já que a Citgo não era de propriedade direta do governo venezuelano, mas sim de uma holding que, por sua vez, pertencia à estatal petrolífera venezuelana PDVSA, que, assim como dezenas de outras estatais petrolíferas da Malásia ao Catar, era legalmente distinta do governo venezuelano de inúmeras maneiras codificadas sob a lei americana.

Mas um economista e advogado chamado José Ignacio Hernández argumentou o contrário. O professor de Caracas havia conquistado um nicho como especialista nas nuances e nas brechas da lei administrativa venezuelana. Em 2017, Hernández foi recrutado por ninguém menos que Ricardo Hausmann para ser investigador no Growth Lab da Kennedy School de Harvard. Juntos, eles presidiriam a um dos períodos mais horríveis de crescimento económico negativo na história mundial.

Numa declaração sob juramento em abril de 2017, Hernández argumentou que a PDVSA e todas e quaisquer subsidiárias e ramificações eram “alter egos” do próprio governo venezuelano. Ele citou as conexões governamentais da maioria dos membros do conselho da PDVSA, o uso dos excedentes da PDVSA para financiar programas de gastos sociais e as purgas periódicas de executivos e trabalhadores da Citgo que eram desleais ao governo — embora não a participação dos referidos executivos e trabalhadores expurgados no golpe de 2002 que substituiu brevemente Chávez pelo presidente da Câmara de Comércio — para defender a sua tese. Noutro processo em novembro, ele argumentou que os vários ministérios e instituições do governo venezuelano não tinham “personalidades jurídicas” distintas sob a constituição venezuelana e deveriam ser vistos como “subdivisões da Venezuela”.

O juiz federal de Delaware, Leonard Stark, foi persuadido: Numa invulgar tomada de posição escrita num texto de 76 páginas com muitos dos argumentos de Hernández, ele ordenou a venda da Citgo para pagar a dívida da Venezuela à Crystallex. Os advogados da Venezuela apelaram rapidamente da decisão, enviando por transferência 500 milhões de dólares para a Crystallex e outros 950 milhões de dólares para os detentores de títulos da PDVSA, mais ou menos na mesma época, apenas para sublinhar a sua seriedade. Eles tinham amplos motivos para acreditar que acabariam por prevalecer.

Mas então veio o dia em que Hausmann havia provocado a sua audiência em Houston: a reunião de 10 de janeiro de 2019 da Organização dos Estados Americanos (OEA), na qual o Conselho Permanente aprovou uma resolução recusando-se a reconhecer Maduro como o presidente legítimo da Venezuela, sob a premissa de que a eleição de 2018 — que a oposição havia boicotado e a OEA tinha recusado vários convites para monitorizar — tinha sido fraudulenta. No início daquela semana, um engenheiro alto e jovem chamado Juan Guaidó tinha sido empossado como o novo líder da Assembleia Nacional com um discurso inflamado sobre como ele planeava resgatar o país de Maduro. Ninguém tinha ouvido falar de Guaidó; um ex-engenheiro da PDVSA e ativista da oposição chamado Jorge Alejandro Rodríguez disse ao Prospect que inicialmente se sentiu esperançoso ao ouvir o discurso, mas depois cético, após a sua filha perguntar como era possível que o novo líder da legislatura tivesse apenas 1.200 seguidores no Instagram.

Mas o que faltava a Juan Guaidó em amigos nas redes sociais, ele compensava com amigos em lugares importantes. Em 23 de janeiro de 2019, quando Guaidó se autoproclamou o “presidente interino” de uma Venezuela incrédula, o Secretário de Estado Mike Pompeo anunciou que a administração Trump reconheceria Guaidó como o verdadeiro líder da República Bolivariana e revelou um conjunto de novas e duras sanções contra a PDVSA, apresentadas como uma tentativa de forçar Maduro a renunciar. Tudo parecia uma piada, uma reminiscência dos tempos em que o nosso establishment de política externa insistia que um senhor da guerra do tráfico de drogas numa ilha de seis milhões de habitantes era o líder “real” do país mais populoso do mundo—embora pelo menos a maioria dos chineses soubesse quem era Chiang Kai-shek quando ele fugiu para Taiwan em 1949 para presidir ao que as Nações Unidas insistiam em chamar de “República da China.” Apenas o Miami Herald notou uma disposição fora do vulgar do novo acordo, explicada pelo então Secretário do Tesouro Steve Mnuchin, que disse ao jornal “que se Guaidó conseguir formar um governo, o dinheiro” das vendas internacionais de petróleo venezuelano que ele estava a congelar sob o novo regime de sanções “iria para ele.” No Twitter, Guaidó prometeu que este novo acordo “impediria que a pilhagem continuasse.”

Mas Francisco Rodríguez começou a sentir uma sensação de que o saque tinha acabado de começar. Como especialista autodidata nas nuances da lei do “alter ego” após anos nas trincheiras do mercado de títulos venezuelanos, ele acreditava que o país prevaleceria na sua afirmação de que a Venezuela, a PDVSA e a Citgo eram entidades legalmente separadas. Mas em meados de fevereiro, Guaidó nomeou listas inteiramente novas de membros do conselho para a PDVSA, a sua holding nos EUA e a Citgo, um movimento que Rodríguez sabia que fortaleceria o caso da Crystallex. Nessa mesma semana, a fabricante de vidro Owens-Illinois, que havia recebido 600 milhões de dólares num julgamento de arbitragem por duas fábricas de garrafas de Coca-Cola que Chávez havia expropriado em 2010, processou a Citgo com base no facto de que ela era um “alter ego” do Estado. A Owens-Illinois teve a assistência como testemunha perita de ninguém menos que José Ignacio Hernández, que Guaidó tinha acabado de nomear o procurador-geral do governo paralelo.

“Disse para mim mesmo, isto é um desastre,” lembra Francisco Rodríguez. “Liguei para os meus amigos na oposição e disse, ‘Olhem, vocês estragaram tudo, não deviam ter feito isto, o meu conselho é que corrijam isto o mais depressa possível porque o país pode perder milhares de milhões de dólares por causa disto’. E eles disseram, ‘Obrigado por nos avisares, não sabíamos nada sobre isto, vamos fazer alguma coisa’. E depois, algumas horas mais tarde, ligam-me de volta e dizem, ‘Não podemos fazer nada, isto está a vir do Guaidó, toda a estratégia legal está a ser desenhada pelo Hernández e é uma estratégia legal perfeita.'”

Jorge Alejandro Rodríguez, que pertencia à oposição moderada que se tinha reunido em vão em torno da candidatura presidencial de Falcón, separadamente tentou fazer soar o alarme junto de alguns legisladores do partido de Guaidó. Durante uma reunião a 5 de junho, ele “disse aos legisladores: ‘Não dou a este [caso] mais do que um par de meses … assim que virem o caso e as coisas que o Hernández fez … podem ver que foi de tal modo vantajoso para a Crystallex, que para os juízes isso se tornou num caso claro”.

Mas os seus avisos caíram em saco roto. Hernández emitiu um memorando, em coautoria com Hausmann e alguns outros nomeados por Guaidó, contendo diretrizes preliminares para uma reestruturação planeada da dívida venezuelana. Numa secção intitulada “Tratamento Igualitário”, o memorando declarava: “Nenhum tratamento diferente será concedido a créditos elegíveis denominados em moeda estrangeira em resultado da sua origem (por exemplo, se decorrentes de um instrumento de dívida, uma fatura não paga, uma expropriação, etc.), da natureza ou domicílio do detentor do crédito, e/ou da identidade do devedor do setor público (a República, a PDVSA ou outra entidade do setor público, quer o crédito tenha sido reduzido a uma sentença judicial ou de outra forma)”.

Isso era uma “prova” inequívoca de que a Citgo, a PDVSA e a Venezuela eram a mesma coisa, como uma longa lista de credores internacionais bem compreendia. (Era também uma coisa de República das Bananas: tratamento igual para todas os passivos relacionados com entidades conectadas com o governo venezuelano, não importando qual a entidade que tinha incorrido em dívida? Os títulos tinham pago taxas de juros diferentes e, agora que estavam em default (incumprimento), eram negociados a preços diferentes.) Mais ainda, de forma surreal, a Citgo não havia sido cortada da Venezuela de forma tão completa desde os anos 80, já que a Equipa Guaidó havia bloqueado a entrada dos petroleiros da PDVSA nos seus portos e rescindido o contato de e-mail da empresa com a sua empresa matriz em “conformidade” com as sanções de Trump. A Citgo foi forçada a gastar centenas de milhões de dólares na modernização das suas instalações para refinar petróleos mais leves do que o petróleo cru pesado venezuelano para o qual tinham sido projetadas, e a Venezuela perdeu 1,34 milhões de barris por dia em capacidade de refinação da noite para o dia. Após consultar alguns contatos na administração Trump, Jorge Rodríguez rapidamente redigiu a primeira do que se tornaria, em última análise, uma série de queixas formais que desvendavam o esquema de Hernández, conforme ele o entendia, e a submeteu à mesa de aplicação da Lei de Práticas de Corrupção Estrangeira (Foreign Corrupt Practices Act) do Departamento de Justiça.

Por essa altura, a portas fechadas, Trump tinha começado a chamar Juan Guaidó de “o Beto O’Rourke da Venezuela” [1], estando geralmente entediado com a missão de destituir Maduro, por quem ele havia desenvolvido um respeito relutante. Embora tenha sido retratado de várias formas pelos media do Ocidente como um motorista de autocarro com delírios de grandeza e como o “Stalin das Caraíbas”, Maduro é visto por todos que o conhecem como um negociador pragmático, sempre à procura de um acordo. Em 2017, ele convocou o esquivo bilionário Harry Sargeant III, um ex-piloto de caça com um negócio familiar de asfalto que obtinha petróleo bruto na Venezuela desde a década de 1980, para reabilitar três campos de petróleo que haviam sido destruídos por anos de abandono e vandalismo, num esforço de última hora para evitar a fome. Sargeant, membro de longa data do Mar-a-Lago, que há décadas angariava doações para o Partido Republicano da Flórida e joga golfe com o presidente quase semanalmente, por sua vez, começou a incentivar Trump e membros do governo, desde Lev Parnas durante a primeira administração Trump até Laura Loomer hoje, a fazer negócios, não guerra. O Pentágono convocou um conjunto de membros e especialistas em mudança de regime favoráveis ao consenso, como Douglas Farah, para conduzir um “jogo de guerra” que projetou que derrubar Maduro resultaria em caos e guerra civil.

“Tememos sempre que ele fosse querer exercer [a] opção de se encontrar com Maduro cara a cara”, disse um ex-assessor de Trump ao The New York Times em 2020; o próprio presidente tinha levantado a ideia pela primeira vez em 2017 durante uma reunião amplamente retratada nos media como o momento em que Trump sugeriu invadir a Venezuela. Mas o lóbi pela mudança de regime estava simplesmente muito enraizado, como o ex-funcionário do NSC Fernando Cutz semi-intencionalmente admitiu ao explicar que a política da administração para a Venezuela tinha sido projetada para atrair “eleitores indecisos na Flórida” — que não é um estado oscilante (swing state). “Maduro preencheu um buraco que estava a faltar na vida de muitos desses reacionários da Flórida”, explica um gestor de fundos que fez lóbi junto à administração sobre a política venezuelana. “Eles precisavam de um vilão, e Maduro tornou-se o novo Castro para eles.

Se o ímpeto em torno da libertação da Venezuela por Guaidó tinha estagnado, ele estava a ganhar força no tribunal do Juiz Leonard Stark, em Delaware. A inevitável decisão de agosto, de que a Venezuela e a Citgo eram a mesma entidade, tinha desencadeado uma corrida para extorquir dinheiro à refinaria de petróleo, e novos credores estavam a surgir do nada. Uma subsidiária há muito desmembrada da Northrop Grumman apareceu para cobrar um contrato de renovação de navios com 20 anos, que Chávez tinha rescindido no final da década de 1990. A ConocoPhillips processou para cobrar um projeto petrolífero que tinha descoberto em 1999, mas abandonado em 2007, depois de decidir que não gostava dos termos do governo. A Koch Industries apareceu a exigir a sua participação de acionista numa fábrica de fertilizantes que Chávez tinha nacionalizado em 2010, e cujos detentores de títulos obtiveram um retorno de 60% no negócio. As exigências de arbitragem contra a Citgo rapidamente inflacionaram para 24 mil milhões de dólares, dos quais o Juiz Stark considerou que cerca de 21 mil milhões eram legítimos, para além de uma classe de detentores de títulos da PDVSA cujos títulos tinham sido garantidos por ações da Citgo, um acordo com a empresa petrolífera estatal russa que se alegava estar colateralizada pelo capital social da empresa, e uma parada de ex-prisioneiros políticos que tinham começado a alinhar-se para processar Maduro num esforço improvável de abocanhar uma parte da ação.

“A magnitude do que foi perdido aqui é quase inconcebível,” disse Francisco Rodríguez, o economista, ao Prospect. “Eu sei que todos estão irritados com Scott Bessent porque ele deu 20 mil milhões de dólares à Argentina para resgatar o seu amigo. Mas para a Venezuela, isso é o equivalente a Bessent dar 20 milhões de milhões de dólares à Argentina.”

Convocado para interrogatório por líderes da oposição em 2020, o próprio Hernández admitiu que o governo de Guaidó tinha estragado tudo e em grande escala, embora tenha jurado que não teve nada a ver com a gestão da Citgo pelo governo paralelo, pela qual ele creditou o embaixador nomeado por Guaidó nos Estados Unidos, Carlos Vecchio, um ex-executivo da Exxon cuja participação central levou alguns a especular que a gigante do petróleo de alguma forma orquestrou a venda da Citgo, embora o seu ex-CEO Rex Tillerson se tenha esforçado para se distanciar do plano de mudança de regime depois de Trump o ter demitido de secretário de Estado.

“Espero que esta reunião seja confidencial porque não é bom que as nossas fraquezas venham a público”, disse Hernández em resposta a uma pergunta específica que ele nunca chegou a responder. “Mas vou dizer-vos que estou surpreendido com a durabilidade destas muralhas protetoras que construiu… Se somarmos uma possível mudança política nos Estados Unidos, na Venezuela podemos estar a seis meses, no máximo, de uma situação ainda pior do que a de janeiro de 2019.”

 

(continua)

 


A autora: Maureen Tkacik é editora de investigações do Prospect e membro sénior do American Economic Liberties Project. Ex-jornalista, Tkacik trabalhou para o Wall Street Journal, Time, Philadelphia Daily News, Philadelphia Magazine, Talking Points Memo e Gawker. Ela escreveu sobre negócios e economia para The New Republic, The Baffler, Bloomberg BusinessWeek e Reuters. Em 2007, co-fundou o site Jezebel com Anna Holmes. Ela contribuiu com capítulos para as coleções Bad News: How the Business Press Missed the Story of a Century (2011) e False Choices: the Faux Feminism of Hillary Rodham Clinton (2016). Ela é uma orgulhosa desistente da Universidade da Pensilvânia, cujas mensalidades ela considerou incompatíveis com a profissão escolhida.

 

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