Espuma dos dias — Uma espada perfurará o Leão: a operação dos EUA e Israel contra o Irão.  Por Lorenzo Maria Pacini

Seleção e tradução de Francisco Tavares

7 min de leitura

Uma espada perfurará o Leão: a operação dos EUA e Israel contra o Irão

 Por Lorenzo Maria Pacini

Publicado por  em 28 de Fevereiro de 2026 (original aqui)

 

O Irão é uma civilização milenar, cuja espada está pronta para abater o leão israelita.

O que se sabe até ao momento

Parecia um cenário distante e sombrio, mas aconteceu: no sábado, 28 de fevereiro de 2026, a entidade sionista conhecida como Estado de Israel atacou novamente a República Islâmica do Irão.

Israel optou por fazer o que falhou nas recentes semanas com o apoio americano, preferindo agir sozinho e arriscar tudo. E conseguiu. Em poucas horas, a América também foi arrastada para o conflito, abrindo um cenário que, à margem da guerra entre o Paquistão e o Afeganistão, que eclodiu em 27 de fevereiro, é definitivamente um acto de pura loucura. No entanto, é assim que é.

O ataque inicial teve como alvo as duas principais figuras políticas, o Líder Supremo da Revolução, o aiatolá Ali Khamenei, e o Presidente da República, Masoud Pezeskhian. O ataque foi claramente destinado a atacar a liderança do Irão. Seguiram-se ataques específicos a instalações militares e logísticas e, infelizmente, também a alvos civis.

O detonador foi uma reivindicação muito rápida de responsabilidade e a nomeação da operação ‘The Lion’s Roar’ [O Rugido do Leão], em continuidade com a guerra dos 12 dias. As autoridades israelitas fizeram numerosas declarações fortes, incluindo a do General Halevi, que falou de um ‘ataque nuclear’ contra o Irão, um acto que seria coerente com as repetidas ameaças feitas pelo governo de Telavive contra Teerão.

O ataque dos meios de comunicação social também foi importante: a princípio os EUA não se expuseram, preferindo ficar à margem. Israel envolveu imediatamente os principais jornais americanos, falando de um ataque coordenado com os EUA; pouco depois, o eco chegou aos meios de comunicação europeus e depois aos meios de comunicação asiáticos. Apenas algumas horas depois, a primeira declaração americana (que analisaremos abaixo) veio do Presidente Donald Trump.

A resposta do Irão ao ataque foi muito comedida: Telavive e algumas outras cidades israelitas foram atingidas, tendo como alvo edifícios militares. O mesmo aconteceu com as bases militares americanas no Kuwait, Catar, Jordânia, Bahrein e Emirados Árabes Unidos. No entanto, o ataque foi muito comedido: alguns ataques, mais simbólicos do que eficazes, com armas convencionais, demonstrando um compromisso rápido e demonstrativo, mas não destrutivo em todos os aspectos.

 

O que Trump disse

O discurso de Trump merece uma análise cuidada porque representa, talvez, o programa mais credível para compreender o que está a acontecer e o que vai acontecer a seguir.

O discurso começa com uma abordagem altamente simbólica, construída em torno da ideia do ‘mal absoluto’. As primeiras expressões – ‘grandes operações de combate no Irão’ e a definição do inimigo como um ‘grupo cruel de pessoas muito duras e terríveis’ – não são de tom técnico ou analítico, mas emocionais e moralmente carregadas. Não há menção de um governo com o qual estamos em conflito, mas sim de um “regime terrorista”, uma “ditadura radical”, mesmo até o “estado número um do mundo patrocinador do terror”. O plano geopolítico é assim imediatamente transfigurado num plano ético: não uma guerra entre estados, mas um confronto entre o bem e o mal. A América não está a lutar contra um adversário estratégico, mas contra uma entidade moralmente corrupta. Esta escolha linguística produz um efeito específico: desloca a legitimação do conflito do domínio da política para o da necessidade moral.

Este quadro é reforçado por referências sistemáticas a memórias traumáticas. O discurso evoca o cerco da embaixada em Teerão e os 444 dias de cativeiro [Novembro de 79 a Janeiro de 81], o atentado à bomba em Beirute em 1983 [contra o quartel do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA], o ataque ao USS Cole [em 2000 no porto de Aden] e os acontecimentos de 7 de outubro [de 2023] atribuídos ao Hamas. Estas não são referências episódicas: quando colocadas em sequência, constroem uma narrativa de continuidade, uma “linha ininterrupta de agressão” que se estende por quase meio século. O conflito actual não é apresentado como uma escolha contingente, mas como o resultado inevitável de 47 anos de paciência. Nesta perspectiva, a guerra não é uma opção entre outras: é a conclusão inevitável de uma história de ameaças e de violência. Esta abordagem neutraliza antecipadamente as críticas internas, porque transforma a acção militar num acto de defesa historicamente necessário.

Dentro desta construção retórica, a repetição obsessiva da frase “eles nunca terão uma arma nuclear” desempenha um papel central. A repetição não é acidental: serve para criar uma âncora emocional, para estabelecer um princípio percebido como inegociável e para condensar um dossier complexo num slogan simples e absoluto. A questão nuclear, com todas as suas implicações técnicas e diplomáticas, reduz-se assim a um objectivo claro e compreensível. Psicologicamente, isso permite que uma operação militar potencialmente grande e complexa seja apresentada como o meio necessário para alcançar um fim linear e universalmente aceitável.

Ao mesmo tempo, é construída a figura do líder forte. Quando o presidente diz: “construí e reconstruí as nossas forças armadas”, emerge uma personalização do poder que é típica do seu estilo de comunicação. Não é “a América decidiu”, mas “a minha administração” e “estou disposto a fazê-lo esta noite”. O estado e o líder tendem a sobrepor-se. A mensagem implícita é clara: estou a fazer o que outros presidentes não tiveram coragem de fazer. Isto ativa dinâmicas de excepcionalidade e uma ruptura com o passado; a acção militar não é apenas uma escolha política, mas a marca de uma liderança salvífica.

O discurso assume também uma dimensão religiosa e quase messiânica. Expressões como “pedimos a Deus”, “que Deus abençoe” e “nobre missão” colocam o conflito num horizonte que vai além da contingência histórica. A guerra torna-se uma missão providencial. A invocação religiosa reforça o consenso interno, sacraliza a acção militar e torna-a moralmente inatacável: não é apenas uma decisão estratégica, mas uma tarefa elevada, quase investida de legitimidade transcendente.

No entanto, a passagem mais delicada é o apelo direto ao povo iraniano: “a hora da vossa liberdade está próxima”, “assumam o controle do vosso governo”, “esta será provavelmente a vossa única oportunidade”. Aqui, o discurso dá um salto qualitativo. Não se limita à dissuasão, mas incentiva implicitamente a mudança de regime. O conflito assume uma dimensão psicológica e política, bem como uma dimensão militar. A mensagem é dirigida simultaneamente a diferentes públicos: ao público americano, aos militares iranianos, aos quais é oferecida “imunidade”, e à população civil iraniana, que é convidada a aproveitar uma oportunidade histórica. É uma comunicação multi-alvo, calibrada para produzir efeitos internos e externos.

O ultimato enquadra-se nesta mesma lógica: “deponham as vossas armas… imunidade total ou… morte certa”. A fórmula clara e dicotómica serve para dividir as forças opostas, encorajar deserções e demonstrar determinação absoluta. É uma estratégia clássica de guerra psicológica: reduzir o espaço para alternativas, forçar uma escolha drástica e comunicar que a vontade é irrevogável.

Visto como um todo, a estrutura do discurso segue um crescendo preciso: primeiro a demonização do inimigo, depois a reconstrução histórica do trauma, depois a ameaça nuclear existencial; seguido pela legitimação moral, a afirmação da força pessoal, a invocação religiosa, a oferta de rendição e, finalmente, o apelo revolucionário. Não parece ser um discurso improvisado, mas sim uma sequência dramática destinada a intensificar progressivamente a tensão emocional.

Os significados implícitos, além de qualquer teoria da conspiração, parecem ser múltiplos. Em primeiro lugar, a consolidação interna: a presença de um inimigo externo tende historicamente a reforçar a unidade nacional. Em segundo lugar, a construção de uma liderança ‘histórica’: o Presidente apresenta-se como aquele que realiza o acto que ninguém antes dele ousou realizar. Depois, há a transformação do conflito de uma guerra contra um estado numa libertação de um povo, com uma consequente redefinição geopolítica que vai além da dissuasão nuclear e abre a possibilidade de realinhamento regional.

Em contraste, o que não é dito é impressionante. Não se menciona uma estratégia de saída, a duração do conflito, os custos económicos ou o papel pormenorizado dos aliados. O discurso não é técnico nem diplomático: é emocional, moral e mobilizador.

Em última análise, esta comunicação actua sobre quatro alavancas fundamentais: o medo existencial ligado à ameaça nuclear, a memória histórica traumática, a liderança carismática e a missão moral-religiosa. A mensagem central não é apenas “estamos a atacar o Irão”, mas algo mais ambicioso e relacionado com a identidade: estou a fazer o que a história exige e o que ninguém antes teve a coragem de fazer.

 

O que se pode esperar?

Agora vamos dar um breve olhar sobre o que podemos esperar, tentando fazer algumas projeções.

O Irão bloqueou o Estreito de Ormuz, uma medida que o obrigará a entrar em negociações com vários outros países, uma vez que o Estreito é essencial para o tráfego de bens e recursos. Isto colocará muita pressão no bloqueio Ocidental, com repercussões que poderiam desencadear uma agitação social muito forte.

A resposta militar do Irão, que não tem sido particularmente forte, pode significar que estão em curso negociações e que o uso de armas de baixo impacto se destina a manter o inimigo ocupado enquanto aguarda uma resolução política.

Neste contexto, os EUA reiteraram o seu desejo de mudança de regime, pelo que é provável que a operação continue nessa direção, procurando atingir o Irão no seu ponto mais vulnerável.

Israel, por sua vez, provavelmente tentará terminar o trabalho, e a única barreira real é a contradição com os EUA. Se Israel realmente usar uma arma nuclear, é quase certo que isso não ficará impune em todo o mundo, a menos que os EUA venham em sua defesa. Deve-se notar que o envolvimento americano também poderia ser uma forma de assumir o controle da situação e evitar a escalada nuclear israelita, embora seja mais provável que os EUA, neste momento, usem Israel para promover os seus próprios interesses.

A China apelou a uma resolução do conflito, intervindo com uma declaração muito clara e surpreendentemente rápida (a China é geralmente muito cautelosa quanto a intervir em tais questões).

A intervenção dos países europeus tem sido embaraçosa: a França convocou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A Rússia tem direito de veto. A China tem direito de veto. Ambos apoiam o Irão. A reunião terá lugar. Uma resolução não. O Conselho de segurança da ONU é o lugar onde as guerras são discutidas enquanto continuam.

Entretanto, o Reino Unido está a pôr lenha na fogueira, com a ambição de conseguir um pedaço do bolo que tem vindo a preparar desde os tempos das Sete Irmãs do petróleo, e a usar este assunto para encobrir os enormes escândalos que actualmente se desenrolam nos meios de comunicação social.

Uma coisa é certa: o Irão é uma civilização milenar, cuja espada está pronta para abater o leão israelita.

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O autor: Lorenzo Maria Pacini é Professor Associado de Filosofia Política e Geopolítica, UniDolomiti de Belluno. Consultor em Análise Estratégica, Inteligência e Relações Internacionais.

 

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