Dimensão Económica: Fragmentação, Competição Sistémica e Blocos
Texto 2
por Carlos Pereira Martins
Estados Unidos: reindustrialização estratégica e contenção tecnológica
Os Estados Unidos continuam a ser a maior potência económica mundial em termos nominais e o centro do sistema financeiro internacional com o dólar a esforçar-se para continuar a ser a principal moeda de reserva, e Wall Street com o controlo sobre fluxos financeiros globais. No entanto, a sua estratégia evoluiu:
Reindustrialização e segurança económica
Washington tem adoptado políticas de:
- Incentivo à produção interna de semicondutores e tecnologias críticas
- Redução da dependência da China em cadeias de abastecimento estratégicas
- Reforço de sectores como defesa, energia e tecnologia avançada
Isto traduz-se numa lógica de “friend-shoring” — deslocar cadeias produtivas para países aliados.
Armas financeiras
Os EUA utilizam:
- Sanções económicas que ferem as regras do direito internacional
- Controlo do sistema financeiro internacional
- Restrições tecnológicas
Estas ferramentas tornaram-se instrumentos centrais de poder geopolítico.
Impacto na nova ordem mundial:
A economia global tende a fragmentar-se em blocos tecnológicos e financeiros, reduzindo a integração total da globalização dos anos 1990-2010.
China: potência industrial e ambição de autonomia estratégica
A China consolidou-se como:
- Maior potência industrial mundial
- Principal parceiro comercial de dezenas de países
- Actor central nas cadeias globais de valor
O capitalismo de Estado
Pequim combina:
- Planeamento estratégico
- Forte intervenção estatal
- Expansão internacional via investimento e comércio
A prioridade actual é reduzir vulnerabilidades tecnológicas, especialmente em semicondutores e inteligência artificial.
Desdolarização e finanças alternativas
A China promove:
- A internacionalização do yuan
- Sistemas alternativos de pagamentos
- Aumento do comércio bilateral em moedas locais
Impacto estrutural:
Se esta tendência ganhar escala, poderá surgir um sistema financeiro parcialmente paralelo ao dominado pelo dólar.
Rússia: economia de guerra e adaptação às sanções
A Rússia enfrenta sanções massivas do Ocidente, mas demonstrou capacidade de adaptação:
Reorientação comercial
Maior integração energética com a Ásia
Comércio reforçado com China, Índia e Médio Oriente
Economia de guerra
O sector militar tornou-se central na economia russa.
O investimento na indústria de defesa aumentou significativamente.
Contudo, apresenta:
- Forte dependência de exportações energéticas
- Fragilidades demográficas
- Limitações tecnológicas estruturais
Conclusão económica:
A Rússia pode sustentar influência regional e militar, mas dificilmente liderará um bloco económico global.
Dimensão Militar: Dissuasão, Modernização e Risco de Conflitos Regionais
A nova ordem mundial não é apenas económica — é profundamente moldada pelo poder militar.
Estados Unidos: superioridade global e contenção estratégica
Os EUA mantêm:
- Maior orçamento militar do mundo
- Rede global de bases
- Superioridade naval e aérea
- Liderança em tecnologias militares emergentes
A OTAN continua a ser o principal instrumento de projecção estratégica no espaço euro-atlântico.
Foco estratégico actual:
- Conter a China no Indo-Pacífico
- Apoiar a Ucrânia contra a Rússia
- Reforçar alianças regionais (Japão, Coreia do Sul, Austrália)
A estratégia americana é de dissuasão multi-teatro (Europa + Ásia).
China: expansão naval e dissuasão regional
A China aposta numa transformação profunda do seu aparelho militar:
- Expansão rápida da marinha (uma das maiores do mundo em número de navios)
- Modernização nuclear
- Desenvolvimento de capacidades anti-acesso/negação de área
O objectivo não é (ainda) substituir militarmente os EUA globalmente, mas:
- Garantir supremacia regional no Indo-Pacífico
- Impedir interferência externa em questões como Taiwan
A longo prazo, poderá emergir uma bipolaridade militar regional na Ásia.
Rússia: poder nuclear e guerra híbrida
Apesar das dificuldades económicas, a Rússia mantém:
- Um dos maiores arsenais nucleares do mundo
- Capacidade significativa de guerra convencional
- Forte investimento em guerra híbrida com os ciberataques e a desinformação
O conflito na Ucrânia tem mostrado:
- Limitações logísticas
- Mas também capacidade de mobilização prolongada
A Rússia actua como potência revisionista regional com capacidade de desestabilização estratégica.
Tendências Estruturais da Nova Ordem Mundial
Combinando os factores económicos e militares, emergem quatro tendências principais:
1. Fragmentação económica
Menos globalização irrestrita; mais blocos tecnológicos e comerciais.
2. Competição sistémica prolongada
EUA vs China será o eixo central do século XXI.
3. Militarização das cadeias económicas
Tecnologia, energia e matérias-primas tornaram-se instrumentos de segurança nacional.
4. Dissuasão nuclear continua central
A existência de arsenais nucleares limita confrontos directos entre grandes potências.
Cenários Prováveis (2026-2040)
Cenário 1 – Multipolaridade Competitiva (mais provável)
- EUA, China e Rússia coexistem em rivalidade permanente
- Conflitos regionais limitados
- Economia global parcialmente fragmentada
Cenário 2 – Bipolaridade EUA-China
- Rússia torna-se parceiro subordinado da China
- Bloco ocidental vs bloco euro-asiático
Cenário 3 – Escalada militar regional grave
- Crise em Taiwan ou alargamento do conflito europeu
- Reconfiguração abrupta da ordem internacional
Conclusão Estratégica
A nova ordem mundial não será uma simples substituição da hegemonia americana por outra potência.
O mais provável é uma ordem híbrida, caracterizada por:
- Competição económica estruturada
- Dissuasão militar permanente
- Regionalização da segurança
- Fragmentação tecnológica
Estamos a entrar numa era de equilíbrios instáveis, onde o poder económico e militar se interligam mais do que em qualquer período desde a Guerra Fria.

