A LÍNGUA COMO FACTOR DE COLONIZAÇÃO por Manuel Simões

A LÍNGUA COMO FACTOR DE COLONIZAÇÃO

por Manuel Simões

 

É destes dias a notícia, inesperada porque tardia, segundo a qual o reitor da Universidade Nova de Lisboa exige que o curso de Economia passe a ser designado normalmente em português e não como tem sido publicizado como Nova School of Business and Economics. Alguns professores da Nova SBE discordaram desta decisão, acusaram-na de provincianismo, sem terem consciência que o seu alegado cosmopolitismo constitui uma porta aberta à progressiva colonização: a subserviência linguística significa que já existia a subserviência política. De resto, é muito possível que os cursos e a avaliação continuem a usar a língua estrangeira, isto é, o inglês básico, que alguém já definiu como espécie de esperanto ou língua franca, e por isso o tal cosmopolitismo, ou pseudo-modernidade, continuará a vigorar de forma acrítica.

É inegável a intromissão do inglês/americano nas mais diversas áreas do nosso viver social, muitas vezes a despropósito e numa afirmação de novo-riquismo bacoco. Vi recentemente num quotidiano a notícia de um clube do livro, não me lembro em que cidade, só que não era exactamente nomeado assim, mas como “book club”. Desde o sector da publicidade ao do desporto, para não falar do espantoso seguidismo na música dita popular – curiosamente a banda portuguesa mais internacional (os “Madre de Deus”) até cantavam em língua portuguesa – e sobretudo nos meios de comunicação, as expressões em língua anglo-americana são usadas com função instrumental, sem que o sujeito do discurso pareça ter disso consciência.

É igualmente inegável que a língua foi sempre um elemento essencial na colonização. O país colonizador dividiu as etnias e impôs a própria língua como factor de normalização. Só que a língua não se impõe por decreto e, assim, as línguas autóctones, apesar de reprimidas, perduraram no tempo porque gravadas no mais íntimo do coração. E agora aí estão, livres e mais vivas do que nunca. A este propósito um linguista muito mediático, porque certamente agrada ao sistema, referiu há dias num canal televisivo, e um tanto levianamente, que o número de falantes, em todo o mundo, que usam o português como língua-mãe anda à volta de quatrocentos e noventa e tal milhões, número que resultará do somatório de todos os habitantes dos países de língua oficial portuguesa. Este número é difundido pelas estatísticas oficiais (ai, as sequelas da colonização!), mas um linguista que se ocupa do estudo da língua portuguesa não pode repetir banalmente estes dados e ignorar a realidade linguística de Timor-Leste, de Moçambique, de Angola ou da Guiné-Bissau, por exemplo, e tem obrigação de tratar este tema com rigor de cientista da língua.

 

 

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