Impressões sobre a China – Parte 3 por António Gomes Marques

Impressões sobre a China – Parte 3

por António Gomes Marques

VI

A China é uma república socialista governada pelo PCC – Partido Comunista da China, onde o Estado se confunde com o partido e o partido se confunde com o Estado, ou seja, tem um sistema político autoritário fortemente centralizado, mas com uma economia de mercado, orientada pelo PCC/Estado, o que me põe uma interrogação: o que tem este sistema a ver com o comunismo?

O PCC é a única força política, sendo o poder exercido pelo Presidente do PCC, no topo da pirâmide, detendo o controlo absoluto. Há um Congresso Nacional do Povo, mas as decisões são tomadas a partir de Xi Jinping e o Congresso aplaude. O Estado/PCC controla todos os sectores estratégicos, desfrutando de um desenvolvimento tecnológico moderníssimo, e dominando todas as infra-estruturas, as quais se encontram ao serviço da estratégia definida pelo PCC/Estado. Sendo claro, todas as decisões finais são tomadas de cima para baixo.

Existem algumas lembranças de um regime comunista, quando vemos existir um planeamento estatal, com o Estado a ser dono das terras e a controlar os bancos e as grandes empresas estatais, com um mercado privado altamente dinâmico com esse mesmo Estado a incentivar o empreendedorismo e as empresas privadas, o que tem pouco de comunismo, mas algo de transição para ele, não obstante, esta «liberdade» está sujeita aos objectivos do PCC/Estado. Enfim, na minha interpretação, o sistema em vigor na China é um Capitalismo de Estado completamente na mão do PCC. Onde está o Povo? Onde está o Comunismo?

O Povo quer estabilidade, foi o que me disseram os poucos chineses com quem consegui falar — a língua é um obstáculo, mas a pouca vontade de falar com os ocidentais sobre política também me parece estar um pouco presente —, mostrando-se todos eles muito gratos a Xi Jinping por essa estabilidade e mostrando vontade de que ele se mantenha no comando da China por muitos mais anos, sobretudo por parte daqueles que ainda não esqueceram o período da Revolução Cultural.

Haverá um grande controlo da internet e da liberdade de expressão, mas não é o que se propagandeia no Ocidente, dado que os chineses acedem a qualquer ponto do mundo com os seus telemóveis e com a internet e não se apercebem desse controlo, até pelo cuidado que o PCC/Estado demonstra em manter a estabilidade de que os chineses tanto parecem gostar, em manter a segurança alimentar e, com o evidente crescimento económico, os chineses vão sentindo uma constante melhoria da sua vida. A liberdade é uma prioridade que vem depois de tudo isto que refiro estar assegurado. Como tenho escrito muitas vezes: de que vale a liberdade sem pão? Para que serve a liberdade que se diz termos na chamada civilização ocidental? Podemos criticar publicamente toda a gente, governantes ou não governantes, capitalistas ou um simples homem do povo; podemos dizer um chorrilho de asneiras que não vem mal ao mundo em que vivemos, mas que poder temos realmente nestas ditas democracias liberais? Quando há eleições, votamos nos partidos que queremos e, nas autárquicas, podemos votar em listas independentes dos partidos, este nosso limitado poder existe e morre aí. O partido que forma governo nomeia quem muito bem entende para os mais altos cargos, em que o mérito/competência é o que menos importa, e nós, o povo democrático, não temos qualquer voto na matéria. As listas apresentadas pelos partidos são escolhas dos seus órgãos máximos, com controlo do presidente ou do secretário-geral do partido e as comissões nacionais limitam-se a dizer que sim; quando nessas comissões nacionais surge uma voz discordante logo é silenciada. Vivemos numa democracia apenas formal, onde os ricos são cada vez mais ricos e onde a classe média vai desaparecendo, engrossando a classe mais pobre. A destruição de algumas das mais importantes conquistas, como o Serviço Nacional de Saúde, é uma evidência, só não a vê quem não quiser ver. E não falo apenas do SNS português, lembrando, por exemplo, o que se passa com o SNS britânico, o tal país que foi pioneiro nesta área, que teve um SNS considerado durante muitos anos o melhor do mundo, neste momento deixa morrer os velhos e os desempregados sem assistência médica e medicamentosa, como alguns jornais divulgaram em tempos, mas que agora calam.

Nas empresas, públicas ou privadas, impera a vontade do Chefe, esteja este em que nível estiver, pois a mais pequena discordância, por maior razão que tenha o/a discordante, as consequências podem ser gravosas (um despedimento, uma não renovação de contrato, uma não promoção, a perda de um prémio, etc.).

No Ocidente, com o aumento da pobreza e a dificuldade dos jovens em construírem o seu futuro, que são apenas duas das razões, as forças da direita radical, com muita mistura de neonazis, estão a atrair cada vez mais votantes nos actos eleitorais. Falando de Portugal, aos que se sentem atraídos por estas forças da direita mais extrema, da direita radical, que não passam de vendedoras de ilusões, de mentiras, que se apresentam como saudosistas do nacional salazarismo — necessitamos de três Salazares, dizem — sugiro a leitura de um recente trabalho de Júlio Marques Mota, com a colaboração de dois companheiros na instrução primária — Imagens de um país sofrido e parado no tempo, Portugal, das suas aldeias, das suas crianças, nos tempos negros do fascismo dos anos 50-60 – Histórias em primeira mão. Por Júlio Marques Mota, com a colaboração de Eugénio Ferreira e Manuel Ramalhete (1) — e ficarão a saber como era a vida então.

Não estou a defender o sistema chinês, o capitalismo de estado ou, como gostam de dizer os seus dirigentes, o socialismo com características chinesas, que não deixa de ser um sistema híbrido com um controlo absoluto pelo Partido Comunista da China (PCC), que dá as directrizes a nível nacional com que deve reger-se o mercado, que é de facto dinâmico, com as empresas a desenvolverem a sua actividade com liberdade empresarial, mas, repito, não podendo fugir àquelas directrizes. O Estado, na verdade o PCC, pois não há distinção entre o governo (Estado) e o partido (PCC), com os cargos de liderança do PCC a terem precedência sobre os líderes do governo, mesmo em níveis que pareçam equivalentes.

O Estado/PCC tem o controlo de todos os sectores estratégicos — bancos, energia, infra-estruturas —, para o que dispõe das empresas estatais. As empresas, públicas e privadas, são obrigadas a ter células do PCC, com excepção das que tenham um pequeno número de trabalhadores, células essas que têm de vigiar se as orientações estratégicas definidas pelo partido estão a ser cumpridas.

Nas empresas privadas, o Estado/PCC tem ainda outra forma de controlar adquirindo as chamadas «golden shares» (acções de ouro) e, assim, exercendo o direito de veto, mesmo que a sua participação seja minoritária, intervindo sempre que conclua que a postura da empresa não está a servir os interesses do Estado/PCC. Não obstante, o governo chinês incentiva o empreendedorismo e a iniciativa privada, que são comprovadamente os grandes motores de inovação, criando muitos empregos e sendo responsáveis por mais de 60% do PIB. Os lucros das empresas têm de estar alinhados com os objectivos sociais e económicos de longo prazo do governo.

Em 2025, foram inclusive definidas medidas estabilizadoras do investimento estrangeiro.

O controlo político sobre toda a economia, pública ou privada, é uma evidência, o que não agradará muito aos investidores estrangeiros. Mas enquanto houver lucros significativos para todos…

O PCC usa o centralismo democrático como o mecanismo central do sistema político, e é chamado democrático, julgo, por permitir a discussão interna antes das decisões, mas após a tomada de decisão pelo topo, todos os membros e instituições têm de a seguir, não se permitindo mais qualquer questionamento. Enfim, não erraremos se qualificarmos o sistema chinês como uma ditadura autocrática, onde não é permitida qualquer oposição, mas a larga maioria dos chineses parece estar de acordo e, portanto, contente com o sistema político que vigora no país, pelo menos enquanto o povo sentir que tem a estabilidade de que tanto gosta e enquanto o pão não faltar na mesa e, tanto quanto me deu para perceber, não falta mesmo, inclusive entre a classe mais pobre.

Por estas razões, diz-se no Ocidente e nos países alinhados com a chamada Civilização Ocidental que a China é um país comunista, o que me parece errado; na minha análise tiro uma outra conclusão: trata-se de um capitalismo de estado que muito deve ao sistema estalinista que vigorou na União Soviética e nos outros países do Pacto de Varsóvia, com características chinesas, o tal modelo económico híbrido, com constantes reformas que vão adaptando o sistema ao crescimento da economia.

O Congresso Nacional do Povo é o órgão de poder supremo, mas apenas na teoria, pois todas as suas resoluções têm o prévio aval do PCC.

Curiosamente, o que constituiu uma surpresa para mim, existem, para além do PCC, oito partidos ditos democráticos, mas que desenvolvem a sua actividade sob a liderança do PCC e a orientação resultante da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês.

A China, hoje, é já considerada a primeira potência económica, com pretensões a primeira potência absoluta até 2049, como já referi, graças ao pessoal que tem à disposição em todo o mundo, o que lhe permite uma forte presença comercial em todo o lado, de que a sua economia não pode abdicar, e também ao facto de não descurar um investimento intenso em tecnologia, em inteligência artificial e em energia limpa. Como se pode inferir do que escrevi atrás, há uma forte centralização do poder político, com Xi Jinping no topo da pirâmide, dirigindo uma economia de mercado que, como descrevi, se pode classificar como híbrida e não abdicando da soberania estatal.

A inteligência artificial (IA) é hoje um dos sectores com mais aguerrida competição entre os países, com especial realce para as grandes potências.

Na China, a IA tem-se caracterizado em 2025-2026 por um avanço agressivo, buscando a auto-suficiência tecnológica, com aplicação na escala industrial e, mais recentemente, na superação das restrições de semicondutores impostas pelos EUA, mas a China também está a responder a este desafio, transitando de uma fase de adopção para uma fase de inovação, sendo já líder ao lado dos EUA.

Para esta superação das dificuldades criadas pelos EUA, a China contou com a colaboração das gigantes Alibaba, Tencent e Baidou, que aceleraram a migração para chips produzidos localmente pela Huawei Ascend, por exemplo. Resultado: em 2025, as empresas de chips chinesas ocuparam 7 dos 10 primeiros lugares no ranking das principais empresas de IA na China. Também em 2025, a China colocou-se na liderança mundial em downloads de código aberto, produzindo modelos altamente competitivos.

O governo central lançou uma directiva, a “AI Plus”, com o objectivo de integrar a IA em sectores como a manufactura, a agricultura, a saúde e o transporte, tendo como resultado que mais de 600 milhões de utilizadores de IA já existiam no final de Fevereiro p. p.

A ambição da China estende-se ao mercado de andróides, tendo já lançado 330 modelos de robôs humanóides até ao início deste ano. Em um restaurante em Hong-Kong tive oportunidade de ver um destes robôs em acção, substituindo, pela velocidade atingida, vários empregados em muitas tarefas, com a vantagem de não se cansarem.

Ao mesmo tempo que vai desenvolvendo a IA, a China está, em simultâneo, a criar um sistema de padrões nacionais de forma a orientar o desenvolvimento da IA de qualidade superior e segura, sem esquecer regras para IA generativa, ou seja, que implicam algoritmos treinados para criar conteúdos originais que imitam a criação humana, não se limitando, portanto, a identificar padrões.

O objectivo do mercado para 2025 previa ultrapassar os 168 mil milhões de dólares, tendo sido aprovado um plano de 5 anos — 2026-2030 —, que pretende fazer da China o principal centro de inovação em IA, o que implica ter de formar, no mínimo, 100.000 novos especialistas em IA até 2028. Trata-se de uma verdadeira estratégia de longo prazo.

Os EUA, no documento divulgado a 4 de Dezembro de 2025, Estratégia de Segurança Nacional dos EUA (ESN), reconhecem a sua decadência, não obstante alimentarem “ainda, para consumo interno e dos seus aliados/vassalos na Europa, Ásia e Oceânia, a doce ilusão de que continuarão a ser «o país mais forte, mais rico, mais poderoso e mais bem-sucedido do Mundo nas próximas décadas». Mas a realidade aponta numa direcção diferente. «O tempo em que os Estados Unidos sustentavam toda a ordem mundial, como Atlas sustentava o mundo, acabou», lê-se no documento.

Todos sabemos o que isso significa: a ascensão da China ao lugar de primeira potência económica do planeta (19,4% do PIB mundial em paridade de poder de compra (PPC), contra 14,52% dos EUA) e o ressurgimento económico da Rússia (quarta maior economia, em PPC, a seguir à China, aos EUA e à Índia) e a influência crescente de ambas na cena internacional (BRICS+). A própria ESN reconhece que «a região Indo-Pacífica é já responsável por quase metade do PIB mundial com base na paridade do poder de compra/…/ Esta participação irá certamente aumentar ao longo do século XXI».” (2)

Na Wikipedia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Economia_da_China), a China ainda aparece como a segunda maior economia do mundo, considerando o PIB Nominal, mas, quando se fala do poder de compra ou seja do PPP, em 2018 a China aparecia em primeiro lugar, à frente da União Europeia e dos EUA. Basta pensarmos no que podemos comprar com 10,00 euros em Portugal e com a mesma quantia o que poderíamos adquirir na China. Dou apenas dois exemplos: uma compra que efectuei em Shanghai por menos de 800,00 euros, em Portugal custar-me-ia mais de 2.000,00 euros, encomendas feitas à China chegam a minha casa, referindo uma das últimas que efectuei, por preços cerca de 26 vezes inferiores. Pergunto: quem vive melhor, os portugueses ou os chineses? É portanto muito enganador opinarmos sobre a vida das populações nos vários países fazendo comparações entre o PIB Nominal de cada um.

Claude Meyer, num seu livro recente, cujo título é definidor das «simpatias» que nutre por Xi Jinping — A China de Xi Jinping – Uma Ameaça à Paz e à Ordem Mundial —, escreve: “A China está a aumentar constantemente as suas capacidades militares e a sua influência estratégica, tudo sob o pretexto de uma «ascensão pacífica». O orçamento da defesa — actualmente o segundo maior do mundo — aumentou 30 vezes desde 1990. Atingindo 292 mil milhões de dólares em 2023. Também aqui, o papel da tecnologia é crucial para a modernização das forças armadas, e todos os recursos do país são utilizados graças à integração dos sectores civil e militar.” (págs. 27/28) e, um pouco mais à frente (pág. 29): “Na sequência das reformas iniciadas por Deng Xiaoping em 1978, foram necessárias apenas algumas décadas para que este enorme país agrícola saísse do seu estado de subdesenvolvimento e estabelecesse uma série de recordes, tornando-se o principal exportador mundial em 2009 e, depois, a principal potência industrial em 2010, bem à frente dos Estados Unidos.” (3)

As fanfarronadas de Donald Trump — EUA ser «o país mais forte, mais rico, mais poderoso e mais bem-sucedido do Mundo nas próximas décadas» — não têm nada a ver com a realidade; os impérios não duram para sempre e o império americano ainda durará muitos anos até à sua queda final, mas o seu fim já se pressente, é como um animal feroz ferido ou encurralado, que se torna muito mais perigoso, e os EUA têm poder para causar muito mal ao mundo. Poderá provocar entretanto a Terceira Guerra Mundial?

A história mostra-nos que a duração de um império está dependente da sua força militar, da sua capacidade de gerir a economia e da sua estabilidade política. O Império Romano durou mais de mil anos, o Português aproximou-se dos 600 anos muito ficando a dever-se essa durabilidade àqueles factores, mas sobretudo à capacidade para integrar grandes áreas geográficas até que apareceram as crises económicas — o grande problema dos EUA actualmente —, incapacidade de adaptação e de evolução política, as pressões militares quase sempre externas, não podendo também deixar de se considerar a corrupção e a falta de moralidade ou mesmo da ética. Lembro, por exemplo, o Império Britânico, cujo êxito muito ficou a dever-se às suas redes de comércio, à estabilidade financeira e à capacidade de exploração dos recursos das suas colónias, até que estes factores foram desaparecendo, vivendo hoje a Grã-Bretanha talvez o seu período de maior decadência, a atingir até, de forma escabrosa, a monarquia e a elite política. Poderia ainda falar do Império Otomano, mas é a China que eu quero trazer para aqui.

O Império Chinês foi o mais longo da história, de 221 antes da nossa era (a.n.e.) tendo o seu fim em 1912 com a implantação da República. Foi um império centralizado no Imperador e com base no Confucianismo, onde o respeito pela hierarquia é fundamental.

Foram os conflitos internos que levaram o Império ao colapso, a que se juntaram as pressões das potências europeias ao pressentirem a situação que se vivia na China e as muitas rebeliões.

As potências europeias humilharam a China e essa humilhação nunca foi esquecida, como não foi esquecida a actuação bárbara do Japão aquando da sua ocupação da China. Os chineses têm memória!

O contributo do Império Chinês durante a sua história milenar para a ciência e tecnologia, onde foi um país pioneiro, com inovações que precederam em séculos as do Ocidente, na navegação, na medicina, na engenharia, na astronomia, e muitas outras. É habitual realçarem-se quatro grandes invenções: papel, na dinastia Han; Bússola, também na dinastia Han, mas depois aperfeiçoada nas dinastias Tang e Song, o que permitiu a navegação em mar aberto; pólvora, na dinastia Tang, sendo uma descoberta dos alquimistas taoistas, mas depois aproveitada para fins militares; impressão, primeiro em xilografia (impressão em madeira) e depois com a criação dos tipos de letra móveis, que tornaram possível a produção massiva de livros. Estas invenções apenas mil anos depois foram desenvolvidas na Europa.

Mas a contribuição chinesa não se ficou por estas quatro invenções, havendo que lembrar os seus contributos na medicina (acupunctura; vacinação, então designada como variolação; herbalismo, o estudo e utilização de plantas para fins medicinais ou como suplemento alimentar), na astronomia, como o registo de cometas como o Halley, utilização de mapas estelares e relógios astronómicos; na matemática, com o desenvolvimento do sistema decimal, do ábaco e resolução de equações lineares; na engenharia e mecânica, invenção do leme de popa, invenção da carriola (pequeno carro de duas rodas, carreta), invenção do sismógrafo, invenção do alto-forno e da fundição de ferro; na agricultura, invenção do arado de ferro e da semeadora de múltiplos tubos, utilização de técnicas avançadas no cultivo do arroz e do trigo; produção de seda, de porcelana e de laca.

Até ao século XV, a China foi líder na ciência global. Depois entrou em decadência, houve uma concentração na literatura, nas artes e na administração, relegando a ciência e a tecnologia, vistas como restritas a limitadas aplicações práticas. Com a vitória comunista em 1949, renasceu o interesse na ciência e na tecnologia, mas com base no modelo da União Soviética, o que não deixou de ser um factor importante na modernização da China. O sistema soviético começou a ser profundamente reformado após a morte de Mao em 1976, sendo depois a China um dos principais contribuintes para a ciência e a tecnologia.

É também a China o segundo país que mais trabalhos científicos publica — 121.500 em 2010, onde se incluem os 5.200 publicados em jornais científicos internacionais —, tendo-se focado, neste século XXI, na engenharia genética, na exploração espacial, em comunicações quânticas, em inteligência artificial — com os resultados que explicitei — e ciência do cérebro, o que significa uma aposta no futuro, mas sem deixar de ter preocupações éticas pois o significado do ser humano não pode ser esquecido.

Produz mais diplomados em ciências e engenharia do que os EUA, a quem garante ocupação condigna, ou seja, os jovens diplomados não necessitam de emigrar por encontrarem no seu país onde trabalhar nas respectivas áreas.

Empresas como a Huawei e a Lenovo são líderes mundiais em telecomunicações e na produção de computadores pessoais, a que devemos juntar os supercomputadores chineses, considerados entre os mais poderosos do mundo. (4)

O desenvolvimento das tecnologias para a defesa é um facto que muito preocupa o Ocidente, os seus vizinhos asiáticos, a NATO e especialmente os EUA. A modernização das Forças Armadas fez com que a China se tornasse o segundo país com maior orçamento militar, aumentando a sua frota naval, incluindo submarinos nucleares e respectivas bases, aumento substancial na produção de mísseis e em navios com as tecnologias mais avançadas, dotando a China de um poderio militar à escala global.

Quando penso nesta modernização das Forças Armadas logo penso na questão de Taiwan, mas será essa a única preocupação chinesa? Ou estará a China a precaver-se, sobretudo após o reaparecimento de Trump à frente dos EUA, para uma possível Terceira Guerra Mundial, provocada pelos EUA, hipótese que atrás já levantei?

Espero bem que esta minha última interrogação nunca se concretize, que não passe de pura especulação.

A China tem uma necessidade absoluta de que o comércio mundial funcione, pois é o país que mais produz e exporta, sendo, como é, o principal gigante comercial no mundo, tendo já em 2019 — hoje, provavelmente, terá mais — 119 empresas na lista das 500 maiores do mundo, segundo informou a revista Fortune.

Deng Xiaoping, dois anos após a morte de Mao em 1976, introduziu profundas mudanças no país com as reformas económicas num programa que intitulou «Reforma e Abertura», liberalizando a economia — Mao deve ter dado voltas no túmulo — e permitindo o ressurgimento do sector privado e descentralizando o poder, ou seja, deixando muitas tomadas de decisão nas mãos do poder local, o que não deixou de permitir abusos de poder e o aumento da corrupção, o que obrigou Xi Jinping a muitas medidas de correcção, como já referi.

A abertura de Deng Xiaoping foi recebida de braços abertos pelo Ocidente, para o que a sua visita aos EUA muito terá contribuído, levando muitas multinacionais do capitalismo ocidental a investir na China, incluindo até uma empresa estratégica como a Boeing, que é severamente controlada pelo governo estado-unidense e que, mais tarde, obrigaria o governo dos EUA a intervir.

A visita do líder chinês foi, na minha interpretação, um aproveitamento inteligente da visita que Richard Nixon havia feito à China entre 21 e 28 de Fevereiro de 1972, em que se encontrou com Mao Tsé-Tung, considerado na altura um golpe de génio de Henry Kissinger por ter conseguido os seus objectivos, ou seja, para além de conseguir a aproximação EUA-China obteve a concretização de um outro objectivo talvez mais essencial no pensamento de H. Kissinger: alargar o fosso entre Moscovo e Pequim. Não obstante ter sido atingido o que interessava aos EUA, permitiu também a inserção económica da China no cenário mundial, e o resultado está à vista, como julgo ter demonstrado no que escrevi já neste texto.

É por tudo isto que me interrogo quanto ao apelidar-se de comunista o regime que vigora na China e por isso o classifiquei mais acima de forma bem diferente — um capitalismo de estado que muito deve ao sistema estalinista que vigorou na União Soviética e nos outros países do Pacto de Varsóvia, com características chinesas, o tal modelo económico híbrido, com constantes reformas que vão adaptando o sistema ao crescimento da economia —. A reforçar esta minha opinião, que vale o que vale, é um facto que muitos dos quase 800 multimilionários chineses — ou mesmo todos, não sei —são membros do PCC e, vários deles, dirigentes. Um dos exemplos é Mǎ Yún, mais conhecido no Ocidente como Jack Ma, empresário, investidor e filantropo, membro do PCC, que é o co-fundador do Alibaba Group, uma organização de tecnologia multinacional que domina o comércio online, com uma facturação que supera a da sua rival americana, a Amazon. Mǎ Yún é considerado um dos homens mais ricos do mundo, com uma fortuna calculada acima de 56 mil milhões de dólares, o que não o impede de ser também um embaixador global para os negócios chineses, o que levou a Forbes a considerá-lo um dos homens mais poderosos do mundo. Ser ele membro de um partido comunista é algo que me deixa perplexo e me leva a, mais uma vez, me interrogar: é a China um país comunista?

Quando passeamos pelas ruas das cidades chinesas, quando entramos nos restaurantes ou nas lojas dos mais variados produtos, do mais sofisticado e caro (para nós tudo parece barato) ao mais simples, a sensação que temos, que eu tive, é a de estarmos num país capitalista, com os chineses a mostrarem-se felizes da vida e a viverem em plena liberdade. Será uma sensação enganadora, mas a verdade é que não se sente qualquer tipo de opressão.

Todos os líderes que se seguiram a Deng Xiaoping não puseram em causa o processo «reforma e abertura», mas com Xi Jinping estão a acontecer alguns cambiantes, o que me leva a referir dados relacionados com este homem que é hoje o comandante que tudo parece dominar: Partido, Estado e Forças Armadas.

VII

Xi Jinping é claramente um defensor de um Estado forte, não aceitando que o mercado seja a solução para os problemas que se colocam a qualquer sociedade, assim como não admite que para o PCC haja qualquer espaço em que não possa ter intervenção. Também se lhe atribui a ele uma forte convicção de que a União Soviética se desmoronou porque o respectivo Partido Comunista deixou que as suas raízes fossem postas de lado, o que ele não quer que aconteça na China. Diz-se também que, na opinião de Xi Jinping, a tecnologia deve ser aproveitada para o mais perfeito controlo policial. De facto, a presença policial não se sente nas ruas das cidades chinesas.

Que ele tem sido um presidente diferente parece não haver dúvida, que ele é respeitado pelos chineses também parece uma evidência, mas como será a sua relação com a camada dirigente chinesa? Deixo esta questão para o final. Entretanto, ele já conseguiu alterar a Constituição do país em 2018 de modo a garantir a sua continuidade no poder, eliminando portanto o limite de mandatos.

Foi na década de 1980 que Deng Xiaoping introduziu limites de mandato para a presidência, a vice-presidência e outros cargos de grande importância — dois mandatos de 5 anos, ou seja, 10 anos no total — de modo a promover a renovação de lideranças com a rotatividade geracional que a medida permitiria e a estabilidade política, mas o objectivo que Deng visava seria mais o de evitar o culto da personalidade e a permanência vitalícia no poder, dois dos graves problemas que se diz terem acontecido com Mao Tsé-Tung, pensando assim institucionalizar o PCC.

Quando foi escolhido para secretário-geral do PCC, em 2012, Xi Jinping apressou-se a lançar uma campanha contra a corrupção, com ela abrangendo os «tigres» (altos funcionários) e as «moscas» (funcionários menores), “a campanha teve um amplo apoio do público. Os meios de comunicação estatais promoveram Xi como sendo uma pessoa acessível, igualitária e terra a terra, com reportagens frequentes e exaltadas sobre o «Papá» (ou Grande Tio) Xi, Xi Dàdà (…), na sua vida quotidiana, a comer um «pequeno-almoço» de pãezinhos de porco baratos num restaurante comum e cheio de gente em Pequim, por exemplo.”

“Em 2016, o PCC declarou que Xi Jinping era um «líder fundamental», uma homenagem anteriormente concedida a Mao, Deng e Jiang Zemin. Isso implica um domínio legítimo, tornando difícil aos outros contestar as suas decisões. O PCC reviu a sua constituição para adotar «O Pensamento de Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para Uma Nova Era» como a sua «ideologia orientadora»” (5), ao que já fiz referência.

Em 2018, o Congresso Nacional do Povo aprovou uma alteração constitucional que eliminou o limite de dois mandatos para o presidente e vice-presidente, o que marcou uma ruptura com o legado de Deng Xiaoping, permitindo a Xi Jinping iniciar um terceiro mandato em 2023 e mesmo vir a permanecer indefinidamente no poder.

“Em 2020, o PCC afirmou que tinha eliminado a «pobreza total» na China. Centenas de milhões de cidadãos chineses, cerca de 59 por cento da população, enquadravam-se na definição de classe média, com um património líquido entre 10 000 e 100 000 dólares. Havia 799 bilionários em dólares americanos — mais 173 do que nos Estados Unidos — bem como 4,45 milhões de milionários. Alguns destes empresários eram membros do PCC, o que seria impensável no tempo de Mao.” (6)

O aumento da classe média vem acompanhado de contradições — lembremos, por exemplo, a alta competição no acesso ao ensino superior, a subida dos custos da habitação e alguma desaceleração económica, num país que chegou a crescer a dois dígitos, o que dificilmente poderia ser mantido num país já tão rico —, o que também faz com que a classe média tenha uma participação política bem menos activa tendo em conta a estabilidade material conseguida, mas reforça também o individualismo e o desejo de mudança se a manutenção do seu nível de vida começa a sentir dificuldades, o que, em caso de crise económica, pode acontecer. Um problema sério para Xi Jinping no futuro?

Não deixa de ser oportuno lembrar que não é por acaso que, na crise dita suprime, esta crise não foi ainda muito maior porque a China interveio com políticas fortemente expansionistas, sustentando assim a sua economia e com isso sustentando também a economia do mundo. Enquanto a China assim procedia, o Obama fez uma política minimalista em termos orçamentais e a Europa, cheia de políticos sem espinha, fez uma política de austeridade.

A classe média chinesa habituou-se a viver burguesmente e dificilmente aceitará diminuir o conforto atingido, o conforto em que realmente vive.

Na Cidade Olímpica, em Pequim; na fotografia à direita,

vê-se ao fundo o célebre Estádio «Ninho de Pássaro»

A realização dos Jogos Olímpicos de Pequim de 2008 foram uma demonstração da pujança da China, mas Xi Jinping só chegaria à liderança quatro anos depois.

Mas a resolução da crise provocada pelo endividamento das construtoras já foi liderada por ele.

Se Mao Tsé-Tung queria ser o líder do mundo em desenvolvimento, Deng Xiaoping pensava que a China tinha de «ocultar as suas capacidades e esperar pelo momento oportuno», Xi Jinping “declarou que a China tem de «promover sempre a paz mundial, contribuir para o desenvolvimento global e defender a ordem internacional». Quando a ordem internacional não serve os seus interesses, como aconteceu em 2016 com uma decisão do Tribunal de Haia contra as pretensões da RPC em relação a ilhas, recifes e baixios do Mar da China Meridional, Pequim recusa-se simplesmente a aceitá-la.” (7)

À esquerda, Xi Zhongxun nos anos 50 (in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Xi_Zhongxun); à direita,

o político provincial Xi Jinping, atrás do pai Xi Zhongxun, da filha Xi Mingze,

da esposa Peng Liyuan por volta de 2000. Foto: IMAGO

(in: https://cavalero.com.br/o-peso-da-heranca-xi-zhongxun-pai-de-xi-jinping-e-a-familia-xi/)

Não vou deter-me muito a analisar Xi Jinping, que é inquestionavelmente um dos homens mais poderosos do mundo. Há já muitos livros sobre ele, mesmo em português, e o leitor curioso tem muito por onde se informar. Não obstante, não quero deixar de referir uns momentos da sua biografia que julgo estarem sempre presentes nas suas decisões.

Xi Jinping é filho de um revolucionário comunista, companheiro de Mao, considerado um dos «Oito Anciãos» do PCC, Xi Zhongxun.

Xi Zhongxun (1913-2002) era uma pessoa moderada e defensor de reformas económicas que levaram à liberalização económica na década de 1980, estando na origem da criação das Zonas Económicas Especiais, com um passado de grande relevância na história da China, tendo sido um dos líderes na consolidação das bases comunistas nos anos difíceis de 30 e 40 do século passado. Foi Vice-Presidente do Comité Permanente do Congresso Nacional do Povo, 1.º Secretário-Geral do Conselho de Estado e Vice-Primeiro-Ministro.

Em 1962 foi vítima de intrigas políticas, sendo expurgado e detido, naturalmente caindo em desgraça com a Revolução Cultural (1966-1976), a campanha radical lançada por Mao Tsé-Tung, justificada para eliminar os elementos burgueses e tradicionais, tendo mobilizado a juventude — os Guardas Vermelhos — para destruir o que foi classificado como os «Quatro Velhos» — ideias, cultura, costumes e hábitos —, provocando o caos na China.

Tinha um lema a que se manteve sempre fiel: «o país é o povo, o povo é o país», que o filho, Xi Jinping muitas vezes cita, sendo obrigado a trabalhar no campo, ao lado dos camponeses, com a mesma vida dura destes.

No quadro da política maoista da Revolução Cultural, Xi Jinping foi obrigado a trabalhar no campo, realizando trabalhos pesados, ao lado dos camponeses, com a mesma vida dura destes, o que aconteceu também com cirurgiões de elevado prestígio, o que mostra quão absurda era esta política de Mao.

Xi Jinping passou sete anos (1969-1975) como trabalhador rural na aldeia de Liangjiahe, a viver numa caverna tradicional chinesa (yaodong), integrado no movimento dos jovens que foram enviados para o campo, com o estigma de ser filho de um líder deposto. Foi o seu período de «reeducação», dizendo-se dele hoje que tal período o fez criar raízes com o povo trabalhador, fazendo dele um resiliente. É um período da sua vida que ele costuma referir, sobretudo nas suas conversas com os jovens, como um exemplo de superação de dificuldades que os jovens devem seguir, para além de referir a necessidade da modernização agrícola, que está aliás a acontecer na China, como refiro no início deste texto.

Invoco este período de vida de Xi Jinping para dizer que é nestes factos que me baseio para dizer acima que iria “referir uns momentos da sua biografia que julgo estarem sempre presentes nas suas decisões”.

Um dos legados que Xi Jinping gostaria de deixar ao seu povo é a reunificação da China com Taiwan, o que poderá tentar conseguir pela força, mas eu julgo que ele estará a pensar na evidente decadência dos EUA e na cada vez maior força da China, o que lhe permitirá utilizar a chamada «paciência do chinês», conseguindo concretizar este objectivo a um custo bem menor e sem perturbações no PCC.

A propósito da decadência dos EUA, lembro um texto de Thomas Fazi, que escreve a dado passo: “Longe de abandonar a hegemonia, os EUA estão a tentar preservá-la através de novos meios, globalizando uma estratégia de guerra por procuração que visa ligações mais fracas no sistema rival. Ao mesmo tempo que se evita a contenção militar directa da China ou da Rússia, o confronto é deslocado para teatros periféricos e sustentado através de uma desestabilização permanente. Neste modelo, até as regras mais elementares da coexistência internacional são descartadas.

Esta mudança é uma reacção a uma profunda crise da hegemonia dos EUA. As suas dimensões económicas são bem conhecidas: dívida pública crescente, alavancagem privada insustentável, um sistema financeiro cada vez mais separado da actividade produtiva, uma desindustrialização extensiva e a erosão gradual, ainda que parcial, do sistema centrado no dólar. Em suma, esta é uma crise específica do capitalismo dos EUA e da ordem imperial pós-1945 mais ampla.

(…)

Assim, os principais beneficiários da agressão Trumpiana são precisamente aqueles que Washington procura conter. A China e a Rússia também passaram anos a defender um quadro alternativo de cooperação global baseado na igualdade soberana e na multipolaridade. Cada acto de ilegalidade dos EUA reforça o seu apelo. Após o ataque ilegal à Venezuela, espera-se que a fila de países que procuram uma associação mais estreita com os BRICS (e agrupamentos semelhantes) cresça mais, mesmo que os EUA respondam com ameaças crescentes contra aqueles que o fazem.” (8)

As acções da presidência de Donald Trump parecem justificar esta espera de Xi Jinping, devendo acrescentar-se a nova aventura no Irão, que parece justificar os que dizem ser o governo genocida de Israel que decide as acções dos EUA, como já se dizia na presidência de Biden.

O recente discurso do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, não terá agradado a Trump, dizendo ele o que muitos governantes ocidentais gostariam de dizer, embora vão deixando aqui e ali umas palavras que mostram esta concordância. Carney mostrou não ter papas na língua quando claramente afirmou ter terminado a hegemonia norte-americana (chamou-lhe hegemonia ocidental) e ser necessário construir um novo sistema multipolar que deixe de gravitar na órbita dos EUA. Diz e já trabalha de acordo com o seu pensamento, quando acorda uma nova parceria estratégica com a China, através de um novo acordo comercial que assinou com Xi Jinping em 16 de Janeiro passado, em Pequim.

Também parece que Macron, Merz e Starmer, começaram a ser pragmáticos, tendo iniciado o novo ano a tentar recompor as relações com a China.

Motivos para sérias preocupações do presidente dos EUA não faltam; aos já citados podem juntar-se o caminho já desenvolvido pelos BRICS, movimento este que já desviou da utilização do dólar mais de 40% das operações realizadas no mundo, assim como a união China-Rússia está a confirmar os laços fortes entre as duas grandes potências, com uma colaboração estreita a todos os níveis: económica, científica e tecnológica, cultural, militar, … Enfim, dores de cabeça dos dirigentes norte-americanos é algo que não lhes faltará.

Outro dos gigantescos projectos de Xi Jinping já está em marcha, que o líder chinês classificou como «o projecto do século», designado «Novas Rotas da Seda».

Lançado por Xi Jinping em 2013, é um projecto que mereceu a atenção de Claude Meyer, que escreve no livro já aqui citado: “A ambição deste projecto faraónico, avaliado em vários biliões de dólares, é espantosa, pois implica a criação de uma rede muito densa de infra-estruturas múltiplas: auto-estradas, portos, aeroportos, caminhos-de-ferro, oleodutos, centrais eléctricas, parques industriais, zonas económicas especiais, zonas industriais, etc. Um dos objectivos da China é dominar as estruturas digitais, como os cabos submarinos, os centros de dados e a cloud. Para além da sua função primária, a dimensão digital reveste-se de uma importância política e estratégica particular; o controlo das redes, construídas principalmente pela Huawei e pela ZTE, permite a Pequim captar dados em trânsito e, no pior dos casos, ameaçar cortar o acesso como meio de pressão.

Com o objectivo de ligar a China aos países da Ásia, da Europa, de África — e, mais recentemente, da América Latina —, através desta rede de infra-estruturas terrestres e marítimas, este projecto representa a maior revolução económica e geopolítica das últimas décadas.” (9)

Segundo Claude Meyer, aderiram já a este projecto 147 países, o que corresponde a 40% do PIB mundial e a 2/3 da população do planeta, estando entre estes países a Rússia. Em 2023, em 17 e 18 de Outubro, comemorou-se em Pequim o 10º aniversário do projecto, com a presença de representantes de 130 países, sendo Vladimir Putin classificado como o convidado especial. O mesmo autor dá bastantes mais pormenores sobre este projecto, o que nos leva a pensar que se trata, de facto, do projecto do século. Também acrescenta que o êxito está aquém do desejado, mas não se esquece de admitir que «os Estados Unidos e os seus aliados ainda não encontraram uma alternativa.»

Xi Jinping domina com mão de ferro o poder na China, sendo, ao que parece, o senhor absoluto. Nos últimos anos desta década, terá conduzido uma purga contínua no Exército de Libertação Popular (ELP), atingindo níveis superiores da Comissão Militar Central (CMC) e também comandantes de forças estratégicas, com a justificação de haver ali corrupção e deslealdade política.

Nos últimos 4 anos mais de 100 oficiais superiores foram removidos e o número de generais investigados só em 2025 é o maior de sempre. Terá havido casos de corrupção relacionada com o equipamento do arsenal de mísseis. No final de 2024, um dos oficiais superiores e responsável pela lealdade política, o almirante Miao Hua, antigo director do departamento de trabalho político da CMC, que supervisionava o ELP, foi destituído pelo parlamento chinês do seu cargo após ter sido anunciado que estava a ser investigado por suposta violação da disciplina.

Relatórios de 2025 e já do início de 2026 indicam que nove generais com cargos de responsabilidade estão a ser investigados ou foram mesmo removidos dos seus lugares, estando entre eles alguns que pertenciam ao Comando do Teatro Oriental, comando este que é responsável por Taiwan; um aliado de Xi Jinping, Zhang Youxia, o general mais graduado, assim como outro general, Liu Zhenli, estavam a ser investigados. Xi Jinping terá justificado estas acções dentro de uma campanha anticorrupção e com o objectivo de garantir a absoluta lealdade ao PCC.

A conclusão a que chegaram alguns observadores, atendendo às novas disposições disciplinares aprovadas já em 2026, é que há um endurecimento do controlo político sobre as Forças Armadas, que não permitem qualquer tipo de desobediência a ordens estratégicas, como também surgir daqui um reforço do poder centralizado de Xi Jinping, havendo quem tema que estas medidas possam criar instabilidade na liderança militar.

Tudo isto é muito recente e só o tempo poderá esclarecer todas as interrogações que podem colocar-se.

Este texto já vai longo e não irei acrescentar algo mais sobre a acção de Xi Jinping na China, o qual exerce uma poderosa influência em todo o país, mas também no mundo.

VIII

Para concluir, aproveito para referir uma minha perplexidade que ainda não resolvi e que só o tempo poderá esclarecer.

Nas minhas viagens por este nosso mundo encontro sempre muitos chineses que, como eu, também gostarão de viajar, provavelmente como turistas, talvez diferentemente de mim, uma vez que penso ser um viajante interessado em conhecer outros povos e com eles conviver, para além de me querer confrontar com outras formas de viver a vida. Entre esses chineses encontram-se muitos jovens, cujo comportamento, às vezes, me desagrada, quando tentam furar nas filas que se formam habitualmente nos locais muito visitados, não hesitando em malcriadamente passar à frente de quem chegou primeiro. Quando lhes chamamos a atenção e lhes apontamos o lugar que é o deles na fila, olham-nos como se fossem os donos do mundo, tendo sido no Camboja onde primeiro me apercebi deste facto. Entretanto, esqueci.

Agora na China, em hotéis de 4 e 5 estrelas, portanto onde os hóspedes terão de ter um razoável poder económico, verifiquei que, quando aguardava o elevador, logo que as portas se abriam os jovens chineses avançavam resolutamente ultrapassando, sem qualquer respeito, quem havia chegado primeiro. Os chineses mais velhos nunca tiveram tal comportamento.

Mas a maior perplexidade foi quando um chinês, na casa dos 50 e poucos anos, me disse que os jovens já nem sequer sabem quem foi Mao Tsé-Tung. Fiquei incrédulo e perguntei: “Não sabem quem foi ou ignoram-no por dele não gostarem? Não, não sabem mesmo quem é!

Dir-me-ão que são sinais insignificantes, a que não devemos ligar importância, mas eu não penso, habituado a reconhecer que são pequenos sinais como estes que nos ajudam a pensar no que poderá ser o futuro de um país. Que os jovens ligam pouco à política, também está a acontecer na China, preocupados mais em viver e usufruir das ferramentas que a tecnologia coloca à nossa disposição. Será que também os jovens chineses, nascidos já num país desenvolvido, a caminho de se tornar a primeira potência do mundo, desconhecem o que é ser solidário e apenas se mostram interessados em usufruir a vida individualmente e esquecem o colectivo?

Este é um problema de Xi e não será por acaso que se faz um certo controlo do governo sobre a utilização das redes sociais pelos jovens, um cuidado que vai ao ponto de se imporem conteúdos de qualidade e tempos de utilização das redes sociais, ao contrário do que se faz no Ocidente. Como assinala Noah McCormack, “porque a China é governada por um quadro ostensivamente marxista, o país tem a capacidade de restringir os opiáceos electrónicos muito além de qualquer coisa que um americano possa imaginar. Em 2019, a China limitou menores de dezoito anos a noventa minutos de videojogos por dia. Em 2021, isso foi limitado a uma hora às sextas-feiras, fins- de-semana e feriados, entre as 20h e as 21h. Semelhantes restrições impedem que os jovens gastem mais de 2,48 horas por dia vendo vídeos. Embora a evasão seja generalizada, os efeitos positivos da restrição, em comparação com o não controlado sistema americano, são incalculáveis.” (10)

Espero estar errado e não haver razões para sequer colocar estas questões como dúvidas, pois, se elas se confirmarem, então Xi Jinping terá de ter muito mais preocupações com os jovens da abastada classe média chinesa do que com a falta de disciplina dos seus oficiais superiores das Forças Armadas.

Portela (de Sacavém), 2026-03-06

NOTAS

  1. https://aviagemdosargonautas.net/2026/02/23/imagens-de-um-pais-sofrido-e-parado-no-tempo-portugal-das-suas-aldeias-das-suas-criancas-nos-tempos-negros-do-fascismo-dos-anos-50-60-historias-em-primeira-mao-1-5-por-julio-marques-mota-com/
  1. in: Declaração da Conferência Europeia e Cidadã para a Paz na Ucrânia, Rússia e Europa;
  2. in: Claude Meyer, A China de Xi Jinping – Uma Ameaça à Paz e à Ordem Mundial, Guerra e Paz, Editores, Lda., Lisboa, Novembro de 2025;
  3. in: https://pt.wikipedia.org/wiki/História_da_ciência_e_tecnologia_na_China
  4. in: Linda Jaivin, A Mais Breve História da China, Publicações D. Quixote, Alfragide, Junho de 2022, págs. 250-251;
  5. in: Linda Jaivin, idem, idem, pág. 252;
  6. in: Linda Jaivin, idem, idem, págs. 253-254;
  7. in: https://aviagemdosargonautas.net/2026/02/18/espuma-dos-dias–sera-que-a-europa-vai-acordar-alguma-vez-por-thomas-fazi/;
  8. in: Claude Meyer, A China de Xi Jinping – Uma Ameaça à Paz e à Ordem Mundial, Guerra e Paz, Editores, Lda., Lisboa, Novembro de 2025, págs. 70-71;
  9. in: https://thebaffler.com/salvos/we-used-to-read-things-in-this-country-mccormack

Leituras

  1. Claude Meyer, A China de Xi Jinping – Uma Ameaça à Paz e à Ordem Mundial, Guerra e Paz, Editores, Lda., Lisboa, Novembro de 2025
  2. Federico Rampini, O Século Chinês, Editorial Presença, 2.ª edição, Lisboa, Maio, 2006
  3. François Bougon, Na cabeça de Xi, Livros Zigurate, Lisboa, Outubro de 2022
  4. Linda Jaivin, A Mais Breve História da China, Publicações D. Quixote, Alfragide, Junho de 2022
  5. Thierry Sanjuan (DIR.), Compreender a China Contemporânea, um dicionário, Edições 70, Lda., Lisboa, Abril de 2009

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