Imagens de um país sofrido e parado no tempo, Portugal, das suas aldeias, das suas crianças, nos tempos negros do fascismo dos anos 50-60 – Histórias em primeira mão (1/5). Por Júlio Marques Mota, com a colaboração de Eugénio Ferreira e Manuel Ramalhete

Nota de editor: 

Em virtude da sua extensão, este texto é publicado em 5 partes, hoje a primeira.

 

Histórias em primeira mão (*) (**)

Por Júlio Marques Mota, com a colaboração de Eugénio Ferreira e Manuel Ramalhete (***)

 

(*) Este texto é uma versão alargada de um texto meu, escrito e divulgado em Maio de 2024 e intitulado Carta aberta aos jovens de agora sobre a vida difícil dos jovens de outrora. Conta agora com uma maior presença de Eugénio Ferreira e com um texto adicional de Manuel Ramalhete.

(**) Os meus agradecimentos a António Amaro, José Eduardo, Eugénio Ferreira e Manuel Ramalhete pela colaboração havida e ao António Gomes Marques pela sua revisão cuidada do texto, tanto na versão de 2024 como na versão de agora. As gralhas que ainda se possam encontrar, são da minha inteira responsabilidade.

(***) Júlio Marques Mota, professor auxiliar da FEUC na situação de aposentado, Eugénio Ferreira, Investigador Principal no INRB, (agora INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária), na situação de aposentado, Manuel Ramalhete, professor associado no ISEG e alto quadro da GALP, agora na situação de aposentado. 

 

15 min de leitura

1ª parte – Imagens do jovem que fui e do contexto em que o fui.

 

Introdução

 

Caro Zé Eduardo

Sei que falaste com o meu amigo – que foi a tua casa buscar o vinagre Flavius, um vinagre de altíssima qualidade que é produzido em Espanha e que só se consegue comprar na Alemanha – sobre a carta que enquanto criança, 11 anos, enviei ao Ministro da Educação Nacional, Pires de Lima, creio eu.

Disseste ao meu amigo que o carteiro Abel fez seguir a carta que eu escrevi ao Ministro da Educação Nacional, isso é verdade, mas mandou-a carimbada ao lado do selo, o mesmo é dizer com dúvidas sobre a qualidade do selo. Foi o que ele me disse muito mais tarde.

Não foi bem assim e creio que vale a pena esclarecer esse pormenor e refletir um pouco sobre o que foram aqueles tempos, tempos do menino pobre que eu fui, tempos em que estava infelizmente bem acompanhado por muitos como eu, sejam os meninos residentes em Fratel, ou em pior situação que estes, sejam os meninos das localidades em volta de Fratel, que teriam de percorrer quilómetros e quilómetros para ir e vir à escola, fizesse frio ou calor, fizesse chuva ou bom tempo. Falemos então de um evento que faz agora setenta anos e procuremos reconstituir imagens desse evento e do contexto em que este se verificou, a partir de uma lente já muito fosca, já estragada pelo tempo que passou, a minha memória. Fá-lo-emos a dois níveis, a que acrescentámos a contribuição de Manuel Ramalhete sobre a realidade portuguesa, retratada, a partir da outra margem do Tejo, a partir do Alentejo:

  1. Imagens do jovem que fui e do contexto em que o fui.
  2. Imagens de uma aldeia, Fratel, das suas crianças, das suas fraternidades, das suas dificuldades em tempos de carência extrema
  3. Imagens sobre a dificuldade de se fazer de uma criança um jovem adulto na longa noite do fascismo em Portugal (um texto de Manuel Ramalhete [1])
  4. Conclusão

 

Expresso de uma outra forma, procuremos construir um texto que possa funcionar como uma espécie de carta aberta dirigida aos jovens de hoje, muitos dos quais se julgam cheios de direitos e vazios em deveres, sobre os tempos muito difíceis de ontem, tempos em que os seus avós eram as crianças de então, cheias de deveres e vazias em direitos.

 

1. Imagens do jovem que fui e do contexto em que o fui

Disseste ao meu amigo que o carteiro Abel fez seguir a carta que eu escrevi ao Ministro da Educação Nacional, isso é verdade, mas não é verdade que a mandou como carta normal, mandou-a carimbada ao lado do selo, o mesmo é dizer com dúvidas sobre a qualidade do selo, como também não é verdade que houve uma só carta. As cartas foram três e não apenas uma. Curiosamente, lembro-me fisicamente apenas da primeira. Vejamos a história do seu envio.

Faço anos em fevereiro, o meu pai só me mandou para a escola com 7 anos feitos e o argumento era o seguinte: tinha muito tempo pela frente para ir trabalhar. Este argumento voltou a funcionar quando faço a primeira classe. A professora Bárbara Baptista Martins falou com o meu pai e disse-lhe que era uma pena eu passar para a segunda classe; ela estaria disposta a passar-me para a terceira, recuperando um ano. O meu pai disse-lhe que não, repetiu-lhe o mesmo argumento, que eu tinha tempo para ir trabalhar.

Quando passo para a quarta classe, o professor José Baptista Martins tinha sido promovido a inspetor do ensino primário e a sua tia assumiu a quarta classe nesse ano. Numa das primeiras aulas da quarta classe, senão mesmo na primeira perguntou quem é que queria fazer a admissão ao liceu. Vários puseram a mão no ar, entre os quais eu. A professora depois informa que este ano as coisas mudaram. As explicações vão ser pagas e cada aluno terá de pagar 1500 escudos. Quando o diz, uma parte dos alunos baixa o braço entre os quais eu. Para termos uma ideia do que significava este valor, lembro que um camponês ganhava no máximo 18 escudos por dia e isto quando tinha trabalho. Se imaginarmos seis dias de trabalho por semana, 24 por mês, este valor correspondia a cerca de 3 meses e meio de trabalho, supondo que diariamente havia trabalho, o que era raro, muito raro.

Não houve nenhum atrito com esta informação. Continuei a ser o “seu” aluno, o aluno que a substituía nas perguntas aos alunos no quadro enquanto ela ensinava a outra classe. Como te lembras, eram sempre lecionadas duas classes por turma e havia duas turmas no que diz respeito aos rapazes, uma turma com as 1ª e 3ª classes e a outra com as 2ª e 4ª classes. Quando ela ensinava os meninos da segunda classe era eu que interrogava os alunos da quarta e os mandava à professora levar as reguadas do costume quando não respondiam bem, até que um dia apanhei eu, e por todos os anos da vida! No que diz respeito às meninas havia as quatro classes a serem lecionadas na mesma sala e com uma só professora, a professora Maria Neves.

O caricato disto era que eu continuava a ser o seu auxiliar nas explicações para a admissão ao liceu, tal como o era nas aulas, explicações estas dadas na sua casa, ao lado da loja do “ti” João Vicente, hoje loja do JJ. Mas não ia ser levado a fazer a admissão ao liceu porque não podia pagar o que ela exigia!

Termino a quarta classe com onze anos feitos. Não vou estudar, vou imediatamente trabalhar para a padaria-moagem do “ti” Joaquim Fernandes, o pai do Manuel Fernandes, um homem que se tivesse estudado seria um grande, muito grande, engenheiro. Não sei se recebia alguma coisa, mas seria pouco e ficava para a casa. Não me lembro de ver um tostão. Acho que de vez em quando a minha mãe me dava 10 tostões para rebuçados. Na base desses 10 tostões comprei a carta, que custou 5 tostões. Faltava o dinheiro para o selo.

À porta da padaria, que era junto à igreja, a seguir à casa do João Vicente no Rossio, vi um envelope com um selo que me pareceu limpo. Creio que a casa pertencia ao “ti” João Pires. E é ao lado da casa do teu tio Padre Zé. Olhei para o selo e pensei: isto passa bem por não estar carimbado. Com muito cuidado consegui descolá-lo e parecia-me perfeito. Escrevi a carta, com algumas rasuras apagadas com um fósforo molhado em lixívia. Do que me lembro é que nela eu considerava que o sistema era justo e como tal não podia pactuar com injustiça. E relatava a injustiça que sentia na pele, o que se passava com a professora Bárbara Baptista Martins.

Num sistema justo isso não poderia acontecer e era essa a razão da carta. No entanto hoje, 2024 e já com 81 anos contados, vejo que há nesta história algo que não entendo bem quanto a este meu comportamento: já não faria admissão ao liceu, estava colocado fora dessa carroça e, neste caso, estava então a lutar em nome de quê? De vingança contra a professora? Não, claramente não, como se testemunhará mais abaixo. Só tenho uma explicação: fazia-o em nome dos outros que se me seguiriam na quarta classe. Se for esta a explicação, pelo menos a mais plausível, poderei considerar que este foi o meu primeiro ato político. Será válida esta hipótese? Penso que sim, até pelo que foi a seguir toda a minha vida, mas só pode ser assim entendido se encarado de forma retrospetiva. Na altura, era a consequência pura e simples da religião católica aprendida e apreendida na Igreja onde até tinha feito a catequese e eu era dos que levava a sério a mensagem de Cristo, como muitos dos meus colegas de então e naquela idade! Para se ter uma ideia do peso das ideias do Cristianismo naquelas idades, ainda me lembro de uma homilia do Padre Aparício, vindo de Tinalhas, penso eu, dita nas festas de Fratel (setembro) sobre o filho pródigo. Depois da cerimónia religiosa, algumas daquelas crianças presentes na homilia juntaram-se a falar sobre a história e alguns de nós choraram, e um ou outro acharam que não deveria haver perdão. É uma história banal, dir-me-ão, mas não é. Diz-nos muito sobre o peso da formação moral obtida em tempos de infância. E, a ser assim, isso também nos diz que a mensagem de Cristo também é uma arma política. Quem no-lo disse desta forma foi o marxista Henri Lefebvre quando escreveu mais ou menos o seguinte: ignore-se Cristo (ou seja, a religião), mas nunca a sua mensagem.

Voltemos à carta. Para a enviar precisava da morada do Ministro. Não a tinha. Ora na moagem eu era ajudante de padeiro, ajudante de moleiro, onde também carregava com sacos de 50 Kg de trigo, e fazia a escrita da moagem. Ia, acho que uma vez por mês, a Castelo Branco entregar, ou para se verificar, a escrita que iria para Lisboa, ia ao funcionário distrital da Comissão Reguladora das Moagens de Ramas, organismo que, salvo erro, tinha sede na Avenida da Liberdade.

Escrevi ao Presidente da Comissão Reguladora, com uma carta enviada da moagem ao Presidente desta Comissão  a pedir que me informasse da morada do ministro da Educação Nacional. Ainda me lembro da resposta: Campo dos Mártires da Pátria, nº 2.

Na posse da morada, da carta escrita e do selo supostamente válido, envio a carta ao ministro e sem remetente à vista.

A carta vem devolvida. Ora, como eu mandava documentação dos registos na moagem para Lisboa, o carteiro Abel identificou a minha letra e diz-me mais ou menos isso: Júlio, veio devolvida uma carta, mas não tem remetente. Penso que é tua. Vai lá ver. E fui aos Correios, em frente da tua casa, e era a minha carta.

Aqui surge uma dor de cabeça, a carta vinha multada. Ora, eu queria estar no sigilo de toda a gente, mesmo dos meus pais e, portanto, a carta não podia ser aberta. Tinha de a levantar, mas para isso tinha de arranjar dois escudos! O fascismo era “justo”: era o preço da ida da carta, um escudo, e o preço da sua volta, outro escudo, pensei eu. A multa era apenas pagar o preço dos dois trajetos que a carta fez!

Como é que o arranjei, e sem grande margem de erro, o dinheiro terá sido arranjado pela seguinte via: o meu pai era um caçador de excelência, tinha uma espingarda de excelência, uma Sauer e Son que lhe foi vendida a bom preço pelo Dr. Valério quando este deixou de poder caçar. Tratava-se de uma espingarda que mais tarde “vendi” por amizade ao Manel Sequeira por 3 contos por ser camarada de caça do meu pai, quando me tinham oferecido 5 contos (um armeiro de Castelo Branco). Do cano dessa espingarda nunca mais vi uma peça de caça e a vinda do armeiro à minha terra para a comprar mostra que a espingarda estava bem cotada.

A relação do meu pai com o Dr. Valério era uma relação de amizade envolvida em alguma tensão, uma tensão de classes sociais. Eram conterrâneos, nascidos na zona de Abrantes, o meu pai tratava-lhe da herdade que tinha para os lados do Jeanome e quando o Dr. Valério precisava de oferecer várias peças de caça a gente de Lisboa era sempre ao meu pai que pedia para ir com ele caçar. E este nunca recusou e nunca lhe levou dinheiro por isso. Percebe-se assim o preço especial de venda da espingarda ao meu pai. Era uma espécie de relação simplificada do que Hegel escreveu sobre a relação senhor-escravo, ele precisava do meu pai e o meu pai para além de precisar dele sabia também que o médico precisava dele.

Uma pequeníssima história exemplifica a relação entre o meu pai e o Dr. Valério. Este era um médico extraordinário, que o diga o Zé Sequeira quando ele descobriu, com fracos meios de diagnóstico, a doença do pai que, por sua vez, ao nível hospitalar exigiu outros meios para a identificarem. Quanto às suas qualidades clínicas direi, e sou muito sincero ao dizê-lo, que nunca percebi porque é que um médico com uma tal capacidade de diagnóstico tinha “encalhado” no Fratel. Mas era homem de poucas palavras, aparentemente um homem seco, mas nunca fiquei com essa opinião. A história que passo a relatar exemplifica várias coisas entre as quais a humanidade do Dr. Valério. Um dia, um filho do Zé Lavrador, salvo erro de nome Francisco, já de partida para o Brasil, fica a saber que precisa de mais mil escudos do que o dinheiro que tinha. Caso contrário não poderia partir. O “ti” Zé Lavrador veio numa grande aflição ter com o meu pai a pedir que o ajudasse. Um pobre a pedir a outro pobre.

Ali, naquela aflição, havia duas pessoas possíveis para emprestar o dinheiro, o patrão do meu pai, Joaquim Fernandes, ou o médico, Dr. Valério. Presumo, presumo apenas, que o patrão não estaria no Fratel, uma vez que o meu pai vai pedir o dinheiro emprestado ao Dr. Valério. O curioso desta história resume-se ao seguinte: o pedido é feito não como um pedido, mas como uma obrigação a ser satisfeita pelo médico, tendo-lhe o meu pai dito mais ou menos o seguinte: preciso urgentemente de mil escudos para satisfazer necessidades ainda mais urgentes de um amigo meu. O empréstimo é-me feito a mim e não considero a hipótese de uma recusa da sua parte. E o empréstimo não foi recusado e nada lhe foi perguntado sobre a pessoa a quem o dinheiro seria entregue. O Francisco partiu para o Brasil. Mas daqui tira-se uma outra conclusão: eram tempos muito difíceis, mas eram também de uma enorme solidariedade entre os necessitados de então, o que hoje vemos cada vez menos. Nessa época, mil escudos era muito dinheiro e quem assumia a dívida face ao Dr. Valério era o meu pai e isto diz-nos que havia uma confiança absoluta entre ele e o pai do Francisco. E as contas, naturalmente, foram todas liquidadas.

Esta é uma história que vivi de perto. Quando trabalhava na moagem-padaria fui também ajudante do “ti” Zé Lavrador quando ali como pedreiro realizou umas pequenas obras. A quem passe pela estrada e olhe para o edifício que aí está vê um arco e umas escadas que dão acesso à parte de habitação. Foram feitas pelo “ti” Zé e eu fui o seu ajudante, tinha 11 anos. E houve sempre uma comunhão de ideias, de sentimentos, de pequenas histórias entre ele, eu e o meu pai, quando se trabalhou em conjunto, apesar de haver uma grande diferença de idades entre eles e eu.

Nesta história há um curioso pormenor. O Francisco teria sido, durante o meu tempo de menino, o primeiro emigrante da terra a sair para o Brasil e a organização da ida teria de ser feita pelo pai, o Zé Lavrador. Uma saída que julgo ter sido organizada em segredo. Talvez o meu pai soubesse. Para mim foi um espanto, uma pedrada no charco de uma terra onde nada disto acontecia. Como miúdo que era, ainda pensei que o Chico teria feito alguma coisa de muito mal e estaria de fugida. Tratou-se de uma ideia que descartei imediatamente porque se o fosse o pai não estaria metido na história e a coisa na minha cabeça ficou por aí. O que sucedeu para aquela necessidade dos mil escudos não sei, mas sei que foi assim.

Hoje, em 2024, penso que esta saída denota, de um lado e de outro, uma outra abertura perante o mundo pela parte quer do pai quer do filho, denota a vontade de se sair do confinamento que era a aldeia, onde, fora da economia de subsistência, praticamente nada mais subsistia. Vivia-se numa espécie de economia quase fechada, com os seus proprietários de terras, tipo a Dona Joaquina de Vila Velha de Ródão, tipo o senhor Domingos, uma terra com os seus camponeses, os seus ferreiros, os seus sapateiros, os seus oleiros, os seus carpinteiros, os seus pedreiros, os seus alfaiates, com a sua loja de panos, com a feira anual como grande mercado, e também com a sua moagem-padaria, onde se pagava o serviço de moagem não com dinheiro mas com a maquia, penso que era de 10% do valor obtido [2], com as suas lojas comerciais em torno de um recinto, o Rossio, a dar uma ideia de Idade Média, com as suas tabernas para os homens, e estas eram para eles verdadeiros espaços sociais [3], enquanto o espaço social das mulheres era a cozinha e as ruas para tagarelarem, o que nos faz lembrar o que escreveu Yuval Noah Harari em Sapiens – História Breve da Humanidade- De animais a deuses. E também com os seus intermediários de trocas com o exterior, a venderem o linho, os excedentes, poucos, de trigo, centeio, milho, a venderem a cortiça de quem tinha sobreiros, o azeite, a venderem os enchidos, a venderem o gado caprino etc., etc. No fim da sua vida o meu pai era um destes intermediários, em compra e venda de ovos, galinhas e cabritos que vendia para Lisboa. Autossubsistência quase total, era assim o país, era assim também a minha aldeia, uma aldeia onde quase nada acontecia fora da rotina e onde o escoamento único possível de pessoas era a ida para Lisboa. Foi assim que lá fui parar onde, emigrante dentro do meu próprio país, comecei uma nova vida, a de marçano.

Curiosamente nem aqui faltava o peso tutelar do fascismo, de resto já evidente no filtro social que o exame de admissão tipificava, pois, a maioria das crianças ficava impedida de continuar os seus estudos, eram barradas enquanto crianças de 10 anos, com o destino assim selado. Mais vale um ignorante certo do que um revolucionário em potência, parece ter sido a divisa do fascismo nesses anos duros da década de 1950. Depois veio a guerra, veio a abertura económica face a este confinamento, veio o aumento de liquidez no sistema e este aumento da massa monetária em circulação acelera a partir daí a queda do sistema.

Com a revisão deste texto e relativamente ao Zé Lavrador fiquei a saber, pelo seu neto, uma pequena história que confirma bem o que acabo de dizer e é um bom exemplo de um país violentamente parado no tempo, e de tal modo que a minha pequena história de criança que reage como reagiu era já um sinal de que outros tempos viriam, que outras crianças gritariam nem que fosse com cravos nos canos das espingardas, como aconteceu no dia 25 de Abril.

Diz-me o neto do Zé Lavrador:

“O meu avô, na companhia de mais dois homens, dos Montes de Baixo, decidiram emigrar para a França. Quando se soube, os fascistas do Fratel, (…) , informam a polícia política da altura da fuga do meu avô e esta polícia informa a polícia francesa (presumo que foi no tempo do governo de Vichy), tendo então recambiado o meu avô para Portugal.

O meu avô sempre deu a desculpa à família que o retorno se deveu a saudades da família. O meu avô tinha três filhos, o Francisco, o António, ainda vivo, e a Maria, a minha Mãe; ela dizia-me que eram pequenos quando isto aconteceu.

Uns anos antes de falecer, o Inspetor Baptista Martins contou ao meu tio António Lopes esta desventura que se passou com o meu avô Ti Zé Lavrador.

O meu avô era conhecido por ter ideias contrárias às do regime e daí a ser referido como comunista era uma distância muito ténue.

Devo acrescentar que o meu avô e o Inspetor Baptista Martins eram bastante amigos e, por isso, havia muito respeito entre ambos.

Entre o Júlio Dias (marceneiro) cuja oficina se situava em frente da casa dos meus tios e o meu avô também havia conversas políticas, daí associarem o meu avô ao que se designava na altura por «ser do contra, ou seja, comunista»“. (Fim de citação)

Curiosamente esta nota explica-me, 70 anos depois, a razão de ser do sigilo daquela saída que muito me espantou quando tinha 11 anos. Ficamos a saber que o Zé Lavrador não queria que o filho corresse os mesmos riscos que ele e, não o esqueçamos, o sistema político era o mesmo.

Mas retome-se a minha narrativa da carta enviada ao Ministro Pires de Lima. Como caçador de exceção, com uma espingarda de exceção obtida pela razão que acima se disse, e num tempo em que havia muita caça, eram muitas as peças que o meu pai caçava, era carne que se comia em casa, que se repartia com o “ti” Victor Alexandrino e com muita outra gente. Sublinho ainda que não havia frigoríficos. O meu pai nunca vendeu uma peça de caça fosse a quem fosse, havia quem o fazia, ele não, ele dava-as. Nunca vendeu uma peça que seja e, sublinhe-se, cada cartucho custava 1/8 da sua jorna diária, quando havia trabalho. Quando oferecia as peças de caça, era eu que as ia entregar e na volta havia quem me desse 25 tostões, fosse gente “rica” ou pobre. Destes [4], às vezes, com que custo! Dos ricos ainda me lembro de ter levado uma perdiz ao senhor João Serralheiro, creio ser esse o seu nome, que morava ao lado da tia do António Bonifácio, a Julieta do Ferrador, no Rossio. Tratava-se, ao que me dizem, “de um vereador nomeado da Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão e, para além de Presidente do Lagar do Fundo da Aldeia, nunca lhe foi conhecida uma profissão.” Aí, das mãos da empregada recebi uma boa gorjeta, 5 escudos! Mas este montante era a exceção. Normalmente, dava o dinheiro à minha mãe que me dava depois os 10 tostões do costume para os rebuçados! Neste último caso, não havia nada de comum entre o senhor João Serralheiro (não era tratado por “ti”, mas por senhor) e o meu pai, nada mesmo, talvez apenas o sentimento do meu pai de que ele estava doente e que lhe saberia bem uma canja de perdiz. Um sentimento de humanidade que é também reconhecido pelo outro lado, daí o valor da gorjeta! É a explicação que hoje encontro para esta minha entrega.

Nem sempre me davam 25 tostões e não os davam porque os não tinham. O curioso deste pormenor é que sempre que alguém, sobretudo se fosse pobre, caía à cama, era certo e sabido que uma peça de caça iria lá parar. Ainda me lembro, por exemplo, da “Ti” Zebelinha que morava ao cimo da minha rua e caiu doente. O meu pai, numa época do defeso, foi de propósito caçar uma perdiz para que ela comesse uma canja. Percebe-se a reação do Júlio V. quando há poucos anos se cruza comigo em Alpalhão e me agradece pela fome que os meus pais lhes mataram!

Pois bem, terão sido desses 25 tostões que saíram os dois escudos para resgatar a carta que o malandro do carteiro Abel não carimbou, ou melhor, que carimbou, mas ao lado do selo.

Não desisti, outros 25 tostões caíram no meu bolso. Comprei outra carta e outro selo. Escrevi, pois, uma segunda carta, esta já completamente regular. Não veio resposta ao fim de muito tempo, pelo que mandei uma terceira carta com outros 25 tostões que terão caído no meu bolso. Esta teimosia tem uma explicação que se pode deduzir da primeira carta. Eu acreditava no sistema, um sistema justo que teria de combater ao extremo as injustiças espontaneamente criadas, externas ao sistema. Só assim se entende, e para a época, a existência de uma terceira carta, a certeza de que, se recebida, a injustiça seria corrigida.

Nesta matéria o sistema foi justo à sua maneira, percebi-o eu no entretanto, no intervalo existente entre a segunda carta e o inquérito levantado à professora Baptista Martins. Com efeito, imaginemo-nos num mês de março friorento, desse mesmo ano, 1954. Estou à lareira com o meu pai, na casota que temos em frente à minha casa. Meto a mão ao bolso e tinha-me esquecido que estava lá a carta que me informava da morada do ministro. O meu pai viu o papel, não sabia ler, e perguntou que papel era aquele. Disse-lhe, contei-lhe a história. Uma história ali malvada, não sei que noite terá tido, como é que terá dormido, depois daquele relato sobre o que eu fiz e sobre a razão por que o fiz.

Situo este facto em março porque isso aconteceu numa noite em que havia frio, mas o dia seguinte, e desse dia eu lembro-me bem, era um dia de sol e de temperatura amena, um dia importante nesta história de uma criança que sonhava em ir estudar. Não sei como é que o poderia fazer, mas sonhava, sonhava que havia de ser médico e ajudar os pobres. Era o tempo da imaginação fácil, fértil, alimentada pelos folhetins do jornal O Século que religiosamente a “ti” Rosário Lajeta, mulher do Joaquim Coelho, compilava e me emprestava, e pelos livros do Emílio Salgari que o João Padeiro me dava a ler. Ri-te, eu rio-me agora que estou a escrever este texto sobre o que se passou há exatamente 70 anos. E lembro-me desse dia porquê? Lamento dizê-lo assim, como menino que era, o sistema era para mim um sistema justo e ali, nesse dia, tinha a adequada e conveniente confirmação com a vinda do inspetor José Baptista Martins ao meu local de trabalho e a dizer que não sabia quem era o autor da queixa contra a tia, como se explica a seguir.

O inspetor Baptista Martins, sobrinho da professora Bárbara Martins, meu professor na segunda classe, era nessa altura inspetor do ensino primário e depois foi um dos fundadores de uma obra brilhante para a época, a Telescola. Este veio à moagem-padaria, deixemos a serração de lado, falar com o meu pai e com o “ti” Joaquim Fernandes, o patrão. Estava preocupado, sabia que havia uma queixa contra a tia, mas não conseguia saber a origem da queixa! Pelo que conhecia da sua e nossa terra, o inspetor Baptista Martins só considerava duas pessoas como autoras possíveis da queixa, o meu pai que não sabia ler e o “ti” Joaquim Fernandes e vinha pedir àquele que a tivesse feito que retirasse a queixa. O meu pai disse-lhe: não fui eu nem foi o meu patrão, foi o meu filho, e ter-lhe-á contado a história da véspera e acrescentado: soube ontem que foi ele, e contou o caso da carta com a morada do ministro, soube assim que foi o meu filho; mas eu nunca lhe pedirei seja o que for a esse respeito, se quiser, senhor inspetor, peça-lhe o senhor, eu não. E o professor Baptista Martins nunca me veio pedir nada, verdade seja dita. Depois, ficou meu amigo até à sua morte.

A seguir, terminado o ano escolar, veio o inquérito à professora levantado pelo ministro Pires de Lima que se realizou na sede escolar do concelho, em Vila Velha de Ródão. O ministro fez o que achou que devia fazer [5]: deixar acabar o ano letivo. Ora, eu era menor, teria de ser acompanhado pela autoridade, e a autoridade, meu caro Zé Eduardo, era o teu pai, o regedor da época, António Eduardo. Lembro-me que fomos de burro até à estação, o miúdo ia a cavalo no burro e os dois adultos, o teu pai e o meu, iam a pé. Isto parece saído de uma lenda religiosa, mas foi assim mesmo. O inquérito foi feito a pente fino. Apenas a mãe do Alfredo Aires terá negado que a professora exigiu 1500 escudos.

No regresso, fomos recebidos no Rossio, ao pé da casa do marceneiro Júlio Dias, mais tarde transformada na loja da Cooperativa do Fratel, situada quase em frente do que era a loja da padaria, fomos recebidos em festa e com a expressão de alegria no ar proferida por várias pessoas: nós ganhámos. Era uma expressão de revolta, hoje insignificante, mas na altura era vista como reação a um problema de classes, entre pobres e supostos ricos, mas na terra não havia ricos, havia muitos pobres e apenas alguns remediados, mas claramente havia classes….

Entretanto a professora foi proibida de dar explicações a dinheiro aos seus alunos. Deixou de o fazer. Só admitia alunos para a admissão ao liceu que já tivessem feito a quarta classe, continuando aí a poder levar os seus 1500 escudos. Creio que foste uma vítima, meu caro Zé Eduardo, perdendo um ano escolar, para fazeres a admissão um ano mais tarde, e o sistema, diremos nós, provou assim que eu estava enganado, provou que era um sistema injusto, mas capaz de saber passar por ser o seu contrário. Mas disto eu não tive clara consciência, só mais tarde a tive enquanto marçano e depois operário.

Segundo constou, na altura terá sido metida uma cunha ao Engenheiro Araújo Correia, amigo de Salazar, e terá sido essa cunha que salvou a professora Bárbara de maior penalização. E seria uma pena que deixasse de lecionar pois era uma professora extraordinária, apesar das reguadas, mas isso era o sinal dos tempos de então, em que ir à escola primária em vez de estar a brincar não era ainda tomado como um acquis cultural, mas sim como um enorme constrangimento. No entanto, também era uma pena, e ainda maior, que muitos de nós não pudéssemos fazer a admissão ao liceu no tempo devido e, se queríamos fazê-la, teríamos de perder um ano e fazê-la depois de ter já feito a quarta-classe. Neste caso, para o sistema já não havia conflito de interesses, o sistema permitia que o baixo salário que era pago aos professores fosse compensado por uns extras como as compensações obtidas com as receitas da admissão ao liceu.

Isto pode não parecer importante, mas foi-o. No meu caso, por exemplo, ainda não tinha dezoito anos, era eu operário, quis fazer o segundo ano do ciclo no Pedro Nunes. Não o pude fazer. Foi recusada a minha admissão a exame. Já não me lembro bem das razões legais, mas penso que só poderia ser admitido a exame externo se fosse levado por uma escola privada porque não tinha feito a admissão ao liceu.

Depois disto tudo, anos depois, ainda fui a casa da professora Bárbara Baptista Martins, com o teu irmão Nicolau ou com o meu primo Zé do Mártir, filho do ferreiro que morava ao pé da capela do cemitério. Fui com um deles e fui visitá-la porque me incomodava estar de relações cortadas com aquela que, apesar de tudo, tinha sido a minha professora. Leia-se isto como se quiser; fui posto na rua e com a afirmação de que em toda a sua vida de professora só havia um aluno que ela detestava ver e esse aluno era eu.

A história da carta ao ministro é esta.

 

(continua)


Notas

[1] Dei a ler esta versão alargada ao meu amigo Manuel Ramalhete pedindo-lhe uma nota semelhante à escrita pelo Eugénio Ferreira. Disse-me que sim e aproveitou a ideia, e bem, para fazer uma espécie de carta aberta aos seus netos. Manda-ma e disse-me que aproveitasse dela o que eu entendesse. Decidi  inseri-la na íntegra como ponto 3 do meu texto sem lhe mexer exceto no seu título.

[2] Os lagares funcionavam da mesma maneira. Note-se que não havia moeda nestas transações: ambos os serviços eram pagos em natura, o que é próprio de sociedades pré-capitalistas, como depois vim a ensinar nas faculdades de Economia, ISCEF em Lisboa e FEUC em Coimbra. Hoje, depois da Troika, já não é assim. E esta moagem teve como efeito imediato a destruição do anterior modo de moagem, os moinhos do rio desapareceram e com eles a profissão de moleiro artesanal. Como o exemplifica a situação dos “ti” António e Zé Martinho. Assinale-se que a moagem tem aqui uma dupla inserção; enquanto forma de produzir é um processo de produção capitalista, mas enquanto método de obtenção de lucros é um método de produção pré-capitalista.

[3] De forma distintiva e de papel muito importante, na aldeia havia, e há ainda, a Sociedade Filarmónica de Educação e Beneficência Fratelense, uma das muitas instituições de ordem cultural que lamentavelmente os sucessivos governos têm quase ignorado em termos de apoios financeiros ao longo das últimas décadas. Que eu saiba, compensam estas Instituições (com I grande) apenas com o retorno do IVA sobre as suas despesas com os instrumentos. E é pena que assim tenha sido, e é pena que assim continue a ser. Como se irá ver com o atual governo. Para termos uma melhor noção da importância deste tipo de Instituições, saiba-se que muitos músicos aprenderam a ler uma pauta de música sem sequer saberem ler nem escrever.

[4] Deixem-me colocar aqui uma pequena nota. Estávamos em 1954 e, para se ter uma ideia de como se vivia em pobreza naqueles tempos, basta dizer que nalguns casos era depois o meu pai que ia ensinar a dona da casa a cozinhar a peça de caça oferecida! Muita daquela gente da aldeia nunca tinha tido uma peça de caça nas mãos, coelho, lebre ou perdiz, daí que era impossível saberem cozinhá-la.

[5] Depois deste texto estar escrito, informou-me um amigo meu de longa data que se cruzou na vida com o ministro Pires de Lima com quem falou e de quem gostou muito. A ideia que este meu amigo, homem de esquerda, tem de Pires de Lima é de que, do ponto de vista humano, era um homem extraordinário. O facto de ter esperado pelo final do ano letivo para desencadear o inquérito e o rigor com que este foi feito, todos os pais foram chamados a depor em Vila Velha de Ródão, podem ser considerados exemplos disso mesmo. O resultado esse já terá tido outra mão, a mão de Salazar.

 

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