Nota de editor:
Em virtude da sua extensão, este texto é publicado em 5 partes, hoje a segunda.
Histórias em primeira mão (2/5) (*) (**)
Por Júlio Marques Mota, com a colaboração de Eugénio Ferreira e Manuel Ramalhete (***)
(*) Este texto é uma versão alargada de um texto meu, escrito e divulgado em Maio de 2024 e intitulado Carta aberta aos jovens de agora sobre a vida difícil dos jovens de outrora. Conta agora com uma maior presença de Eugénio Ferreira e com um texto adicional de Manuel Ramalhete.
(**) Os meus agradecimentos a António Amaro, José Eduardo, Eugénio Ferreira e Manuel Ramalhete pela colaboração havida e ao António Gomes Marques pela sua revisão cuidada do texto, tanto na versão de 2024 como na versão de agora. As gralhas que ainda se possam encontrar, são da minha inteira responsabilidade.
(***) Júlio Marques Mota, professor auxiliar da FEUC na situação de aposentado, Eugénio Ferreira, Investigador Principal no INRB, (agora INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária), na situação de aposentado, Manuel Ramalhete, professor associado no ISEG e alto quadro da GALP, agora na situação de aposentado.
15 min de leitura
2ª parte – Imagens de uma aldeia, Fratel e das suas crianças, das suas fraternidades, das suas dificuldades em tempos de carência extrema (I)
Um amigo meu como reação à primeira parte do presente texto enviado ao Zé Eduardo escreve-me, dizendo:
“Olha lá esta sugestão:
poderias escrever uma carta aos jovens do nosso tempo, lembrando os pormenores e dificuldades por que passámos. Lembro os dias de escola em que os alunos “dos povos” chegavam encharcados após quilómetros a pé por caminhos enlameados. Ao meio-dia íamos a casa de amigos secar o fato e comer a merenda. Eu ia a casa do Augusto, que já partiu, boa gente.
Certamente, arranjarias material de todos os que gostariam de lembrar, mesmo sem qualquer ficção”. Fim de citação
Olho para o texto deste meu amigo da adolescência, penso na sua sugestão e relembro o que acima escrevi.
Curiosamente, nem aqui faltava o peso tutelar do fascismo, de resto já evidente no filtro social que o exame de admissão tipificava, pois a maioria das crianças ficava impedida de continuar os seus estudos, eram barradas enquanto crianças de 10 anos, com o destino assim selado. Mais vale um ignorante certo do que um revolucionário em potência, parece ter sido a divisa do fascismo nesses anos duros da década de 1950.
Hoje, 2026, ao reler este texto, senti a vontade de pedir ao Eugénio Ferreira, do Vilar de Boi, que me descrevesse com algum detalhe como foi a sua vida na escola primária e em Castelo Branco dos 12 aos 19 anos. Fi-lo e eis a resposta:
A) Escola Primária
A vida escolar (1955) começou aos 7 anos, com entrada no posto escolar, onde uma professora, (Nazaré, regente escolar) cuja escola era em sua casa, acolhia os alunos, (mais de 30) da primeira à terceira classe das aldeias vizinhas. Nessas condições difíceis, os alunos faziam a primeira classe em dois anos, a “primeira atrasada e a “primeira adiantada”, correspondendo às duas partes do livro de leitura. Felizmente, creio que fui talvez o primeiro aluno a quebrar esta regra, fazendo a primeira classe em apenas um ano, possivelmente por o meu pai ter feito a quarta classe e poder ajudar, se necessário.
Após o exame da terceira classe, os alunos que podiam continuar a estudar para a quarta classe, eram obrigados a frequentar a escola oficial da freguesia (Fratel) que distanciava cerca de 4 Km, percorridos a pé pelos caminhos que levavam à escola. Lembro-me que no inverno, nos dias de chuva, ficávamos molhados até à hora do almoço, que levávamos de casa, e éramos recebidos em casa dos alunos da aldeia, onde comíamos e nos aquecíamos. Fui amavelmente recebido em casa do Augusto Inácio.
[O Eugénio, como o Zé Eduardo e outros, fazem a quarta classe, mas não são levados a fazer a admissão ao liceu, devido à proibição de a professora Bárbara Martins não poder receber nem um cêntimo de aluno seu, de aluno da escola oficial. Depois de feita a quarta classe, já não eram seus alunos e estava livre de se fazer pagar pelo montante que quisesse. E o Eugénio continua a dizer-nos como foi a sua infância…]
Na escola oficial, apesar de bom aluno, fui obrigado a atrasar um ano (que passei a ensinar os outros) porque a professora (Bárbara Martins) recebia, creio que 1500 escudos, pela suposta preparação para o exame de admissão ao Liceu ou à escola Comercial e Industrial. Não esqueci este ano perdido, que muitos também sofreram na pele e a todos atrasou a vida. [Curiosamente, fico agora a saber que o Eugénio Ferreira me substituiu nas explicações de apoio aos seus colegas e, já agora, gratuitamente.]
B) A ida para o ensino secundário
Após o exame de admissão começava a parte mais difícil a que muito poucos tinham acesso devido às precárias condições económicas das gentes da freguesia. O mais usual era a ida para Castelo Branco, onde ficávamos hospedados em casas que recebiam estudantes em troca de algum dinheiro e de um cabaz alimentar que os familiares semanalmente levavam à cidade. A viagem dos familiares para a cidade não era fácil, obrigando a 7 – 10 km até ao comboio que levava à cidade, geralmente usando animais de carga.
Aqui deixem-me ganhar fôlego. Possivelmente sairia mais barato alugar um quarto em que se garantia algum cuidado familiar – isso seria fácil na época, quase impossível hoje – em vez do cabaz alimentar dados os custos de transporte e sobretudo o trabalho para se levar o cabaz e ver o filho. Se fosse calculado o valor dos produtos agrícolas a preços decentes, se fosse imputado um valor monetário decente ao dia perdido de trabalho, tudo isso ficaria mais caro do que alugar um quarto. Só que tudo isso pressuponha a liquidez monetária que não se tinha e o cabaz era uma espécie de troca direta, pelo serviço prestado ao filho, mas era uma troca direta embebida em fraternidade, fraternidade de quem dava o cabaz e agradecia pelos cuidados havidos com o filho, fraternidade de quem recebia o rapaz assegurando que estivessem descansados, nós olhamos por ele e ele porta-se muito bem. Mais à frente falarei de uma aluna minha de Pinhel sobre o mesmo tema. Mas o problema de liquidez podemos vê-lo ainda de uma outra forma. Em minha casa vivia-se mal, casa de pobre, mas nunca se passou fome porque se era preciso carne o meu pai ia à caça e sabia conservar as peças de carne, era preciso peixe o meu pai ia à pesca e sabia conservar o peixe. Tudo isto, independentemente de ser época do defeso ou não. Contornava-se assim a necessidade de liquidez, de dinheiro.
Poderei dizer que se vivia melhor em minha casa de pobre do que em muitas casas da pequena burguesia rural, tão explorada quanto o eram os camponeses, o que veremos mais à frente quando se falar dos cabritos e da troca desigual interna. E vivia-se assim porque o meu pai conseguia ultrapassar a falta de liquidez dada a sua relação quase que “íntima” com a natureza [6]. Esta intimidade com a natureza foi obtida nos tempos da sua orfandade, de bebé até final da sua adolescência, em que cresceu sem mãe porque esta morreu com o parto dele, e sem pai porque este, um GNR, foi por coação política primeiramente transferido para longe, zona de Almeirim, e depois expulso da GNR. Quando partiu, os filhos mais pequenos, o meu pai e uma irmã de nome Umbelina, ficaram. Não os poderia levar, tão pequenos eles eram. Como todas as crianças terá nascido aos berros, pela falta de calor que a barriga da mãe já não lhe podia dar, pela exigência de carinhos que dos outros haveria de ter e TEVE. Com estes cresceu e fez-se homem. Cresceu, trabalhou desde pequeno, sem direito a escola, sem direito a ser criança, e percebe-se bem o seu sentimento quanto a isso quando responde à professora Bárbara Martins que recusava a passagem do filho da primeira para a terceira classe porque este precisava de brincar. Mal ele sabia que depois da primária eu nunca mais iria ter oportunidade de brincar.
Foi moleiro à beira do Tejo e o facto de ser moleiro à beira do rio Tejo levou-o a conhecer as manhas dos peixes, as manhas do rio e com isso tornou-se um pescador de referência. Se conhecesse os escritos de Heráclito de Éfeso talvez lhe dissesse que o rio não o engana, é sempre o mesmo. Pescador de referência conhecia as artes da pesca como um verdadeiro perito, mas, curiosamente, nunca vendeu um peixe sequer. Se pescava a mais, ou conservava-o ou dava-o. Cresceu no rio, alimentou-se do rio onde pescava, cresceu no mato, alimentou-se a partir do mato onde caçava. Era no fundo a natureza a alimentar o meu pai, a criá-lo!
Neste contexto não será exagero dizer que o meu pai é sobretudo filho de múltiplas solidariedades daqueles que o criaram naquele tempo e desde muito pequenino. Talvez tenham sido essas solidariedades que o marcaram e que fizeram dele o que ele foi: um homem sempre atento às necessidades do outro, como se mostra pelas histórias da caça e da pesca relatadas. Pessoalmente conheci duas das pessoas que o criaram em Albarrol, o ti João e a ti Mariana, teria eu talvez uns 12 a 15 anos e não tinha a noção do que tudo isto representava socialmente. Não creio ter sido por pura coincidência, mas o certo é que o filho mais velho deste casal veio a casar com uma rapariga nossa vizinha do Fratel.
Eu, ao sair da adolescência, não fui capaz de perceber esse tipo de comportamento. Veja-se o seguinte: como camponês conheci-lhe dois ordenados, 16 e 18 escudos por dia, do nascer ao pôr do sol. Olhem-se para os números: um cartucho para matar uma peça de caça custava na época, 2,20 escudos. Eu na altura fiz as contas e cheguei a falar com um colega dele de caça, o senhor Álvaro, empregado dos Correios que, tal como eu, se espantava com aquela forma de ser. Era único a fazer o que fazia. Se admitirmos uma taxa de tiro falhado de 50%, diremos que cada peça de caça lhe custava 1/6 do seu dia de trabalho e frequentemente o trabalho escasseava. E dava parte delas!
Só hoje, em 2026, entendo isso. Um recente artigo de Rachel Nuwer – Como os relacionamentos na infância afetam o seu estilo de afeto adulto, de acordo com um grande novo estudo (Um estudo longitudinal prospectivo das associações entre experiências interpessoais na infância e na adolescência e as orientações de afeto dos adultos, ver aqui) – e de que em janeiro de 26 tive conhecimento, diz-nos o seguinte:
“Entre 2018 e 2022, 705 dos participantes originais do estudo, que na época tinham entre 26 e 31 anos, concordaram com um estudo de acompanhamento para reunir informações sobre os seus relacionamentos atuais com os seus pais, melhores amigos e parceiros românticos. Para esses 705 participantes, Dugan e os seus colegas cientistas sociais analisaram as associações entre a qualidade dos relacionamentos precoces e os estilos de afeto posteriores na idade adulta. Eles encontraram vários padrões notáveis. Primeiro, o relacionamento de uma pessoa com a sua mãe tendeu a preparar o terreno para o seu estilo de afeto posterior em geral, bem como para as suas abordagens específicas em relacionamentos individuais com amigos, parceiros românticos e pais. (…)
As experiências precoces com amigos próximos, porém, foram um prenúncio ainda mais forte do que os relacionamentos maternos para determinar a abordagem dos participantes — especificamente — em relação a relacionamentos românticos e amizades na vida adulta [7]. ‘Em geral, se uma pessoa teve amizades de alta qualidade e se sentiu ligado aos seus amigos na infância, então essa pessoa sentir-se-á mais segura em relacionamentos românticos e amizades aos 30 anos’, diz Dugan. Pessoas que desfrutaram de amizades cada vez mais próximas e profundas ao longo da infância e adolescência também mostraram ganhos significativos nessas áreas como adultos, acrescenta a investigadora Dugan.” Fim de citação.
Na linha desse estudo, tendo o meu pai sido criado, desde muito pequenino, com múltiplas e intensas solidariedades, acabo agora por perceber que foram estas solidariedades que o moldaram para a idade adulta e fizeram dele o homem solidário que ele foi. Um exemplo emblemático disso: há poucos anos estive a almoçar num restaurante em Alpalhão. Uma pessoa dirige-se a mim e diz-me, perguntando primeiro se eu o reconhecia. Disse-lhe que sim, disse-lhe como se chamava, sorriu e disse: quero agradecer-lhe a si as muitas vezes que os seus pais nos mataram a fome. Não o fiz antes, faço-o agora. Referia-se aos tempos de miséria e também aos seus pais e aos seus irmãos.
Pegando nisto eu direi que o mesmo se passou comigo – percorri sempre um terreno de múltiplas solidariedades e tento sempre ser para com outros aquilo que outros já foram para comigo. Até como professor fui assim, sem com isso perder a noção de exigência que a profissão e a dignidade dos alunos exigia. Também é assim que se explica este texto e a disponibilidade e amizade dos que nele participaram, jovens naqueles tempos malditos em que muitos deles não os vejo desde há cinquenta anos, mas os sentimentos de amizade ganhos na infância e na adolescência desse tempo, moldaram-nos e perduram ainda como se vê, a confirmar o que nos diz o estudo citado, sejam esses jovens Eugénio Ferreira, Manuel Ramalhete, António Amaro, António Bonifácio, José Eduardo ou outros [8].
Voltando ao que o Eugénio nos conta com a sua referência ao cabaz alimentar que levavam os pais a Castelo Branco, expressa essa dimensão da exploração da pequena burguesia rural, o mesmo é dizer da exploração intensiva do mundo rural levada a cabo de forma estrutural pelo fascismo. Diz-nos ele:
“As visitas às aldeias e família eram apenas nas férias.
Este foi um exemplo, entre alguns mais fáceis, outros mais difíceis, mas os sacrifícios foram de inestimável valor para o futuro de quem deles pode beneficiar.
A idade no Liceu foi entre os 12 e 19 anos.
As notícias durante o Liceu eram escassas, geralmente boca a boca entre os amigos e a “nossa onda era outra”. Não havia dinheiro para jornais, radiotelefonias eram poucas e a televisão era vista no salão dos bombeiros voluntários apenas aos fins de semana.
Por vezes alguém do grupo comprava revistas generalistas francesas ou alemãs e passava aos amigos.
Por volta dos 17 anos (1965) recebi um pequeno rádio portátil, onde conseguia ouvir a BBC, a Rádio Universidade e “ÀS ESCONDIDAS” e com interferências, a Rádio Argel e a voz inconfundível de Manuel Alegre.
Para leituras extra obrigatórias tinha quinzenalmente os livros diversificados da carrinha da Gulbenkian que devorava e mais tarde os livros para leitura mais séria da Biblioteca Municipal. Aqui tinha a restrição de não acesso aos do adesivo vermelho ou preto, guardados em armários, devido à pouca idade. Assim, gratuitamente tive acesso aos clássicos portugueses, russos, franceses, ingleses, etc”. Fim de citação
Hoje, os que restam desta geração serão na sua maioria avós, muitos deles com marcas no corpo e na alma por aqueles tempos extraordinariamente difíceis. O destino de muitos de nós era fixado naquela idade tanto pelas condições socioeconómicas dos pais como pelas condições escolares que balizam os projetos futuros. Viver no Fratel, não era a mesma coisa que viver nos Montes de Baixo ou de Cima, povoados da freguesia de Fratel. Nada disso, o que ainda complicou, e muito mais, as condições de crescimento de muitas das jovens crianças que viveram naquela década.
Fratel era sede de freguesia de um conjunto de terras, desde Gardete, Riscada, Juncal e Vermum no sentido de Lisboa e, no sentido de Castelo Branco, Piroledo, Vilar de Boi, Perdigão, Vale da Bezerra, Vilas Ruivas e não esquecendo também o povoado de nome Carepa. Eram quilómetros que diariamente tinham de ser percorridos, desde Gardete a Fratel, desde Vilas Ruivas a Fratel. Destes alunos ainda me lembro do Fernando de Gardete, do Manuel de Vilas Ruivas, do filho do senhor Dias, um descarregador da Estação de comboios de Fratel. Este menino diariamente tinha de fazer 10 quilómetros, dos quais 4 a subir, 4 a descer e dois em piso plano.
Claramente a capacidade aquisitiva de conhecimentos à chegada à escola seria menor do que a de qualquer aluno a viver na sede da freguesia. Esta diferenciação negativa era ainda agravada pela capacidade de fazer os trabalhos de casa, tão importantes naquelas idades. Relembro aqui um encontro banal com uma criança de 11 anos (no 5º ano) com quem me cruzei numa paragem do autocarro. Fiz-lhe perguntas sobre a tabuada e respondeu com uma notação de 4 e 5 e, quando a felicito, ela remete muito curiosamente para a professora que obrigava os alunos a escrever a tabuada, página a página, 15 vezes. Foi agradável ver estampado no rosto daquela menina, que eu não conhecia de lado nenhum, a alegria do trabalho feito e o reconhecimento também da exigência da sua professora da escola primária.
Imagine-se a falta de alegria de muitos destes meninos de 9-10 anos sujeitos a esta quilometragem, mas mais, imagine-se como teriam disponibilidade para fazer, já cansados de tanto andar, para organizar os seus trabalhos de casa, sendo certo de que pelo lado dos pais não poderiam contar com nenhuma ajuda, uma vez que a maioria deles não sabia ler nem escrever, tal como os meus, aliás. Eram, pois, diariamente percorridos quilómetros e quilómetros de ida e volta da escola, seja ao frio, ao vento, à chuva, ao calor, conforme a estação. Em que condições estariam todos estes meninos ao final de um dia de escola para poderem minimamente estudar e realizar os ditos trabalhos de casa? Fácil de calcular. Imagine-se como seria baixo o nível de criatividade para escrever como trabalho de casa o que se chamava então uma redação e todos nós sabemos a importância deste tipo de trabalhos de casa, naquelas idades!
Este era o carimbo da vida de gente ainda tão pequena para ficar com o destino já assim marcado, estreitamente balizado. Adicionemos-lhe a questão do exame de admissão, para aqueles que depois desta maratona de resistência ainda o desejavam fazer e o poderiam fazer e poderíamos dizer: o destino de todos aqueles meninos estava previamente determinado, selado, continuarem a ser ignorantes das coisas das letras mesmo que viessem a ser nada ignorantes nas coisas da vida. A maioria dos meninos da minha idade não poderia passar daqui e, mesmo aqui, a que custo para aqueles que viviam no Fratel, e pior ainda, se vivessem nos povoados em redor! A compor este ramalhete de inconvenientes graves para quem tem aquela idade, adicionemos-lhe a falta de uma adequada alimentação: nada substitui uma refeição de faca e garfo, nada substitui por fim a boa peça de fruta.
Chegados aqui, pedi ao Eugénio Ferreira que me explicasse como era a alimentação para todo um dia de escola daqueles meninos que andavam 8 a 10 quilómetros por dia para aprender a ler, a escrever, a contar, em suma, para aprender as ferramentas de base que mais tarde fariam deles gente adulta. E expliquei-lhe a razão de ser da minha pergunta. Aqui temos o que lhe escrevi:
Não te esqueças da última informação em falta – o que é que cada menino levava no seu saco para almoçar e merendar, uma refeição banal, ou seja, a comida que cada um levava no saco para o dia.
Vejamos agora porque é que isso me interessa. Repare-se: segundo Pordata, 100 escudos em 1960 são em poder de compra equivalente hoje a 52 euros. Ora um trabalhador rural ganhava nessa altura 18.00 escudos por cada dia de trabalho. Se trabalhava 20 dias por mês em média já era muitíssimo bom. Isso dá 360.00 escudos, ou seja, 3.6×52= 187 euros por mês. Somemos a este valor eventuais ganhos da mulher, o seu salário era cerca de metade do que o que um homem ganhava, e soma-lhe mais 70 euros por mês por alguns meios-dias que as mulheres fizessem na monda, na ceifa, na azeitona, tudo coisas sazonais. O total é de 257 euros. A receita do lar seria então em média mensal de 257 euros. Imagine que o casal tem dois filhos pequenos.
Em termos alimentares, da horta arrendada como era o caso dos camponeses sem terra, obtém os legumes, as batatas, as cebolas, os alhos, as cenouras, etc. Na horta não há fruta exceto laranjeira porque as árvores de fruto comem a terra, é o que se dizia. Podemos considerar que o custo real destes produtos obtidos da terra seria 1/10 do seu valor de mercado. Para o cabaz alimentar era agora preciso dinheiro para compra de peixe, carne, massas, farinha, pão, arroz, açúcar, azeite, etc. E não esquecer que desta verba saía ainda o dinheiro para vestir e calçar, para despesas de saúde e outras.
Azeite? Não estamos numa terra de muito azeite? Perguntarás tu. Sim, azeite. Estou a falar do camponês sem terra, logo sem oliveiras. A estes camponeses o que lhe era permitido era o landeio (landeio – é a apanha da azeitona que caiu no chão devido ao amadurecimento prematuro, à força do vento ou da chuva) e isto fazia-se entre meados de setembro e até 1 de novembro, data oficial para início da safra da azeitona. Eu era tido como um perito nisto – depois da escola, sábados e domingos aí ia eu à apanha da azeitona, ou seja, teria uma razoável motricidade fina, o que se confirma quando entrei para a moagem e era considerado um bom picador de mós, um trabalho que impunha alguma precisão.
E então o porco? Perguntarás tu. Bom, aqui mais cuidado. O leitão custava dinheiro e muitas vezes o porco a meio da sua criação morria por doença. Assim se escapava a receita e ficava apenas a despesa. Adicione-se ainda o facto de que a parte final da alimentação do suíno era cara – normalmente com muito milho. Parte, uma grande parte era vendida, em presunto, chouriços, paio, painho, farinheiras e morcelas. O que ficava em casa era muito pouco: algumas morcelas, bucho, algumas farinheiras, um ou outro chouriço e um ou outro painho, para a festa da terra em setembro e para dar ao padre na Páscoa, a dita côngrua e, por fim, ficavam ainda os ossos e o toucinho.
Há que lembrar que no tempo do fascismo os preços agrícolas eram provatoriamente baixos. Com estes preços intencionalmente baixos, isto era uma forma de o campo estar a sustentar os baixos salários monetários da indústria, ficamos com a perceção de criar um porco, para além do que ficava em casa de carne e deduzidas as despesas globais da sua criação, era um pouco como estar a trabalhar para aquecer e para aproveitar os restos da comida de casa.
Dado todo este contexto deixo uma pergunta a qualquer dona de casa da cidade:
Tem dez euros por dia para alimentar, com algumas moedas poupadas para as despesas anuais de vestir e calçar, ignorando a renda de casa, a água e a luz, uma família constituída por marido e mulher e dois filhos pequenos. Estabeleça então a ementa para dois dias com pequeno-almoço, almoço e jantar, portanto, estabeleça a ementa com cerca de 20 euros no total. Responder-nos-ão: impossível fazer um regime alimentar para dois dias com esse montante. Impossível. Não há imaginação que nos leve a ser capaz de responder ao seu pedido, esta é a resposta que obteremos. Eu também não sei responder [9], acrescento eu agora, eu que passei por grande parte disto tudo.
Estes são os dados da altura, na minha e na tua terra também. Ora o que os meninos de fora do Fratel traziam para comer em dia de escola tem de refletir essa impossibilidade, mas agora como sendo uma triste realidade, daí a minha insistência na pergunta, mas repara numa diferença que não é de puro pormenor: para a mesma situação económica não é a mesma coisa ir comer a casa, o meu caso porque vivia no Fratel, ou trazer a comida de casa, o vosso caso, que teriam de andar quilómetros para cá e para lá.
E aqui está o que me respondeu e a resposta veio e na linha do que eu disse antes:
“O almoço e o lanche eram levados em sacolas de pano feitos pelas famílias. A base era sempre um naco de pão (trigo, milho ou centeio) cozido no forno comunitário ou pessoal, acompanhado do chamado “conduto”, que variava conforme a época do ano. Este era colocado geralmente numa caixa de alumínio roscada, sendo composto principalmente por queijo seco, carne de porco, carne de aves de capoeira, coelho, bacalhau, peixe frito, ovos e aquilo que se podia arranjar nas hortas. Apenas o bacalhau, a massa e o arroz eram adquiridos na mercearia. (O sublinhado é meu [10])
Esta ementa variava muito de acordo com as possibilidades de cada família e mesmo aqui se viam diferenças entre os alunos, que muitas vezes a partilhavam com os amigos. (O sublinhado é meu)
Recordo que no caminho de regresso a casa, os restos do almoço eram o nosso lanche, acompanhando as habituais brincadeiras.
Geralmente, nas aldeias todas as famílias tinham condições para cultivar um mínimo de terrenos agrícolas, que permitia uma subsistência digna para o dia a dia.
Pelo que me era dado a entender na altura, o mesmo não se passava na sede de freguesia, onde as desigualdades eram enormes e algumas famílias não tinham sequer essa fraca possibilidade”. Fim de citação
Há aqui alguns detalhes curiosos:
- A ementa dele já era de luxo para a época. Repare-se: o pão era cozido em forno de lenha ou de particular, hoje dir-se-ia de forno privado. Mas quem é que tinha forno particular?
- O coelho aqui refere-se a coelho manso. No caso da minha terra e na minha época havia duas ou três pessoas que tinham coelhos de cria, coelhos mansos, nada mais, ou seja, era petisco que a maioria dos miúdos da minha terra não mastigava.
- Era sempre o peixe barato, o que chegava às aldeias, ou então era peixe do rio, com muitas espinhas, não aconselhável para miúdos. Era um passaporte para se engasgarem. Uma pequena história: havia um amigo do meu pai, o senhor Bandeira, cujo filho, de nome Fernando de quem eu era amigo, foi a uma pescaria de jovens organizada pelo meu pai. No meio do grande almoço que com peixe do rio ali se faz, debaixo da ponte do comboio, o Fernando dirige-se ao meu pai: ti Adriano, por favor, não diga ao meu pai que eu comi peixe. Peixe, e sobretudo peixe de muita espinha, era uma coisa que ele rejeitava em casa, sistematicamente.
- Quanto à carne de porco com algumas exceções, o Eugénio confirma o que eu disse acima: para a maioria dos meninos eram quase sempre as carnes menos nobres que se comiam; as outras carnes comiam-nas quem as pagava. Iam em cestos de vime para as grandes cidades, onde chegavam de madrugada.
- O problema da liquidez, ou seja, da falta de dinheiro atravessa todo o modo de vida daquela gente. O Eugénio fala-nos de uma ementa com galinha. Não seria muito habitual no meu tempo – as galinhas criavam-se, mas a maioria delas era para vender, tal como os ovos. Não foi por acaso que na parte final da sua vida, o meu pai era comerciante de carnes, galinhas e ovos, que vendia para Lisboa. Galinhas ou porcos, a lógica era a mesma: precisavam-se de escudos para olear a máquina no seu dia a dia, daí que o que ficava destas produções para autoconsumo era sempre o mínimo possível. O exemplo da falta de liquidez, de dinheiro, mais evidente temo-lo nos lugares ou na moagem onde eu fui moleiro: a contrapartida de moer trigo numa moagem ou de moer azeitona num lagar não era paga em dinheiro: era em natura, em percentagem do produto que se moía, a dita maquia que naquela época, se bem me lembro, era de 10%.
- Nas pequenas aldeolas em torno da sede de freguesia, os camponeses eram menos desiguais do que no Fratel, pobres sim, mas mais iguais, diriam, enquanto na minha terra, onde a riqueza rural era maior, tudo se passava como se, o que ali era verdade, o aumento de riqueza vá a par com o aumento da desigualdade, com o aumento da pobreza. Mas mesmo nessas terras pequenas a diferença de ementa marcava as desigualdades sociais existentes em casa.
- Olho para a descrição da ementa referida e relembro a do meu pai. Na ementa deste, esta era constituída por um bocado de pão, de abóbora frita, ou de metade de um ovo em omelete, ou uns peixinhos da horta, ou ainda de um terço de uma sardinha, o que não consigo acreditar, mas o Eugénio fala-nos da quarta classe, fala-nos de 1959 e o meu pai falava-me de quando tinha talvez cerca de 10 anos ou mesmo menos, ou seja, por volta de 1928. Cerca de 30 anos depois, a estrutura alimentar era praticamente a mesma, um bocado de pão e “conduto”, talvez este um pouco mais variado e de mais quantidade, como se o país tivesse estado parado no tempo ou evoluísse ao ritmo com que evolui a lesma em marcha. Este, talvez a expressão máxima do que era o fascismo, que se alimentava ou se sustentava do enorme bloqueio que ele próprio constituía face ao desenvolvimento possível e desejável. A questão da admissão ao ensino médio representava exatamente um desses travões: o ensino primário era de qualidade, muito mais do que hoje, porquê então um exame de admissão ao Liceu e com a carga que tinha? Sob a capa da qualidade, do mérito, estuda só quem o merece, escondia-se um poderoso filtro de barreira à ascensão social.
Banalidade isto, dir-se-á, mas a isto eu digo que não é nenhuma banalidade. E exemplifiquemos comigo próprio: naquele tempo tinha-se a ideia de que as árvores de fruto secavam as terras e daí estávamos a um passo muito curto para se considerar que comer fruta era um luxo e caro por conduzir à redução dos produtos hortícolas que se desejavam. Excetuava-se aqui as laranjeiras, sempre juntas ao poço da horta. Isto era tão marcante naquele tempo que ainda hoje me lembro da primeira fruta de jeito que terei comido, dada pelo Nicolau Eduardo quando me cruzei com ele lá para o lado da Cruz das Pedras Altas ou do Poço de Linho, onde o pai, o regedor, António Eduardo, tinha uma horta grande e com diversas árvores de fruto. Terei comido à grande e à francesa. Também ainda me lembro de ter ajudado o Manel da Vilas Ruivas nuns problemas na quarta classe e de ele me ter trazido depois, em jeito de agradecimento, um pequeno saco com maçãs. E não é por acaso que setenta anos depois ainda tenho na memória estas imagens.
Tendo em conta a seriedade do ensino ministrado e do rigor dos exames, direi que aqueles que concluíram naquela altura, e mesmo depois, a quarta classe serão verdadeiros heróis contra a ignorância pretendida pelo fascismo para a maioria da população do país. Foram meninos a quem não foi dado o direito de serem meninos, desde crianças tiveram de ser adultos à sua escala, uma realidade que atravessou o país naquele tempo, como muito bem nos lembra Soeiro Pereira Gomes. Reconhecê-lo julgo ser um dever dos mais novos e estes, quando olham para os seus avós, devem perceber que as rugas que têm na cara não são apenas o resultado da idade alcançada, são também o resultado da vida vivida e sofrida para chegarem aonde chegaram, seja qualquer que seja o ponto a que chegaram. É essa verdade que julgamos assumida no poema de José Mário Branco quando nos canta:
Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
(continua)
______________
Notas
[6] Disto dou quatro pequenos exemplos: 1) disse-me um dia o Victor Alexandrino, um trabalhador rural e amigo dele, que foi ele que ensinou as gentes de Fratel a podar oliveiras de forma adequada; 2) disse-me o senhor Justo de Gardete, pequeno proprietário agrícola, e cujo pai foi patrão do meu pai no Alentejo, que foi ele que os ensinou a “calar” o melão entre outras artes na agricultura; 3) era sucessivamente solicitado para fazer enxertias. 4) havendo pescadores na terra, os António e Zé Martinho, é ele que moderniza as artes da pesca no Fratel, com outras formas de pescar, com outro tipo de redes. Num universo quase completamente fechado como era o de Fratel, com a sua “fronteira” que era a estação do caminho de ferro e numa situação igual à de muitas outras terras portuguesas, não havia desenvolvimento das forças produtivas, vulgo progresso técnico, e na deslocação do meu pai do Alentejo [era natural de Gavião] para o Fratel ele transporta consigo o “desenvolvimento tecnológico” e introdu-lo na zona. Isto pode ser visto à imagem do país, um país fechado e de pequena dimensão, não progride, regride, e isto foi o que nos aconteceu em Portugal, com o isolamento imposto pelo fascismo.
[7] Nota do tradutor: Se esta tese está correta, isso significa que deveremos ter muito mais cuidado com a forma como educamos as nossas crianças, os pais dos adultos de amanhã, assegurando-lhes condições de crescimento físico e mental adequados, em vez de os enfiarmos em creches diminutas ou em escolas sem espaços de recreio adequados onde não se pode nem brincar, nem conviver e, sobretudo, não os enfiar em salas de aula/ aprendizagem grandes. É de pequenos que se moldam os adultos de amanhã, não o esqueçamos. Veja-se um anexo sobre a crise do ensino nos EUA, onde se reconhece que o número de alunos com atraso em leitura e matemática na primária,
“já é suficientemente preocupante, dado que a aprendizagem é cumulativa e é difícil para as crianças recuperarem o atraso, mas as médias mascaram o que especialistas chamam de efeito de “leque” (fanning effect) — uma disparidade crescente entre as notas dos alunos de alto desempenho e os de baixo desempenho”
ou ainda onde se diz que,
“a educação está a sofrer de algo mais profundo e de inerradicável do que uma doença. Os adultos que têm a melhor visão de dentro do sistema — professores e administradores — dirão que tudo começa logo no início” (ver Andrew Rice, How Public Education Failed in the Liberal Enclaves (original aqui) ( o sublinhado é nosso)
[8] Na mesma linha de raciocínio sobre a importância dos referenciais obtidos com a formação havida na infância e adolescência para a vida futura, para a vida adulta, vejamos um exemplo que nos é apresentado por James Breckwoldt ( original aqui) no artigo intitulado How The Simpsons Explain America’s Political Realignment, onde o autor nos relata:
“Quando observamos eleitores com mais de 75 anos, a categoria de idade permanece a mesma, mas as pessoas dentro dela mudam de eleição para eleição. Do final da década de 1980 até ao ano 2000, o grupo de mais de 75 anos foi dominado pela “Geração Grandiosa” (Greatest Generation). (ver aqui), [NT.isto é, trata-se da geração dos que nasceram entre 1901 e 1927]
Gerações moldadas pelas mesmas experiências históricas frequentemente carregam esses instintos políticos consigo pelo resto da vida. Esta geração cresceu sob o governo do presidente republicano Herbert Hoover, cuja administração se tornou sinónimo de colapso económico. Em seguida, viveram o New Deal e a vitória na Segunda Guerra Mundial sob o presidente democrata Franklin D. Roosevelt. Como resultado, a “Geração Grandiosa” desenvolveu uma ligação duradoura ao Partido Democrata que não desapareceu com o tempo”.
Nesta mesma linha de raciocínio percebe-se que a maioria dos nossos jovens adolescentes e jovens adultos, criados e marcados pelo vazio de ideias e de soluções para os seus problemas expressos pelos partidos do arco do poder, PS e PSD, se desloquem e de uma forma estável para a Iniciativa Liberal Mais uma vez as marcas criadas nas fases importantes do crescimento intelectual a determinarem o comportamento futuro.
[9] Mas sei o que o meu pai levava de comida para o dia quando era pequeno: um bocado de pão e um frito de abóbora ou metade de uma omelete de um ovo!
[10] Forno comunitário também chamado forno do povo- era um forno de todos.

