Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
14 min de leitura
Os bárbaros contra a civilização
Análise crítica e detalhada do conflito desencadeado pelos Estados Unidos e Israel contra o Irão
Por Christophe Le Boucher (Politicoboy)
Publicado por
em 5 de Março de 2026 (original aqui)
As meninas da pequena cidade de Minab mal tinham começado a sua semana quando a sua escola foi bombardeada pela coligação israelo-americana. Mais de 140 crianças e as 26 professoras foram mortas, além de uma centena de feridos graves — queimados ou esmagados pelos escombros — que carregarão para sempre o trauma deste cataclismo. O The Guardian descreve cenas de horror absoluto, onde pedaços de braços de crianças de seis anos estão ao lado de fragmentos de mochilas cor-de-rosa. Esta escola para raparigas tornou-se o palco do primeiro massacre de grande dimensão cometido pelos Ocidentais na sua guerra contra o Irão. Um horror ocorrido nas primeiras horas do conflito, de uma dimensão sem igual desde as atrocidades cometidas durante a Guerra do Vietname.
Nem Israel nem os Estados Unidos negaram o crime, simplesmente qualificado de “tragédia, se confirmada” pelo secretário de Estado americano Marco Rubio. Um antigo quartel dos Guardas da Revolução iraniana encontrava-se nas proximidades, mas já não está em funcionamento há cerca de dez anos. A explicação mais generosa consiste em supor que o alvo, escolhido com base em informações desatualizadas, era essa antiga base militar.
De qualquer forma, o massacre de jovens iranianas não constitui a única tragédia deste início de guerra. Israel danificou pelo menos dois hospitais, dez centros médicos, um centro do crescente vermelho e bombardeou um ginásio. Um palácio listado no património da UNESCO foi devastado. O balanço oficial é de mais de 1.000 mortos civis ao fim de quatro dias de guerra, enquanto Israel e os Estados Unidos incentivam os 10 milhões de habitantes de Teerão a abandonar a cidade. O jornal conservador britânico Telegraph fala em “apocalipse“ marcado por “hospitais em chamas e crianças sob os escombros” em Teerão, onde “milhões de habitantes estão presos pelos bombardeios enquanto os alimentos e os medicamentos escasseiam e o balanço humano se agrava”.
Está agora em causa armar os separatistas curdos, enquanto os ataques se concentram nos centros do poder político e nos quartéis da polícia, em parte nas regiões conhecidas pelas suas tensões étnicas. Tudo isto para incitar a guerra civil e o colapso do regime. Com esse objetivo, Israel visaria doravante as infraestruturas civis através de “ataques espetaculares em zonas residenciais”, em conformidade com a doutrina Dahiya aplicada em Gaza, supostamente para incitar a população bombardeada a voltar-se contra os seus dirigentes.
A decapitação dos 40 principais líderes do regime iraniano, incluindo o Guia Supremo Khamenei, é geralmente descrita pelos meios de comunicação como um triplo feito (militar, tecnológico, de informações). No entanto, marca a ultrapassagem de um novo limiar na condução da guerra. À custa de numerosas vidas inocentes, dirigentes civis são assassinados com total impunidade. Imaginar que, nos anos vindouros e com o aperfeiçoamento das tecnologias de “baixo custo”, os dirigentes dos países ocidentais estarão imunizados contra este tipo de táticas afigura-se bastante otimista.

De forma perfeitamente prevista pelos serviços de informação americanos, o conflito estendeu-se imediatamente a toda a região, com soldados americanos matando cerca de dez manifestantes diante do consulado do Paquistão ao atirarem contra a multidão, entre outros dramas.
Esta selvajaria ocorre com o apoio dos europeus e fora de qualquer enquadramento legal. Aqueles que denunciavam, com razão, a repressão sangrenta do regime iraniano nada dizem diante do nível de horrores desencadeados pela coaligação ocidental contra o Irão e o Líbano nos últimos cinco dias. E isso enquanto a réplica iraniana inflamou a região, provocou um disparar dos preços do gás e do petróleo e a interrupção do tráfego marítimo pelo estreito de Ormuz, pelo qual transitam 20% do gás e petróleo mundiais.
O que leva a formular duas questões essenciais: como foram os EUA levados a desencadear esta guerra, e com que objetivo?
Os Estados Unidos um país às ordens de Israel?
O desencadeamento do conflito pode muito bem constituir um crime de guerra em si mesmo. O facto de o regime iraniano ser uma ditadura sanguinária e teocrática não justifica uma tal agressão, cujas primeiras vítimas são os civis. É ilegal do ponto de vista do direito internacional e da Constituição americana. Trata-se igualmente da mais flagrante quebra de promessa eleitoral da história moderna por parte de um presidente americano. Trump alertara por diversas vezes para o risco de Barack Obama atacar o Irão para “se fazer reeleger” ou caso “a sua taxa de aprovação nas sondagens caísse a pique”. Em 2016, fustigara o intervencionismo americano. Em 2024, voltara a apresentar-se como o presidente da paz, acusando simultaneamente os democratas de quererem desencadear novas guerras. Ainda há poucos meses, reclamava o Prémio Nobel em recompensa dos seus esforços diplomáticos. Naturalmente, como já havíamos escrito por diversas vezes, Trump nunca foi um isolacionista, uma pomba ou um não-intervencionista. Mas conseguira vender esta fábula ao seu eleitorado e a numerosos comentadores.
O presidente mudou frequentemente de argumentos para justificar esta guerra. Depois de ter evocado o programa nuclear iraniano, que ele próprio afirmou ter “totalmente obliterado”, falou da ameaça iminente representada pelos mísseis balísticos iranianos. Pretextos que recordam a guerra no Iraque e que foram desmentidos pelos próprios serviços secretos americanos.
A investigação do New York Times e as declarações do Secretário de Estado americano são bem mais claras. Israel forçou os Estados Unidos a entrar em guerra. Para o Times, “Netanyahu esforçou-se por convencer Trump a agir, e nenhum membro da sua administração se pronunciou contra a opção militar”. Trump explicou ao jornalista Tucker Carlson, única voz dissidente com acesso ao presidente americano, que “não tenho outra escolha senão participar no ataque que Israel vai lançar”. Marco Rubio confirmou este sentimento ao justificar o ataque americano: “o Irão constituía uma ameaça, porque Israel ia atacá-los e o Irão teria replicado contra os Estados Unidos”.
Além da lógica absurda de tal declaração, a hipótese implícita de uma represália contra os EUA não tinha nada de certo. Durante a guerra dos 12 dias de 2025, o Irão tinha tido o cuidado de não envolver os Estados Unidos no conflito.
O facto de Israel querer empurrar os Estados Unidos para entrar em guerra não é nenhum segredo. Netanyahu gabou-se disso publicamente, depois de ter declarado na televisão americana que passara os últimos 40 anos da sua vida a tentar convencer os diferentes presidentes americanos a intervirem no Irão.
Para além do interesse pessoal do líder israelita em manter o seu país em estado de guerra permanente — tendo em conta o seu papel no ataque de 7 de outubro e os seus processos judiciais —, o objetivo israelita é claro: eliminar “preventivamente” uma ameaça. O facto de Israel dispor de 200 ogivas nucleares e de uma superioridade militar sem qualquer comparação torna essa ameaça bastante relativa. E certamente não existencial, ao contrário da recíproca. No entanto, estará Trump “nas mãos de Israel” ao ponto de tomar decisões tão cruciais contra a sua própria vontade? Ou terá sido empurrado pela máquina americana na direção desejada por Israel?
De 1953 a 2026: a perseguição americana contra o Irão
Trump evocou a hostilidade constante do regime iraniano em relação aos Estados Unidos. Mas convém contextualizar os factos. Em 1953, os Estados Unidos e o Reino Unido organizaram um golpe de Estado contra o primeiro-ministro Mossadeq, que havia obtido do parlamento iraniano a aprovação de um texto visando nacionalizar os recursos petrolíferos. Uma ditadura de uma brutalidade inaudita, descrita de maneira aterrorizante pelo jornalista Ryszard Kapuscinski no seu livro O Xá, é instalada com o apoio dos ocidentais. Em 1979, o Xá é derrubado pela revolução islâmica. Com a ajuda dos Estados Unidos, o Iraque de Saddam Hussein tenta invadir o Irão. Uma guerra de oito anos irrompe, marcada pelo uso repetitivo de armas químicas pelo Iraque com a ajuda da CIA.
Após a guerra do Iraque, o Irão é colocado no “eixo do mal” por George W. Bush. Numerosos dirigentes e estrategas americanos clamam pelo bombardeamento do país. Embora o ayatola Khamenei emita uma fatwa proibindo os iranianos de se dotarem de uma arma nuclear, o programa atómico civil toma um rumo inquietante. Em 2015, Barack Obama assina o JCPOA, um acordo destinado a deter o programa nuclear militar iraniano em troca do levantamento progressivo das sanções económicas. A China, a Rússia, a França, o Reino Unido e a Alemanha são co-signatários. Trump retira unilateralmente os Estados Unidos desse acordo em 2017, apesar do Irão estar a honrar os seus termos. O Irão, que tinha desempenhado um papel determinante na destruição do Estado Islâmico no Iraque, vê-se submetido a sanções drásticas. Trump ordena o assassinato do líder dos Guardiães da Revolução, Qassem Soleimani, em 2019. Em 2024, Israel assassina dirigentes iranianos ao bombardear o consulado de Damasco.
Em 2025, em plena fase de negociações visando um acordo nuclear, Israel ataca o Irão e assassina os diplomatas responsáveis pelas negociações. Uma guerra de 12 dias termina com o bombardeamento dos locais de enriquecimento de urânio pelos Estados Unidos e um cessar-fogo, podendo cada campo reivindicar a vitória.
Em 2026, Trump mobiliza novamente forças americanas na região. Uma primeira ronda de negociações tem lugar em meados de fevereiro, descrita como encorajadora pelos mediadores do Omã. Na realidade, Trump e os israelitas já estavam a preparar a ofensiva, que é desencadeada em pleno decorrer de uma segunda ronda de negociações, cinco horas após a receção da proposta iraniana aceitando submeter-se às principais condições americanas em matéria nuclear, oferecendo simultaneamente acesso aos recursos petrolíferos.
Mudança de dirigentes ou guerra civil: os objetivos americanos diferem dos objetivos israelitas
Donald Trump definiu uma série de objetivos militares e políticos para justificar a entrada em guerra dos Estados Unidos. Estaria em causa destruir o programa nuclear iraniano (que já tinha sido “obliterado” pelos ataques realizados em 2025), destruir o programa de mísseis balísticos do Irão e destruir as suas forças navais que ameaçam a circulação de mercadorias através do estreito de Ormuz. Não está de modo algum em causa trazer a democracia ao Irão, como confirmou o ministro da Guerra americano, o antigo apresentador da FoxNews Peter Hegseth.
O próprio Trump reconheceu que os potenciais sucessores “foram todos eliminados”. Israel também visou opositores políticos, como o ex-presidente reformista e moderado Mahmoud Ahmadinejad e o ativista hostil ao regime e preso em Teerão Hossein Moussavi. A guerra não tem como objetivo uma mudança de regime.
Israel procura reduzir o Irão ao estado de Estado falhado, segundo o modelo da Líbia e da Síria. Um território entregue a fações rivais e atravessado pela guerra civil. É por isso que os israelitas visam as infraestruturas civis (quartéis de polícia, postos fronteiriços, infraestruturas médicas) e parecem praticar a tática do duplo ataque: uma primeira bomba atinge um bairro residencial e um segundo ataque ocorre quando os socorros se deslocam ao local, de acordo com o modelo desenvolvido em Gaza. Um Irão ingovernável e entregue à mercê de grupos terroristas e fações étnicas deixaria de representar uma ameaça militar para Israel. É neste ponto que os objetivos americanos diferem ligeiramente dos de Israel.
Trump imagina uma saída nos moldes venezuelanos, pensando em instalar no poder um membro dos Guardiães da Revolução que se dobraria às exigências americanas em matéria de desarmamento e de acesso aos recursos petrolíferos e gasíferos. Tal desfecho teria a vantagem de neutralizar a ameaça ao mesmo tempo que permitiria assumir o controlo de uma produção petrolífera que cobre 15% das importações chinesas. Este cenário parece improvável, uma vez que o Irão não é a Venezuela e o regime iraniano apresenta diferenças notáveis em relação ao de Maduro. Além disso, para ser concretizado, exigiria dialogar com o regime iraniano. Ora, este último já não tem qualquer confiança nos Estados Unidos. Qualquer diálogo visaria apenas ganhar tempo para reconstituir o arsenal militar e restabelecer o equilíbrio da dissuasão.
Os objetivos americanos parecem, portanto, contraditórios ou irrealistas, ao passo que as consequências da guerra continuam difíceis de prever.
Trump reconheceu que haveria mortos americanos e que o conflito teria de se intensificar para durar “entre quatro e cinco semanas”, sem excluir o envio de tropas terrestres. Se a guerra permite a Trump desviar as atenções do caso Epstein, do fracasso da sua guerra comercial e do marasmo económico, ela é amplamente impopular. Apenas um americano em cada quatro apoia a sua ação no Médio Oriente, segundo as sondagens de opinião.
A guerra era inevitável? A quem aproveita o crime?
O Irão negociava e aceitava fazer concessões impensáveis quando a ofensiva foi desencadeada, numa data com um significado religioso e bíblico para os israelitas. Dizer que as opções diplomáticas tinham sido esgotadas seria uma mentira.
O jornalista independente Klein Klippenstein cita numerosas fontes internas no Pentágono para avançar outra pista: o desempenho da inteligência americana, que garantia o sucesso de operações tão delicadas como o sequestro de Nicolás Maduro ou os assassinatos seletivos de dirigentes iranianos, apresentava alvos tentadores demais para os decisores americanos. A máquina militar conduziu naturalmente a Casa Branca a essa decisão. Tanto mais que o Congresso e os democratas nada fizeram para impedi-la. Se estes últimos condenam a agressão, a imprensa americana relata que os quadros do Partido Democrata regozijavam-se com a perspetiva de uma guerra, que aprovam globalmente do ponto de vista da política externa, considerando ao mesmo tempo que ela enfraquecerá Trump em vista das eleições intercalares.
Assim, os quadros do Partido Democrata deliberadamente atrasaram a votação de uma resolução apresentada por deputados do seu próprio partido, visando proibir o uso da força contra o Irão sem consulta prévia ao Congresso. O objetivo da resolução era fechar a porta a qualquer desencadeamento de um ato hostil sem consulta prévia, evitando interpretações duvidosas da Constituição.
Porque, como escreve o jornalista económico Romaric Godin, esta guerra serve os interesses económicos americanos a múltiplos níveis.
No braço de ferro travado com a China, ela permite recordar quem detém o primeiro exército do mundo, o que reforça o papel do dólar como moeda de referência. Um papel posto em causa pela China, pela Rússia e pelos BRICS, enquanto a taxa de câmbio do dólar caía em queda livre desde a chegada ao poder de Donald Trump. Sem surpresa, o dólar valorizou-se fortemente nos mercados cambiais após o desencadear da guerra.
Esta última permite também reforçar os produtores de petróleo e gás americanos, provocando uma alta nos preços e uma queda no abastecimento. A China é a mais afetada pelos riscos de escassez de petróleo, enquanto a Europa e a Índia pagarão o preço cheio pela alta do gás natural liquefeito. A longo prazo, a Casa Branca espera poder transformar o Irão num estado vassalo, nos moldes da Venezuela. O que lhe permitirá controlar as exportações de petróleo e ameaçar o abastecimento da China, como já faz com a Venezuela.
Por fim, a guerra permite justificar o aumento perpétuo do orçamento militar americano, ao mesmo tempo que incentiva as monarquias do Golfo a abastecerem-se de armas defensivas junto dos Estados Unidos. Uma verdadeira dádiva para o complexo militar-industrial, um dos poucos motores do crescimento norte-americano, ao lado do setor de energia e da alta tecnologia.
Ora, este último também deverá beneficiar da militarização do mundo, na medida em que as tecnologias oriundas do Vale do Silício tornam-se cada vez mais entrelaçadas e dependentes do setor militar.
Porquê a Europa, outra grande perdedora, se alinha com os Estados Unidos e Israel ?
À exceção da Espanha e da Noruega, os europeus recusam-se a condenar — ou até apoiam — esta guerra ilegal. Desde Washington, o chanceler alemão criticou a Espanha pela sua denúncia da guerra. O Reino Unido e a França evocam uma participação das suas forças armadas nas operações de defesa.
Há um interesse ligado às exportações de armamento. Ao demonstrar a eficácia dos seus sistemas de defesa, esperam recuperar uma parte do mercado. Para além desta dimensão e do hábito de servilidade, a posição europeia é um tanto incompreensível.
A guerra beneficia em primeiro lugar a Rússia, cada vez mais hostil em relação à UE. Os sistemas de defesa mobilizados pelos Estados Unidos para proteger Israel e as ditaduras do Golfo são outros tantos meios que não são implantados na Ucrânia. O aumento do preço do petróleo e do gás serve igualmente os interesses russos, primeiro exportador mundial, enchendo os cofres de Moscovo. E enfraquecem proporcionalmente a União Europeia, pesando negativamente sobre as margens das empresas, as capacidades de produção dos industriais e o consumo das famílias (excluindo produtos petrolíferos). O que explica a violenta correção sofrida pelas bolsas europeias.
Por fim, o alinhamento da UE atrás de Washington continua a demonstrar a duplicidade europeia, a renúncia dos seus valores e o desrespeito pelo direito internacional. Sem esquecer o aumento do risco terrorista que este apoio representa, a curto e médio prazo, para os Estados europeus. No entanto, os meios de comunicação ocidentais apoiam maioritariamente esta guerra ilegal.
Cobertura mediática distópica
Em França, tal como do outro lado do Atlântico, os media continuam a mergulhar numa ampla propaganda pró-americana e pró-israelita. Os mesmos que ridicularizavam os elementos de linguagem russos que evocavam uma “operação especial” para descrever a invasão da Ucrânia retomavam sem pestanejar o termo “ataques preventivos” avançado por Israel para justificar a sua entrada em guerra contra o Irão. Desde então, temos direito a entrevistas e vídeos de expatriados presos em Dubai, a testemunhos dos pobres israelitas (que apoiam maciçamente a guerra) forçados a refugiar-se nos seus abrigos antimísseis, enquanto Teerão e Beirute absorvem tapetes de bombas, que hospitais são presumivelmente visados e que uma escola é arrasada com a quase totalidade dos seus alunos sem suscitar o menor sinal de indignação.
A falta de informação no terreno não é desculpa, como o demonstra o trabalho notável de alguns media ocidentais, ou o da Al Jazeera, canal cujo proprietário é aliás atacado pelo Irão.
A repressão sangrenta perpetuada pelo regime iraniano contra os seus próprios cidadãos é outro fator que pode explicar a falta de empatia dos média ocidentais para com o povo iraniano. Ora, a amplitude desta repressão foi grandemente exagerada, como documenta o meio de comunicação centrista AOC ou os relatos de terreno do americano Dropsite News. O número total de mortos, segundo as estimativas mais credíveis, rondaria os 3500 e não os 30 000. Isso continua a ser aterrador, um crime ignóbil. Mas numerosos meios de comunicação documentam igualmente o papel desempenhado na explosão de violência por agentes provocadores que terão disparado sobre as forças da ordem. O envolvimento de Israel não parece deixar grandes dúvidas. Se isso não põe em causa a brutalidade do regime, matiza a leitura dos acontecimentos, cuja origem é a situação económica provocada pelas sanções económicas ilegais impostas pelos Estados Unidos desde há muitos anos.
Tal como em Gaza, a cobertura mediática parcial manifesta-se muito além dos intervenientes que apoiam ativamente a agressão israelo-americana. Pode também assumir formas mais subtis. Eis alguns exemplos:
- Os ataques do Irão contra as monarquias do Golfo, que apoiam Israel e os Estados Unidos, albergam bases americanas e abrem o seu espaço aéreo às forças aéreas israelitas e americanas, são descritos como ações ofensivas e não defensivas.
- Os ataques contra hotéis onde militares americanos estariam alojados, utilizando assim a população local como escudos humanos, são descritos como ataques que visam civis sem qualquer justificação.
- As mortes iranianas são postas em causa e não são tratadas com a mesma importância ou dimensão que as mortes americanas e israelitas (imagine-se a cobertura mediática se um ataque iraniano tivesse matado 165 alunas israelitas).
- O uso da forma passiva é utilizado para descrever as mortes iranianas (sem especificar quem as provocou nem porquê), mantendo a dúvida (“segundo as autoridades locais”), enquanto o responsável é claramente identificado e o balanço nunca é questionado quando as mortes são do lado ocidental.
- Este tipo de enviesamento, perfeitamente identificado por quem o sofre, pode alimentar sentimentos de ódio e de vingança.
Consequências potencialmente dramáticas
Para além das perturbações no aprovisionamento energético e no comércio mundial, esta guerra ilegal continua a destruir o direito internacional e a fazer explodir as linhas vermelhas. Israel já retomou a sua invasão do Líbano e utilizou armas químicas contra os libaneses (bombas de fósforo branco). Os assassinatos de dirigentes e figuras da oposição iraniana, bem como os ataques contra civis, embaixadas e infraestruturas económicas, estabelecem novos patamares de violência “aceitável”.

A decisão americana de afundar uma fragata iraniana fora de uma zona de combate e depois deixar cerca de uma centena de marinheiros a afogarem-se antes de divulgar as imagens e se vangloriar da operação, falando do “primeiro torpedo desde a Segunda Guerra Mundial”, é recebida sem críticas — sendo que até mesmo os nazis salvavam os marinheiros adversários após os ataques com torpedos (ver vídeo da BBC aqui). Isso é barbárie na sua forma mais brutal, enquanto o secretário de defesa americano se gaba de estar em breve em condições de “fazer chover morte e destruição do céu, sem interrupção”. Esta selvajaria é acompanhada de um fanatismo religioso claramente assumido por numerosos dirigentes americanos, que falam abertamente de guerra religiosa e bíblica (Peter Hegseth, senadores, generais…).
Da mesma forma, os ataques conduzidos pelo Irão (que abre múltiplas frentes) só podem ser compreendidos no contexto da estratégia de decapitação levada a cabo por Israel e pelos Estados Unidos. O exército iraniano estruturou-se em células autónomas que agem com base em instruções recebidas há semanas. O que complica simultaneamente a desescalada e a cessação dos combates.
De forma mais geral, esta nova maneira de fazer a guerra (assassinato de dirigentes sem qualquer consideração pelas perdas civis, ataques contra infraestruturas não militares, uso de drones e mísseis de longo alcance, bombardeamento em dois tempos ou “double tap”) conduz a uma situação em que “ninguém está a salvo”. Pior ainda, a noção de não-proliferação nuclear acaba de ser definitivamente posta em causa. Os países que renunciam a essa arma são sistematicamente tomados como alvos pelos Estados Unidos e por Israel, quando não são invadidos pela Rússia. Em contrapartida, a Coreia do Norte e o Paquistão podem congratular-se com as suas escolhas.
A decisão francesa de reforçar o seu arsenal e de deixar de comunicar sobre ele é igualmente questionável, além de ser de certa forma contraproducente (não dizer de que armas se dispõe não sendo a melhor forma de dissuadir o inimigo). Se a isso se acrescentar o recurso cada vez mais frequente à Inteligência Artificial para selecionar alvos e o emprego de armas assimétricas, estão a ser criadas as condições de um mundo ultraviolento em que a maioria dos seus recursos mais preciosos é direcionada para a produção de sistemas de armamento.
Daí o título deste artigo. Ao entrar em guerra contra o Irão, o Ocidente ataca a Civilização.
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O autor: Politicoboy, pseudónimo de Christophe Le Boucher, é um jornalista independente, engenheiro economista, viveu no Texas de 2015 a 2020. Ele cobre a política americana para vários meios de comunicação e é co-autor da coleção History begins again (Le Cerf, 2020). Autor de Les Illusions perdues de l’Amérique démocrate, em co-autoria com Clément Pairot.



EUA = ESTADO TERRORISTA
ISRAEL = ESTADO GENOCIDA
EUROPA OCIDENTAL = CAPACHO MALDITO