Seleção e tradução de Francisco Tavares
3 min de leitura
O mais estúpido membro do gabinete de Trump
Uma decisão difícil, mas há um vencedor claro
Publicado por
em 16 de Março de 2026 (original aqui)

Amigos,
Numa conferência de imprensa na sexta-feira, o Secretário de Defesa Pete Hegseth queixou-se de uma reportagem da CNN que dizia que o governo Trump havia subestimado a capacidade do Irão de interromper o tráfego global de petróleo fechando o Estreito de Ormuz.
“Patentemente ridículo”, disse Hegseth aos repórteres, acrescentando — mesmo que o bloqueio do Estreito estivesse a provar ser a alavanca mais poderosa do Irão na guerra — que “não precisamos preocuparmo-nos com isso”. Ele também negou que os EUA tenham bombardeado a escola onde cerca de 175 crianças foram mortas. Hegseth acrescentou que, quanto à CNN, “quanto mais cedo David Ellison tomar conta dessa rede, melhor”.
Estas observações são extraordinariamente estúpidas, a vários níveis.
Primeiro, a CNN acertou absolutamente ao informar que a equipa de Segurança Nacional de Trump subestimou a capacidade do Irão de interromper o tráfego global de petróleo. A CNN citou “várias fontes familiarizadas com o assunto”.
O New York Times publicou uma história semelhante, relatando que, antes do ataque EUA-Israel, “Trump minimizou os riscos para os mercados de energia.”
Mesmo o Wall Street Journal, dificilmente um clone do New York Times ou da CNN, fundamentou a história na sexta-feira, relatando que Trump rejeitou avisos de que o Irão provavelmente retaliaria fechando o estreito porque acreditava que o Irão capitularia antes de fazê-lo, e ele assumiu que mesmo se o Irão tentasse fechá-lo, os militares dos EUA poderiam lidar com isso.
Em segundo lugar, o comentário de Hegseth de que “não precisamos de nos preocupar” com o bloqueio do estreito não é apenas falso, mas um insulto irreverente para um público americano que merece saber o que o regime de Trump está a planear fazer sobre o aumento dos preços na bomba de gasolina, diretamente devido a esse bloqueio.
Terceiro, mesmo que Hegseth acredite que David Ellison ao assumir a propriedade da CNN silenciará a cobertura crítica da CNN sobre Trump, é notavelmente estúpido da parte de Hegseth dizer isso em voz alta. “Quanto mais cedo David Ellison assumir a CNN, melhor” é uma admissão aberta de que Trump apoiou a tentativa de Ellison de adquirir a Warner Bros.Discovery, controladora da CNN, para silenciar as críticas.
Esse acordo ainda está pendente, pelo que a admissão de Hegseth provavelmente alimentará ainda mais oposição ao acordo. O Procurador-Geral da Califórnia já sugeriu que ele iria a tribunal para bloqueá-lo. Agora, outros procuradores-gerais, a ACLU, e Democratas no Congresso podem juntar-se ao caso como co-demandantes.
A admissão de Hegseth também confirma os piores temores da CNN de que Ellison estrangulará as críticas a Trump — um medo que já fez com que várias das figuras principais saíssem. Como a Variety disse, ” Anderson, confinado. Jake sob escuta, Erin, queimada. Kasie caçado. Wolf embriagado.”
Ellison já provou ser um administrador não confiável da independência jornalística na CBS News. Uma produtora que partiu de lá explicou num memorando de despedida aos colegas que não poderia mais trabalhar onde as histórias são “avaliadas não apenas pelo seu mérito jornalístico, mas se elas estão em conformidade com um conjunto variável de expectativas ideológicas — uma dinâmica que pressiona produtores e repórteres a autocensurarem-se ou evitarem narrativas desafiadoras que possam desencadear reações ou manchetes desfavoráveis.”
Finalmente, a negação de Hegseth de que os EUA são responsáveis pela morte de quase 200 crianças em idade escolar no Irão é desmentida pela crescente evidência de que os EUA bombardearam a escola. A insistência adicional de Hegseth de que os EUA “nunca visam civis” é refutada pelo assassinato de pelo menos 157 pessoas pelos militares dos EUA em 40 pequenos barcos nas Caraíbas sem provas de que eram “narcoterroristas” em vez de civis.
E, amigos, esta foi apenas uma conferência de imprensa.
O trabalho de Pete Hegseth está tão acima da sua cabeça que ele nem consegue vê-lo. Ele evidentemente acredita que é para animar e defender Trump com afirmações malucas como “não começámos esta guerra, mas sob o presidente Trump estamos a terminá-la” e “a América está a ganhar decisivamente, devastadoramente e sem piedade” e “não daremos nenhum quartel aos nossos inimigos.”(“nenhum quartel” significa matar todos e não fazer prisioneiros, o que é um crime de guerra.)
Nos dias que antecederam o ataque dos EUA ao Irão, Hegseth passou o seu tempo a criticar a militância progressista [“wokeness”] nas universidades dos EUA, conflituando com a Anthropic sobre as salvaguardas para a IA e, no dia anterior ao início da guerra, forçando a Scouting America a abandonar programas destinados a promover a diversidade.
Ele rejeita terem cometido crimes de guerra, descarta as regras de enfrentamento e projeta uma beligerância inequívoca num momento em que os Estados Unidos estão a perder rapidamente qualquer posição moral que tenham no mundo.
É claro, é difícil selecionar um dos membros do Gabinete de Trump como o mais estúpido. Mas Pete Hegseth destaca-se pela sua descarada ignorância.
Rezem pelos Estados Unidos e pelo mundo.
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O autor: Robert Reich, antigo Secretário de Trabalho dos Estados Unidos [com Bill Clinton], é professor de Políticas Públicas na Universidade da Califórnia, em Berkeley e autor de Saving Capitalism: For the Many, Not the Few e de The Common Good. O seu mais recente livro é The System: Who Rigged It, How We Fix It. É colunista no The Guardian e a sua newsletter é robertreich.substack.com


