Do banditismo sanguinário de Trump e Netanyahu ao servilismo da Europa —- Texto 9. Ordem Internacional- Costa contra a Presidente da Comissão.   Por Andrea Valdambrini

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

3 min de leitura

Texto 9. Ordem Internacional- Costa contra a Presidente da Comissão. 

 Por Andrea Valdambrini

Publicado por  em 13 de março de 2026 (original aqui)

 

António Costa e Ursula von der Leyen – Foto Ap Regala CondividiSalva

 

Um confronto duríssimo e inédito no topo da hierarquia da UE. O presidente do Conselho Europeu António Costa e a vice-presidente da Comissão Teresa Ribera, pertencentes à família socialista, atacam a líder da Comissão Europeia Ursula von der Leyen após o seu apelo para que a Europa se adapte à nova ordem mundial baseada na força.

Defendendo o respeito pelo direito internacional, a socialista espanhola critica von der Leyen chegando a classificar as suas palavras de «inapropriadas». Costa replica à presidente da Comissão no mesmo palco da conferência anual dos embaixadores da UE em Bruxelas. Se von der Leyen tinha convidado a UE a abandonar a ordem do «velho mundo», representada pelo direito internacional e pelo multilateralismo, o ex-primeiro-ministro socialista português declara claramente: «Temos de defender a ordem baseada em regras. Temos de apoiar os princípios consagrados na Carta das Nações Unidas, tal como delineados nos nossos Tratados». Contra o risco de a UE e o Ocidente poderem ser acusados de duplos padrões, acrescenta ainda que «as violações do direito internacional não devem ser aceites, seja em relação à Ucrânia, à Gronelândia, à América Latina, a África, a Gaza ou ao Médio Oriente». Uma nova crítica frontal a von der Leyen chega pela resposta do ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, o socialista José Manuel Albares, ao sublinhar que «a alternativa à ordem é a lei da selva».

No dia seguinte ao ataque ao Irão, von der Leyen e Costa tinham inicialmente encontrado um ponto comum ao pedir aos beligerantes moderação no uso da força, em nome da diplomacia. Nos dias seguintes, porém, as divergências foram tornando-se cada vez mais evidentes. A puxar para o campo da dissidência, está a decisão de Madrid, com o socialista Sánchez a negar o uso das bases militares aos EUA, condenando o unilateralismo da ação contra Teerão. Condenação expressa, ainda que de forma mais velada, pela Irlanda e pela Eslovénia. A ministra dos Negócios Estrangeiros de Dublin, Helen McEntee, sublinhou que a operação de Washington e Telavive carece de cobertura do Conselho de Segurança da ONU, enquanto a sua homóloga de Liubliana, Tanja Fajon, falou de «inaceitável violação do direito internacional». Precisamente aquilo que von der Leyen se guardou bem de fazer, preferindo antes colocar a tónica nos crimes de Teerão, ainda que inegáveis.

A posição do primeiro-ministro espanhol arrasta assim todo o estado-maior dos socialistas europeus, dos quais Costa é o mais alto representante institucional. Por sua vez, a tomada de posição do presidente do Conselho serve de detonador ao mal-estar no interior do sempre vacilante eixo de maioria entre o S&D e o PPE. Em Estrasburgo, onde decorre a sessão plenária do Parlamento Europeu, a líder do grupo Socialistas e Democratas, Iratxe García Pérez, apela a um esclarecimento ao mais alto nível da UE, criticando a passividade da linha von der Leyen, que favorece Trump e prejudica os interesses dos cidadãos europeus, às voltas com os custos da energia e o espectro da inflação.

A agenda Sánchez-Costa representa então um campo amplo, o que não é habitual na EU.. O deputado do M5S Danilo della Valle (grupo Left) convoca os eurodeputados do S&D, Renew, Left e Greens, passando pelo partido alemão BSW de Sarah Wagenknecht. «Finalmente von der Leyen saiu às claras», ironiza o espanhol Asens Llordà, eleito pelos Greens, «mas com isso certifica a morte definitiva da Europa como projeto de paz». A convicção é que «se se quiser travar a deriva trumpiana, o modelo a seguir é o do governo de Madrid».

Assim, aos olhos da presidente da Comissão, revela-se uma fratura política profunda e ao mais alto nível com a frente progressista. Do “problema” Sánchez, a líder alemã parece estar bem ciente. Fontes citadas pelo diário conservador espanhol El Mundo referem que von der Leyen se teria queixado, no seu círculo de confiança, dos líderes que lhe criam mais problemas. Um é Orbán, o outro, no extremo oposto do espectro político, é precisamente o primeiro-ministro espanhol.

_________

O autor: Andrea Valdambrini é um jornalista italiano. É mestre em Comunicação Política e Assuntos Europeus pelo Institut des hautes études des communications sociales (IHECS, Bruxelas). É doutorado em Filosofia pela Universidade Roma Tre.

 

1 Comment

Leave a Reply to gustavo_hortaCancel reply