
O texto que se segue foi publicado pela
Associação Cultural AMIGOS DO PORTO
no seu boletim anual de 2025
Porto: A Alma Bairrista para Além da Superfície
O amor ao Porto não se explica, sente-se. Sente-se no coração pulsante das suas ruas, no granito que guarda memórias, nas vozes que ecoam entre becos e praças. Mas apenas quem nos visita e olha com “olhos de ver” compreende a alma desta cidade. O Porto não é apenas um local no mapa, é um estado de espírito, uma forma de estar e de viver. Aqui, cada esquina guarda um segredo, cada pedra do chão tem uma história para contar. O Porto tem o peso da tradição e a leveza da modernidade, num equilíbrio perfeito entre passado e futuro.
Ser bairrista não é defeito, é virtude. Amo a minha terra, as minhas gentes, os meus lugares e as minhas palavras. Gosto de escrever sobre o que nos distingue, sobre o que nos torna únicos. Para mim, o Porto é a mais bela cidade do mundo, habitada pelas pessoas mais hospitaleiras e genuínas. Aqui, cada paisagem é um postal vivo, cada recanto tem uma história para contar. Temos um dos melhores clubes desportivos do mundo, um dos vinhos mais extraordinários do planeta, temos tripas, francesinhas e bacalhau à Gomes de Sá. Temos campo, rio e mar. Temos sol e temos bruma – essa névoa que nos envolve e nos define. O Porto é a melhor cidade para viver, e os prémios de melhor destino europeu não são mais do que o reconhecimento do que sempre soubemos.

Se eu quisesse traduzir em palavras, qual o cheiro, o tom e o som da minha cidade, teria muita dificuldade. O meu Porto respira em aromas distintos. Tem tantos cheiros quantos os cantos da minha cidade, tantas cores quantas as que a minha cidade tem e tantos sons quantos os que ouço diariamente à minha volta, nas ruas e vielas, nas praias e nos jardins. Na minha cidade, há tons, e sons, e fragâncias, que nos levam a todo o mundo e nos devolvem, mais ricos, à terra que nos espera e sempre nos abraça. Há cais de onde, um dia, partimos em busca de outras gentes e lugares, procurando outros tons e aromas. Hoje, num retorno quase inesperado, alguns dos que partiram regressam. Juntam-se a nós outras gentes, ricas em experiências, com outros ecos, rumores e perfumes. Ao recebê-los de braços abertos, tudo se mistura, melhorando a nossa qualidade sem desvirtuar a nossa personalidade. Nesta minha cidade, Invicta, os outros não nos são indiferentes. Temos disponibilidade, temos vontade de servir os outros e de os ver felizes. Todo o visitante é um amigo. Cheia de “glamour”, a cidade e as suas gentes invadem a alma dos visitantes com a voz da nossa tradição. São ajudadas pelo rio de ouro, que a cada curva se insinua e não permite o afastamento das margens. Aqui, não há uma margem sul, só margens e pessoas de um mesmo rio. A cor, o eco aromático e a voz do Douro, unem-nos e pacifica-nos a alma.
Gosto de ti Porto, e então? Tenho o privilégio de viver numa zona nobre da cidade. Pela janela da sala onde escrevo e leio, onde discuto comigo mesmo e trato as minhas fotografias, vejo o verde das árvores e o dos relvados dos vizinhos, ouço o canto dos pássaros, muitos e de variadas espécies, ouço um galo, sempre o mesmo, e mais ao longe, de vez em quando, ouço um ou outro cão. De resto, o silêncio impera, mesmo durante os dias de trabalho. Os barulhos inquietos da cidade quase não chegam aqui. Há espaços assim, na minha terra. Este local não é, felizmente, único. Mas alturas há em que a inquietude, o bulício e o ruído próprios de uma grande cidade, me fazem falta, e então lá mergulho eu nas zonas mais movimentadas do Porto, que são, e ainda bem, cada vez em maior número. Assim foi nesta última segunda-feira, dia de trabalho e véspera de feriado. Tinha passado a manhã naquele meu espaço silencioso, ouvindo, desta vez, as rolas mais distintamente do que qualquer outro pássaro. Um rouxinol cantava, ora mais longe, ora mais perto. De repente, como muitas vezes me acontece, uma vontade incontrolável de olhar a minha cidade apoderou-se de mim. Regresso às minhas saídas, agora que o sol e o calor voltaram, agora que a temporada dos dias fantásticos, abriu. Espero-te, a ti, meu amigo, na esplanada de um qualquer café da cidade, penso de mim para mim. Apetece-me caminhar pela praia, de pés descalços, molhados por este mar maravilhoso, mas, por certo que não o irei fazer, ainda não, pelo menos. A água ainda está muito fria. Fico-me pelo apetite. Vou-me limitar a sentir a brisa do mar e aproveitar este sol, quase de Verão. Saí de casa e dirigi-me à Foz. É um início usual dos meus passeios. Raramente começo as minhas saídas sem passar primeiro pela avenida Brasil, ou pelo Passeio Alegre, ou pela zona do Mercado da Foz. Nestes inícios de passeatas, costumo tomar um cimbalino, encostado ao balcão de um cafezinho da rua do Crasto.
Ser do Porto é um privilégio, uma bênção que poucos entendem e menos ainda experimentam. Crescer no Porto é aprender desde cedo o valor da honestidade, da frontalidade e da resiliência. Aqui, não há espaço para máscaras nem para falsidades. No Porto, diz-se o que se pensa e pensa-se o que se diz. Quem cá vive, ou por cá passa, sente essa energia única, essa força colectiva que nos une como um só. O Porto é feito de gente trabalhadora, que enfrenta desafios de cabeça erguida, com um sorriso no rosto e a alma cheia de orgulho.
O Porto é romance e é beleza, uma cidade que nos faz recuperar o tempo perdido, levando-nos pelas ruas da memória. O Porto é sensual e, na rudeza do seu falar, quase erótico. É uma cidade que se saboreia com os olhos e se sente na pele. É antiga e moderna, conservadora e vanguardista, um mosaico de histórias e de experiências que cruzam séculos e gerações. O Porto não precisa de fingir o que não é – aqui, ninguém se esconde por trás de encenações. As suas gentes são orgulhosas e têm razões para tal. A alma tripeira sobrevive às mudanças dos tempos e mantém-se inabalável, mesmo quando a cidade se transforma e se reinventa.
O Eléctrico, que já foi um ícone da cidade e por toda ela circulava, ronceiro, é hoje somente turístico e quase inexistente, trazendo consigo música de ferro e nostalgia, e a saudade do gemido metálico que rasgava o empedrado. Hoje, já só me leva da Batalha até ao Passeio Alegre, subindo e descendo os montes da cidade. O seu trajecto termina junto ao rio, onde um dia fora mar. Nos tempos mais antigos, o Carro Eléctrico seguia até ao Castelo do Queijo, e continuava. No caminho, pelo meio das árvores, dos arbustos, da Pérgola, do Molhe e das pessoas, podíamos ver os barcos. Tocam-se lá longe, no infinito, e todos os dias chegam ao Douro e a Leixões, trazendo pescado e mercancias. Quando partem em direcção ao fim dos dias, deixam o som das palavras carinhosas e o sopro invisível da saudade. Cada canto da cidade com os seus tons, os seus sons, e os seus cheiros característicos. Se subo a rua da Picaria, sinto o respiro da cera para madeira e o de serrim; se passo em Entreparedes é o cheiro das bolachas que me assalta; se ando na avenida Brasil é o aroma de sal e horizonte na maré baixa, das algas, do sal, do sol e do mar; se vou à rua da Madeira sinto o hálito dos restaurantes, das tripas ou do cozido acabados de fazer; na Ribeira o cheiro é único e indescritível, com o rio e os meninos a saltar da ponte, as esplanadas e as roupas a secar nas janelas; se passo nas Fontaínhas assalta-me o fumo gorduroso das sardinhas assadas na época do São João; na zona histórica, o cheiro doce do sabão e das roupas lavadas e penduradas das varandas; se voltando ao centro da cidade passo em Santa Catarina veem-me às narinas o perfume quente das castanhas assadas no Outono; por todo o lado o cheiro da terra acabada de molhar ou da relva acabada de cortar; no Bolhão o seu cheiro tão particular, misturando o das flores com o das batatas e das cebolas e do peixe a ser amanhado; nos cafés, manhãzinha muito cedo, à volta do Bom Sucesso e do Bolhão, o cheiro às meias de leite, aos galões e às torradas de pão de forma, que contam histórias de gente simples e boa. E tantos outros odores, cada um no seu sítio, como se fossem donos daquele lugar, marcando fortemente as minhas memórias e fazendo-me reviver tempos que um dia vivenciei. Também por isso, não podemos esquecer que a alma da cidade não mora só no postal da Ribeira ou nas paredes encantadas da Sé. Mora nos bairros que os guias turísticos não mostram: em Campanhã, onde os comboios trazem mais vidas do que turistas; nas Fontainhas, para lá dos dias de São João, onde ainda se ouve o rádio de pilhas nas varandas; em Ramalde, no Cerco ou em Paranhos, ou na Foz Velha e na Cantareira, onde se vive um Porto inteiro, com sotaque de ferrugem e pão quente, com roupa estendida e cafés de esquina onde todos conhecem a idade dos nossos pais ou o nome dos nossos filhos. Nessas freguesias, o Porto ainda resiste — não porque se defenda com muralhas, mas porque se afirma com vizinhança. É aí que o bairrismo não é discurso: é prática quotidiana. É olhar nos olhos, segurar sacos, ceder a senha e partilhar histórias que o tempo já podia ter apagado — mas não apagou. E temos as gaivotas, novas imigrantes a viver na urbe, e as pombas, antigas residentes dos nossos beirais. Estas aves têm tomado conta de espaços de lazer que nos deveriam pertencer, prejudicando um pouco a crescente qualidade de vida dos Portuenses. Contudo, dão aos lugares movimento, cor e um aspecto peculiar.
Nos últimos anos, o Porto tornou-se num polo de atracção para grandes empresas multinacionais. A nossa qualidade de trabalho tem sido determinante para que gigantes da tecnologia, das finanças e da engenharia escolham a cidade como base para os seus centros de serviços globais. O Porto está na moda, não apenas como destino turístico, mas também como um dos locais mais atractivos para a economia do conhecimento. Este fenómeno trouxe consigo prosperidade e reconhecimento, mas também desafios. Os preços da habitação dispararam, tornando difícil para os portuenses continuarem a viver na sua própria cidade. A mobilidade tornou-se caótica, com um trânsito cada vez mais intenso e uma infra-estrutura que luta para acompanhar o crescimento acelerado.
Hoje, a cidade encontra-se num momento de mudança. E ainda que a contestação seja uma constante – porque o Porto nunca se cala – a esperança de um futuro melhor permanece viva. O mundo fala de nós, e fala bem. Mas não basta ser falado; é preciso ser respeitado, é preciso garantir que o Porto continua a ser dos portuenses. O crescimento não pode ser feito à custa da identidade, e o progresso não pode significar a perda do que nos torna únicos. A cidade não pode vender-se a ponto de perder a sua essência. Os que nos governam têm o dever de equilibrar a modernidade com a tradição, garantindo que a cidade cresce sem se descaracterizar.
A Camélia é a flor do Porto, mas não é apenas das Japoneiras que vive a nossa cidade. Para além do seu granito e do seu manto húmido, esse véu branco misterioso e fotogénico, que traz à cidade um ar bucólico e nostálgico, e um sopro de sonho e melancolia, inspirando poetas e sonhadores, o Porto é também um mosaico de verdes vibrantes, com árvores que nos trazem sombra desde sempre, e onde a Camélia se destaca em jardins e arruamentos, conferindo leveza e encanto à urbe. O Porto é uma cidade de misticismo e simbolismo, onde a geometria da Sé e a grandiosidade da Ponte Luís I encerram segredos para quem os souber decifrar. É uma cidade que inspira arte, que motiva escritores e que dá alma aos que nela vivem. Os seus cafés históricos, as suas livrarias icónicas, as suas igrejas, os seus monumentos, o seu granito, as suas ruas empedradas e as suas escadarias centenárias, são testemunhos vivos de uma cidade que respira cultura e história.
A minha cidade é linda, seja com sol, seja com chuva. Com a sua atmosfera velada, soturna, de sombras flutuantes e coberta por véus de silêncio, obscura e incerta, exala o perfume difuso do desconhecido e respira o enigma das manhãs cinzentas. O sol, traz-lhe a alegria e o calor. As gentes dão-lhe um colorido pitoresco que se não encontra em qualquer outro lugar.
Mas nem tudo são rosas. O turismo, que trouxe vida e revitalização, também trouxe um modelo de exploração descontrolada. O centro da cidade tornou-se um palco de multidões, empurrando os residentes para longe. Os tascos tradicionais desapareceram, levando consigo as conversas e a sabedoria popular. O comércio autêntico cedeu lugar a cadeias globais e lojas de recordações sem alma. A cidade perdeu parte da sua identidade. O Porto não pode ser apenas um postal ilustrado para visitantes; tem de continuar a ser uma cidade viva, habitada por aqueles que lhe dão alma e coração.
A culpa? É sempre do outro. Do partido que governa, do sistema, do mercado. O discurso político resvala para a demagogia, enquanto as questões fundamentais ficam por resolver. O Porto perdeu habitantes, perdeu indústria, perdeu independência criativa. Perdeu massa arbórea e ganhou alcatrão. Perdeu autenticidade e ganhou lojas de pechisbeque. Mas ainda assim, no meio deste paradoxo, o Porto prospera. Ainda há bairristas de alma e coração, ainda há portuenses que resistem, que mantêm vivas as tradições e que defendem a cidade com unhas e dentes.
Ganhámos também reconhecimento mundial, universidades de excelência, uma economia mais forte. O Porto já não é apenas a cidade do vinho, é um destino de primeira linha. Mas será que cresceremos com consciência? Será que aprenderemos a preservar o que nos torna singulares? A cidade precisa de um futuro sustentável, onde os seus habitantes não sejam apenas figurantes numa peça de teatro encenada para turistas.
O Porto está em alta! Revela-se ao mundo, encanta e seduz, respirando modernidade sem perder a alma. E, mais do que nunca, é essencial discutir o futuro com seriedade, sem preconceitos nem servilismos ideológicos. O Porto merece que o defendamos com a mesma paixão com que o amamos. Porque ser bairrista não é um defeito. É uma honra. E, acima de tudo, é um compromisso – um compromisso com a história, com a cultura e com a essência de uma cidade que não se deixa esquecer.
Amar o Porto é muito mais que uma ideia, um gesto ou uma palavra; é uma condição de existência!

josé fernando magalhães – junho2025
