A esquerda a remos no Estreito de Ormuz
Selecção de Júlio Marques Mota
tradução de A Viagem dos Argonautas
Contribuição de Jean-Pierre Page, ex-dirigente da CGT e responsável pelo seu departamento internacional (original aqui)
31 de Março de 2026
O meu amigo e camarada Jean-Pierre Page, antigo dirigente da (verdadeira) CGT e responsável específico pelo seu departamento internacional, faz um ponto sobre a atitude da ‘esquerda’ francesa diante da guerra no Médio Oriente, desencadeada pela agressão da coligação USA-Israel contra o Irão.
Reflexo da situação das forças de esquerda no nosso país, o seu diagnóstico é desolador.
Mais uma vez, lhe agradecemos por nos permitir essa publicação.
Régis de Castelnau
A esquerda a remar na corrente do Estreito de Ormuz (1)
Jean-Pierre Page
“O Império só é estável se conseguir vender suas mentiras! Ao tomar consciência disso, temos uma chance de resistir à mão assassina da plutocracia, do mercado livre, uma chance melhor de construir uma democracia real e viável no meio de uma família de nações no quadro de um mundo pacífico e sustentável.”
Michael Parenti.(2)
O que é a esquerda? Onde é que ela está? Para onde vai? Em última análise, qual é o seu propósito?
As circunstâncias históricas que vivemos convidam-nos a fazer essas perguntas! Principalmente se considerarmos a magnitude da crise sistémica do liberalismo, aliada ao declínio ocidental (3). A agressão que o Irão está a sofrer por parte de Israel e dos Estados Unidos é uma nova ilustração disso mesmo.
Na verdade, a resistência política e militar do Irão confirma principalmente que vivemos agora em “um mundo que não é mais dominado por uma única potência ou por um único bloco: estamos a entrar num mundo multipolar. E isso ninguém poderá impedir.” (4). A ruptura das normas estabelecidas que isso acarreta deixou muitos autoproclamados especialistas sem palavras.
O que não tínhamos ouvido semanas antes: o brilho dos protestos em Teerão, semelhantes a revoluções coloridas contra o “regime dos aiatolas“, a “oposição quase unânime de todo um povo a essa autocracia“, a “rejeição da modernidade e do respeito às questões de género“. As comemorações nos bairros nobres de Paris, Los Angeles e Londres, onde bandeiras da monarquia iraniana se misturavam com as de Israel e dos Estados Unidos, juntamente com bolsas Vuitton e lenços Hermès, anunciavam o fim iminente de uma teocracia sanguinária. Desde então, na televisão, a diáspora tem repetido os mesmos argumentos dos especialistas ucranianos: o filho do Xá deixou o cenário político, e os seus apoiantes políticos, tanto à esquerda como à direita, estão paralisados, tomados por interrogações, perplexidade e dúvidas.
O que está acontecendo?
Apesar de milhares de mortos e feridos, apesar dos bombardeamentos deliberados sobre áreas civis, da destruição de hospitais, escolas, de um colégio de meninas e da morte de 170 delas, esta guerra fora do comum é, acima de tudo, uma revelação da resiliência de todo um povo, do seu apego ao respeito pela sua soberania, pela sua independência e pela sua livre escolha.
Esta guerra contra o Irão não é um mero episódio. Ela é de uma natureza diferente do que vivenciámos anteriormente. Através das suas contradições, das suas vitórias e derrotas, dos seus avanços e recuos, o Irão confirma, em última análise, o alto nível de desenvolvimento, a coerência e a coesão de uma sociedade distante das fantasias propagadas por caricaturas mediáticas, comentários racistas, neocoloniais e arrogantes. Para compreender, seria útil lembrar o legado de Mohammad Mossadegh, o “Leão Rugidor”, que, com a nacionalização do petróleo iraniano, travou a primeira grande batalha económica dos países pobres contra o imperialismo. Derrubado pelo golpe da CIA em 1953, ele declarou no seu testamento político: “O único crime que conheci foi a nacionalização do petróleo. Lutei contra o maior império do mundo. Lutei também contra a maior organização de espionagem do mundo. Mas essas pessoas que combati querem mostrar aos povos do Oriente o que reservam para um homem que ousa enfrentá-las.” (5) De facto, mais de setenta anos depois, o Irão demonstra hoje que deve ser respeitado pelo que é e ser considerado uma potência relevante, no mesmo nível que a Rússia, a China, a Índia e outras nações — na verdade, todas as nações. O Irão está a conseguir derrotar os seus agressores, que já enfrentam uma derrota que inevitavelmente terá um carácter histórico. As ideias não podem ser mortas; Mohamed Mossadegh está bem vivo: “Não nos será proibido pensar por nós mesmos!”(6)
Não é sem significado, neste contexto, que o Irão já tenha contribuído para a libertação do Iraque de qualquer ocupação americana. Em 23 de Março, as tropas americanas estacionadas na maior base dos EUA nesta vasta região da Ásia Ocidental (7) — o Victory Base Camp — retiraram-se finalmente. Isso lembra a fuga desastrosa dos Estados Unidos de Saigão (Cidade de Ho Chi Minh) e, mais recentemente, de Cabul.
Diante dessa situação sem precedentes e das suas múltiplas consequências, a esquerda, institucional ou não, não aprendeu nada com esses acontecimentos. Na França ou na Europa, ela parece desconectada, desligada da realidade e, sem qualquer visão do futuro, enfrentando os desafios de um mundo que muda a passos largos.
E daí?
A esquerda (definição tomada no sentido amplo e discutível do termo), pela sua falta de iniciativa, a sua confusão, a sua falta de autocrítica, a sua arrogância, as suas preocupações políticas partidárias e eleitoralistas, mostra-se de facto incapaz de incorporar uma alternativa às estratégias da oligarquia financeira globalizada, às guerras imperialistas, às suas supostas justificações e ainda menos a uma ruptura com um capitalismo que atingiu o seu estágio final de imperialismo (8). Em França, a esquerda está num outro lugar, totalmente focada na sua agenda eleitoral. Mal se fecha o parêntese das eleições municipais e abre-se de imediato o parêntese das eleições presidenciais.
Mas as apostas são altas! Friedrich Engels disse uma vez: “A sociedade burguesa enfrenta um dilema: ou uma transição para o socialismo ou uma recaída na barbárie.” (9) Resolver essa contradição no estado actual das coisas, a esquerda na França, na Europa e, sem dúvida, em outros lugares, não tem nem o desejo nem a vontade de fazer. Esse é exactamente o seu problema. Na maioria dos casos, ela alinha-se com posições oportunistas, com as ideias predominantes. Na França, essa conversão não mascara nada mais do que uma renúncia disfarçada de adesão a uma união sagrada, uma união de sinistra memória (10). Não se pode mudar a natureza humana!
Como se vê, os compromissos políticos internacionais da esquerda não são ilimitados. Assim, ao concentrar-se nas consequências, ela recusa-se a considerar as causas e o conteúdo dos conflitos internacionais, assim como o surgimento de uma nova ordem mundial. Na maioria das vezes, em busca de justificações, confunde contradições primárias com contradições secundárias (11). Portanto, apesar dessa nova aceleração da história da qual somos testemunhas, a esquerda recusa-se, sobretudo, a perceber como, por exemplo, o dia 24 de Fevereiro de 2022 e o período subsequente, (12) contribuíram para modificar profundamente a ordem das coisas e esclarecer os verdadeiros desafios que se colocam à humanidade como um todo. Essa nova etapa de mudança a que estamos a assistir, o Médio Oriente, no entanto, confirma isso.
Como se viu, no que diz respeito à guerra na Ucrânia, a maioria das organizações de esquerda em França e na Europa uniram-se em torno de um certo consenso. Elas demonstraram uma hostilidade antiquada e de russofobia em relação à Rússia, cujas origens são anteriores a 2022. Em nome de uma suposta solidariedade com a “resistência ucraniana”, a esquerda aprovou contribuições financeiras ilimitadas e ajuda militar. Foi dito que era necessário apoiar Kiev até ao fim. Optou-se, portanto, por fechar os olhos ao regime neofascista, corrupto e repressivo de Zelensky, aos sacrifícios dos povos ucraniano e russo, incluindo, por exemplo, o compromisso corajoso dos irmãos Kononovych, dois militantes antifascistas opositores aos nostálgicos de Stepan Bandera, que foram presos, torturados, encarcerados, privados de todos os seus direitos e mantidos em isolamento sob pulseira electrónica enquanto aguardavam o seu julgamento e provável transferência forçada para a linha da frente, ou mesmo a sua execução pelos nazis do Azov ou do Pravy Sector (13).
De facto, a esquerda em França fez a escolha política de se abster de pressionar o governo Macron para impedir o seu envolvimento político, militar e financeiro directo neste grande conflito, pelo qual continua a afirmar que é preciso lutar até ao último ucraniano. Por fim, e mais importante, a esquerda continua a recusar-se a ver as verdadeiras razões desta guerra no centro da Europa, agarrando-se a avaliações superficiais. Utilizando pretextos, preferiu sacrificar uma visão independente das acções da França. Isso leva-a a absolver Macron e o seu governo, os Estados Unidos, a NATO e esta União Europeia transfigurada das suas responsabilidades?
Essa posição reflecte-se no mesmo contexto em relação à agressão contra o Irão. Contudo, num caso, a esquerda toma partido, enquanto no outro, adere ao princípio de dois pesos e duas medidas. Como assim?
Diante de uma situação em constante evolução, a esquerda, com algumas excepções, continua na sua cegueira, ignorando ou mesmo recusando-se a reconhecer as causas e deixando de considerar os princípios de soberania que estão a ser violados, como os da não intervenção, da não interferência e até mesmo, por vezes, o simples respeito pelo direito internacional. No caso do Irão, recordemos que nem a ONU, nem o Congresso dos Estados Unidos foram consultados e muito menos aprovaram esta aventura militar americano-israelita que se seguiu, algumas semanas depois, ao rapto do presidente da Venezuela e da sua esposa. A partir de agora, os assassinatos políticos que Israel e os Estados Unidos cometem — quer se trate de líderes iranianos, quer se trate de palestinianos e de patriotas libaneses do Hezbollah—, sem que isso provoque qualquer indignação por parte de qualquer representante da esquerda.
Para o Irão, trata-se de uma luta existencial
Esta nova guerra, instigada por D. Trump e Israel, é para o Irão e a sua civilização milenar uma luta existencial, o que justifica para esta nação a sua doutrina militar de usar o tempo como arma (14) e a sua geografia como uma fortaleza natural (15). O mínimo que se pode dizer é que a longa preparação dos iranianos para a guerra e a sua provável eventualidade acaba de se demonstrar através de uma inegável resistência e coragem.
A amplitude e a eficácia da resposta política e militar do Irão, a sua capacidade de desestabilizar os agressores israelitas e americanos, tornaram-se evidentes, uma imagem que se impõe diariamente por meio dos bombardeamentos contra Israel, contra bases militares dos EUA na região, pelo encerramento do Estreito de Ormuz e até mesmo ataques à base americano/britânica de Diego Garcia, no Oceano Índico, considerada uma instalação indispensável para as operações de segurança norte-americanas no Médio Oriente. “Conhece o teu inimigo e conhece-te a ti mesmo. Em cem guerras sairás vitorioso!”’ (16) Isso é o que o Irão colocou em prática, aprendendo com o seu inimigo.
Na verdade, o Irão não depende de armas nucleares, pois possui algumas das tecnologias militares mais avançadas do mundo, capazes de neutralizar todos os sistemas electrónicos, mergulhando regiões inteiras num colapso total da sua infra-estrutura, incluindo as instalações mais modernas. Isso foi recentemente demonstrado durante os ataques de retaliação a Dimona e Arad, duas cidades estratégicas que abrigam instalações nucleares israelitas, depois de Telavive ter bombardeado o Centro de Pesquisas Nucleares de Natanz, no Irão. Esse ataque duplo levou Netanyahu a afirmar que “a noite foi muito difícil”. Não poderia haver melhor descrição. A incapacidade dos sistemas de defesa israelitas em neutralizar essa retaliação iraniana foi demonstrada mais uma vez, tornando o famoso Domo de Ferro completamente desacreditado. Não estamos mais em 1945, e a perspectiva de uma guerra em grande escala significaria que até mesmo o território americano poderia ser atingido.
Em vez de nos congratularmos com os fracassos do criminoso de guerra B. Netanyahu, do seu cúmplice D. Trump e das suas acções, não deveríamos estar a apoiar a resistência iraniana da mesma forma como apoiamos a resistência palestiniana? No entanto, pelo contrário, uma parte significativa da esquerda em França e na Europa está, hipocritamente, a alertar contra o que poderia parecer um apoio ao Irão, algo que evitaram cuidadosamente fazer em relação à Ucrânia ao apoiar Zelenski.
A abordagem do “nem uma coisa nem outra”, ou internacionalismo selectivo
Adoptando uma postura de “nem um nem outro”, a esquerda prefere afirmar que é preciso fazer a paz, impor uma negociação com Teerão (17). Na melhor das hipóteses, fala de “legítima defesa” apenas para acrescentar imediatamente que não lamenta a morte do guia da Revolução Islâmica Iraniana, o aiatola Ali Khamenei, e da sua família, embora tenha sido um crime hediondo, ainda mais por envolver um chefe religioso e teólogo reconhecido do xiismo (18). O dever da esquerda seria então rejeitar, de uma só vez, Trump, Netanyahu e Mojtaba Khamenei: “nem o Xá, nem os mulás” (19). Este oportunismo político, este internacionalismo selectivo e míope, que reúne tanto uma esquerda que se diz intransigente e internacionalista, solidária com os palestinianos, como uma esquerda conciliadora e comprometida com instituições como o CRIF (20), mas que sabe reencontrar-se conforme as circunstâncias eleitorais, acaba por, no fundo, negar o respeito pelos direitos soberanos de um Estado, assim como o direito do seu povo à autodefesa. Mas também, de forma mais falaciosa, leva a legitimar o conceito de Responsabilidade de Proteger (R2P) para melhor justificar a necessidade de uma mudança de regime no Irão. Mesmo que isso implique pôr em causa a soberania desse país, provocar um massacre, destruições incalculáveis, incluindo de sítios arqueológicos classificados na Lista do Património Mundial e de uma guerra sem fim. (21)
A esquerda, portanto, culpa os dirigentes iranianos, o que a leva a um caminho equivocado, sem se opor concretamente aos actos de banditismo, à destruição criminosa e às sanções ilegais do duo D. Trump e B. Netanyahu.
Indiferente a uma situação de extrema gravidade, a retórica ambígua da esquerda interpreta igualmente a agressão como visando a China através do que seria uma guerra por procuração. A pobreza dessa análise deixa de lado, como sempre, a questão principal: a de um capitalismo que chegou à sua fase terminal. Reduz essa guerra a uma nova versão do confronto entre China, Rússia e Estados Unidos, quando, na verdade, se trata de um confronto entre o Ocidente e o resto do mundo, entre capitalismo e barbárie. E, para piorar a situação, chega-se ao ponto de estigmatizar, de uma só vez, duas burocracias — a chinesa e a russa — como se estivessem unidas no seu engajamento com os Estados Unidos.
Essa visão do estado do mundo por parte da esquerda é extremamente superficial. Além disso, muitas vezes serve como substituto para acções concretas, contribuindo para neutralizar as forças que deveriam ser mobilizadas em favor da paz e da solidariedade com o povo iraniano em luta pelo respeito à sua identidade, às suas crenças e à sua independência.
A esquerda mostra-se assim incapaz de compreender em que medida e por que razão estamos a assistir a uma tal mudança no equilíbrio de poder internacional, a essa mudança inédita. Nos debates, na maioria das vezes, os seus representantes oscilam entre aceitação, ignorância e oportunismo. Quando muito, admite-se que uma parte dela possa, com alguma relutância, falar de imperialismo, mas sempre como verificação dos factos, nunca para tirar daí lições e consequências políticas concretas. Na realidade, a esquerda prefere limitar-se a invocações emocionais entre aquilo que, aos seus olhos, seria o bem e o mal. Ora, como se sabe, falar de bem e de mal é uma categoria moral, uma categoria de má moral e de má política.
Na verdade, os juízos de valor aos quais a esquerda gosta de se entregar servem apenas para mascarar a sua impotência. Tanto mais que esses mesmos países — seja o Irão, a China ou a Rússia — se encontram juntos em alianças anti-hegemónicas como os BRICS+ ou a OCS (22). Vale sempre a pena reler Zbigniew Brzezinski (23), quando ele alertou as administrações americanas sobre a formação de alianças anti-hegemónicas que contestariam a supremacia absoluta dos Estados Unidos. Isso é particularmente verdadeiro entre a Rússia e a China, entre esses três e a Índia, entre esses três e o Irão, e a previsível catástrofe para a supremacia global americana desses quatro com o Japão. A China e a Rússia, que condenaram sem ambiguidades a agressão contra o Irão, não escondem os seus incondicionais apoio e solidariedade em todas as áreas.
As aparências enganam. Muitos na esquerda interpretaram negativamente as recentes mudanças no Médio Oriente, vendo-as como um recuo face aos EUA e a Israel. Na verdade, a guerra contra o Irão evidencia uma outra realidade. Nada é estático: tudo muda e evolui permanentemente. Através da luta intensa do povo iraniano, emerge uma tendência positiva — embora não esteja isenta de riscos, também não está isenta de oportunidades.
Na verdade, prova disso é que os Estados Unidos e Israel não são invencíveis. Ter isso em conta é essencial para as batalhas futuras. Esta convicção pode tornar-se contagiosa. Já é percebida como tal por muitos povos e estados no mundo, que se congratulam com isso.
O que vamos lembrar!
Na realidade, o que desde já se retém e se reterá desta guerra contra o Irão é que os Estados Unidos já não estão em condições de desempenhar o papel de superpotência e de «nação indispensável» (24) que reivindica na condução dos assuntos mundiais. Em certo sentido, o rei vai nu e, doravante, isso é sabido e visível. Deve-se isso, entre outras coisas, à determinação e à coragem do Irão e do seu povo. Que consequências políticas deve a esquerda tirar disso? Baixar a guarda ou elevar o nível das suas exigências?
Tanto mais que a crise sistémica do capitalismo vai ganhar uma nova dimensão, as contradições de classe tornar-se-ão mais agudas, com todas as consequências imagináveis, pois é isso que realmente está em jogo. O sistema entrou naquela fase da história em que joga a sua sobrevivência, daí o perigo extremo que representa. É evidente que nenhuma transição pacífica e democrática será possível com a plutocracia. As pessoas que a personificam e a lideram jamais abrirão mão do poder. Será preciso tirá-lo delas. São estes os obstáculos que é necessário enfrentar de forma radical e não superficial. É a isso que a esquerda deveria dedicar-se, sabendo antecipar os desdobramentos futuros. Deveria fazê-lo onde quer que se encontre, articulando o seu activismo desde o local de trabalho até ao bairro e mesmo até ao nível internacional.
Há uma urgência para “a esquerda” em acabar com aquilo que a desvia do combate que deve, antes de tudo, travar contra o seu próprio inimigo. Não foi isso que Karl Liebknecht, companheiro de Rosa Luxemburgo, expressou em Maio de 1915, quando afirmou: “O principal inimigo do povo alemão está na Alemanha. É contra esse inimigo, no seu próprio país, que o povo alemão deve combater numa luta política em colaboração com o proletariado de outros países cuja luta se dirige contra os seus próprios imperialismos”. (25)
É por isso que, sob a pressão da oligarquia, dos conglomerados e, em particular, do complexo militar-industrial, esta guerra contra o Irão é decisiva. Ela é, antes de mais, uma guerra económica, uma táctica de sobrevivência de um sistema que se tornou cada vez mais anacrónico.
É nesse contexto de alta tensão que a guerra contra o Irão provocou um aumento drástico do preço do gás e do petróleo, dos fertilizantes, das sementes e, consequentemente, do abastecimento alimentar de que dependem os países do Golfo. A ameaça à dessalinização da água, actividade vital para o funcionamento económico e político dos países da região, é mais um exemplo disso. Consequentemente, essa escalada de tensões está a provocar sérias preocupações para a economia ocidental, ou melhor, para a já debilitada economia dos Estados Unidos, algo de que D. Trump está perfeitamente consciente. Ele foi eleito em parte por causa desse diagnóstico e, para além das suas artimanhas e bravatas, é isso que o motiva, custe o que custar
Donald Trump deve ter em conta a pressão e mesmo o ultimato dos mercados. O risco de um preço do petróleo a um nível sem precedentes desencadearia um colapso imediato do dólar americano e da economia dos Estados Unidos. A ameaça sobre os cabos submarinos de internet continua a pairar. 99% do tráfego do Qatar e 95% do Kuwait dependem destes cabos de fibra óptica. Cortá-los congelaria 10 biliões de dólares em transacções diárias. O Irão conseguiu impor uma “dissuasão económica” e tem os meios para o fazer. Donald Trump, portanto, precisa evitar a falência.
Já para os seis países que compõem o Conselho de Cooperação dos Estados Árabes do Golfo —Arábia Saudita, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Omã, Bahrein e Kuwait — o despertar é doloroso. Os hidrocarbonetos representam, em média, 30% do seu PIB, dois terços das suas exportações e 64% das receitas fiscais (26). Segundo o Financial Times e a Reuters, estes mesmos países acabaram de iniciar uma análise simultânea e minuciosa de todos os seus acordos financeiros com os Estados Unidos, o que poderá resultar numa ruptura das alianças com Washington, apesar da sua longa presença na região.
Recordamos a citação atribuída a Henry Kissinger: “Se é perigoso apresentar-se como inimigo dos Estados Unidos, pode ser igualmente fatal ser considerado seu amigo“. (27) Pois seguir cegamente os Estados Unidos tem um preço. Qual é a situação actual? A imagem cor-de-rosa das petro-monarquias do Golfo, construída ao longo de anos sobre a ideia de um porto seguro e de riqueza fácil, ainda mais sob a protecção militar dos Estados Unidos, acaba de ruir. Além disso, os americanos não renunciam a fazer pagar a factura aos países do Golfo.
Desde a agressão contra o Irão e a resistência deste, além do encerramento do Estreito de Ormuz, inúmeras infra-estruturas de gás e de petróleo na região foram atingidas, os principais aeroportos deixaram de operar, os arranha-céus do Dubai estão em chamas e os investidores em fuga. Doha já não é esse lugar idílico que já foi; as bases militares americanas encontram-se em estado lamentável, demonstrando a sua ineficácia e inutilidade; algumas foram abandonadas, várias embaixadas americanas foram incendiadas e tornaram-se impraticáveis e a Marinha dos EUA e os seus prestigiosos porta-aviões, os maiores do mundo, foram forçados a retirar-se do teatro de operações. Com cerca de 200 mil milhões de dólares exigidos pelo “Secretário de Guerra” dos EUA, o custo financeiro é considerável e, para piorar a situação, há escassez de equipamentos e armas nos Estados Unidos, em Israel e entre os aliados europeus.
Os negócios como interlocutor-chave para D. Trump
Esta é a outra razão principal que levou à manipulação a que D. Trump se entregou a 23 de Março, evocando não apenas negociações imaginárias com o Irão, mas também progressos substanciais nas discussões. Este disparate foi imediatamente desmentido por Teerão. O interlocutor privilegiado de D. Trump é o mundo dos negócios; os seus pontos de referência são o clima em Wall Street e os índices da bolsa de valores, como o CAC 40, o Dow Jones e o Nasdaq. O objectivo era, portanto, claro: evitar um colapso bolsista, garantir a recuperação do mercado e fazer baixar os preços dos combustíveis após um aumento de mais de 30%. O efeito do anúncio foi imediato nos mercados de acções, particularmente nos asiáticos, muito dependentes dos hidrocarbonetos do Golfo. Esta iniciativa de D. Trump veio confirmar o seu papel em servir exclusivamente o sector financeiro, a começar pelo seu próprio, e a sua capacidade de iludir o público, de dizer uma coisa e o seu contrário para atingir os seus fins. É assim capaz de anunciar ter recebido um presente da parte do Irão e, em seguida, decidir o desembarque aleatório de 30.000 fuzileiros navais em solo iraniano.
Por conseguinte, com D. Trump, tudo continua como antes. Trata-se, entre outras coisas, de tomar pela força o controlo de matérias-primas, bem como dos corredores terrestres e marítimos e das consideráveis receitas a eles associadas (28). Porém, isso depara-se, aos olhos do mundo, com uma resistência inesperada pela sua amplitude e pelos seus resultados, o que suscita sérias dúvidas sobre as capacidades e a credibilidade dos Estados Unidos. Além disso, não é apenas o encerramento do Estreito de Ormuz que está a desestabilizar os agressores do Irão; há também o Estreito de Bab el-Mandeb, que abre para o Mar Vermelho e o Canal de Suez, sob o olhar atento dos Houthis, aliados de Teerão, bem como a heróica resistência dos patriotas libaneses do Hezbollah, que defendem o Sul do Líbano com unhas e dentes.
Embora estes corredores marítimos, entre os mais importantes do mundo, sejam fundamentais para os conflitos globais, os seus encerramentos são, por ora, efectivos. O custo é considerável para as economias ocidentais, incluindo os Estados Unidos e para a viabilidade dos países do Golfo Pérsico, além de agravar a crise nos Estados Unidos e na Europa. É, portanto, necessário superar este obstáculo e contribuir, por outro lado, para travar e fazer recuar o movimento a favor da desdolarização, temido acima de tudo pelas instituições financeiras norte-americanas. Este temor é alimentado pela escolha feita por vários países, nomeadamente a Índia e até mesmo o Japão, de liquidar as suas trocas comerciais e o transporte dos petroleiros em yuan renminbi chinês. Que futuro, então, para os petrodólares que têm alimentado há tantos anos a economia norte-americana, em particular a investigação em inteligência artificial?
Assim, a aparente leveza com que D. Trump se lançou nesta arriscada aventura, esperando um retorno rápido sobre os seus investimentos políticos e financeiros, consistiu em seguir o delírio criminoso dos seus mais próximos conselheiros, os secretários de Estado e B. Netanyahu. A promessa de que tudo seria resolvido em poucos dias mediante a eliminação dos principais dirigentes iranianos foi desmentida pela amplitude da resistência iraniana e pelo apoio de todo um povo aos seus líderes.
O que aparece de forma cada vez mais evidente como a dependência em relação a Israel não deixa de suscitar interrogações, mas também desacordos que podem levar a rupturas. Já o genocídio em Gaza havia provocado uma reviravolta da opinião pública americana em relação ao regime sionista. Desta vez, é o círculo mais próximo que está a reagir.
A morte do movimento MAGA?
Isso é confirmado por fortes oposições entre os apoiantes mais próximos de D. Trump. “Hoje verificamos que o Presidente dos Estados Unidos está a ser influenciado por um governo estrangeiro”, declarou Carrie Prejean Boller, membro da administração Trump e uma das suas apoiantes mais leais. Para ela, “o movimento MAGA (Make America Great Again) está morto”. De facto, multiplicam-se as reacções negativas de militares, veteranos e familiares de mortos em relação à maneira leviana com que o Departamento de Guerra e a Casa Branca tratam a guerra, recorrendo a piadas e usando videogames que banalizam os combates (29). Isso é particularmente evidente com a dramática renúncia de Joe Kent, o poderoso Director do Centro Nacional de Contraterrorismo (30). Na sua carta de demissão, ele explicou que já não podia mais apoiar a guerra em curso no Irão, considerando que este país não representava nenhuma ameaça para os Estados Unidos. Ele também afirmou que esse conflito havia sido desencadeado sob a influência da entidade sionista e de seu lobby (AIPAC) (31) nos Estados Unidos.
Para os fanáticos em Washington, é inegável; eles precisam de manter a pressão e justificar essa cruzada, incluindo o seu carácter messiânico, ilustrado, como vimos, por uma cerimónia evangelista e amplamente mediatizada no Salão Oval. “É uma guerra religiosa, e nós determinaremos o rumo do Médio Oriente nos próximos mil anos”, declarou o senador e fanático republicano ultra-intervencionista Lindsey Graham, cuja referência a Hitler e à sua profecia de um Reich de mil anos — das tausendjahrige Reich — é notável. Tudo isso faz parte do mundo delirante e imaginário em que vivem os líderes americanos.
Apesar deste apelo urgente para socorrer a América e o seu presidente (32), Deus parece estar ausente. Esta referência religiosa na guerra não deixa de ilustrar a amplitude do declínio ocidental, ao mesmo tempo que evidencia o perigo que isso representa.
Diante desses desafios vindos de dentro do próprio partido, D. Trump, em plena crise de arrogância [33], embriagado pelo cargo e pelos excessos, tornou-se instável e imprevisível. Dirigindo-se a uma população que considera conquistada, multiplica as fanfarronices. De facto, o governo dos EUA parece não ter outra opção senão a fuga para a frente, agarrando-se a uma leitura cada vez mais contrariada pela realidade. Ao mesmo tempo que anuncia o fim da guerra e uma vitória total sobre o Irão, pretende avançar para uma nova etapa: um desembarque e a invasão deste país com uma superfície três vezes maior do que a França. O cepticismo é generalizado quanto ao sucesso dessa acção, particularmente entre os militares e quadros do Pentágono. Em simultâneo, em pleno delírio irresponsável, o seu fanático Secretário da Guerra deu às forças armadas dos EUA a directiva “sem quartel”. De certa forma, Pete Hegseth expressa, até à caricatura, a falência moral de uma administração para quem os fins justificam os meios e que faz a escolha deliberada de ignorar todos os princípios da guerra, a Convenção de Haia e o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (TPI), equivale a desrespeitá-los. Estas acções e declarações traduzem um nervosismo e um desânimo perante uma situação que escapa ao controlo daqueles que detêm o poder no Salão Oval da Casa Branca.
Na verdade, como os iranianos recusam os contactos e qualquer cessar-fogo sem um compromisso substancial, D. Trump não tem alternativa senão passar de um extremo ao outro e, além disso, multiplicar os apelos a V. Putin para encontrar uma saída honrosa, depois de ter feito inúmeros anúncios sobre uma coligação entusiástica, segundo as suas palavras, com países para permitir a livre passagem pelo Estreito de Ormuz, a maioria dos quais já respondeu negativamente, nomeadamente os membros da OTAN, sem mencionar a China, a quem D. Trump se dirigiu imprudentemente para solicitar apoio.
Por seu lado, a UE, embora demonstre compreensão, não está disposta a envolver-se directamente, limitando-se a declarações de princípio que não agradam a Donald Trump. Quanto à significativa presença de forças militares francesas nesta região, ela não é desprovida de significado, e as pressões que Emmanuel Macron exerce sobre o governo libanês para que este aja contra as forças combatentes do Hezbollah não deixam de expor diretamente a França. Tanto mais que, após a humilhação a que o seu ministro dos Negócios Estrangeiros foi recentemente sujeito em Jerusalém, Macron apressa-se a garantir ao Presidente de Israel a sua total e inabalável solidariedade.
Perante estas manifestações de força, o Irão manteve a compostura e garantiu a livre circulação de todos os navios, excepto aos dos EUA, de Israel ou àqueles indirectamente associados a estes países. Além disso, propôs-se para cobrar uma taxa de passagem, pagável em yuan chinês.
Erradicar o Irão
Segundo D. Trump, esta guerra não passava de uma “pequena excursão“, a little excursion for fun (sic), nas suas palavras, com o objetivo de pôr um termo definitivo tanto ao programa nuclear iraniano, como para provocar uma mudança de regime ou ainda para proteger os Estados Unidos de um bombardeamento nuclear iraniano… na Califórnia (34).
Para B. Netanyahu, porém, não pode haver qualquer compromisso. Aguardava por este confronto há tantos anos e está preparado a ir tão longe a ponto de pôr em causa a própria existência de Israel. É a síndrome de Massada (35) que assombra os extremistas israelitas, sem retorno possível. Já após o genocídio de Gaza, coloca-se a questão da viabilidade deste estado pária e criminoso que é Israel, totalmente isolado a nível internacional, com a economia destruída e do qual uma parte da sua população já o abandonou. Israel é No Future.
Nesta fase, Donald Trump e Benjamin Netanyahu querem acabar com o Irão, desmantelar este grande perturbador regional, culpado, segundo eles, de ter bloqueado a ordem regional durante trinta anos. Para Israel, e após o genocídio em Gaza, o projecto sionista histórico, — o sonho messiânico do Grande Israel, deve ser acelerado. Para isso, redesenhar o mapa do Médio Oriente é fundamental. Para Netanyahu e os fanáticos religiosos que rodeiam Trump, esta perspectiva deve também conjugar-se com retornos financeiros de investimentos que não se limitam a Gaza, mesmo que transformada num refúgio para a oligarquia globalizada.
É também por isso que os Estados Unidos e Israel têm o objectivo declarado de destruir o Irão, de erradicar uma civilização que deu uma contribuição essencial à história da humanidade desde as suas origens persas e, para esse fim, aplicando a solução final a todo um povo, tal como está a ser feito com a nação palestiniana. D. Trump declarou a sua intenção de «varrer o Irão da face da Terra».
Como podemos ver, para Washington não existem mais regras internacionais senão as suas próprias. O recurso ao intervencionismo sistemático, implementado há algumas semanas na Venezuela e anunciado para amanhã em Cuba, é justificado com cinismo e apresentado como uma nova referência em matéria de direito internacional. Na realidade, trata-se de gangsterismo, de práticas brutais e de uma versão renovada da diplomacia das canhoneiras. Segundo D. Trump: “Somos a nação mais importante do mundo, as nossas forças armadas são as mais poderosas.” Por conseguinte, isso autoriza-nos a fazer o que quisermos, pois o que é bom para os EUA é necessariamente bom para o resto do mundo! Na sua forma de ver o lugar que ocupa no mundo, é um facto que “os Estados Unidos são um país que passou directamente da barbárie à decadência sem jamais ter conhecido a civilização”.
A sonolência da esquerda
Esta evolução do mundo e os seus desafios não perturbam a sonolência da esquerda. No entanto, estas violações deliberadas e repetidas dos próprios fundamentos do sistema internacional estão longe de reflectir uma posição de força. Elas dissimulam mal a natureza desesperada das acções do poder arrogante instalado em Washington!
Para a esquerda, não levar em conta estas transformações e os seus significados não é, no fundo, comprazer-se na preguiça em relação a toda ou parte da ideologia dominante, contribuindo assim para a ordem vigente? Se a guerra é inerente ao sistema capitalista, que permite, na maioria das vezes, dar uma “limpeza geral no histórico“, não seria recusar-se a comprometer-se em tomar partido contra a ameaça que os Estados Unidos representam para o futuro da humanidade, escolher o lado errado da barricada ou ceder à impotência?
Para os neoconservadores estadunidenses, trata-se sempre de se agarrar a esta visão que lhes permite reafirmar a supremacia dos Estados Unidos, hoje desafiada internacionalmente pelo fim de um mundo unipolar. Washington, necessita de reafirmar a sua autoridade em declínio, a sua liderança seriamente prejudicada e abalada nos assuntos mundiais e a sua credibilidade em queda livre. Por conseguinte, isso não se reduz apenas aos comportamentos imprevisíveis de Donald Trump, mas é bem mais substancial e anterior à sua presidência. Além disso, os neoconservadores querem acabar com o multilateralismo, que consideram uma anomalia. Eles querem impor a lei da selva, a regra do mais forte, desmantelar o sistema da ONU, considerado obsoleto. Este é o objectivo do Conselho de Paz, que por enquanto não se mostra popular (36). O que não é surpreendente. Joe Biden, em 2023, realizou a sua própria Cimeira Mundial para a Democracia, em seu prejuízo. Neste ponto, as semelhanças entre ambos são, de facto, evidentes (37).
Há muito tempo, os estrategas do deep state nunca esconderam a sua vontade de redesenhar a vasta região estratégica do Médio Oriente, se necessário através de guerras e da transgressão sistemática da Carta das Nações Unidas.
O abandono da democracia
Na verdade, a situação caótica em evolução no terreno, a que D. Trump procura escapar, traduz mais profundamente uma crise de tal forma sistémica que ameaça a sociedade americana no seu conjunto, onde esta enfrenta a guerra, a crise social e política. As manifestações “No King” multiplicam-se contra a guerra no Irão; a 28 de Março, perto de 10 milhões de pessoas desfilaram. Os EUA nunca estiveram tão polarizados, divididos e à beira do colapso? (38) Esta situação deteriora-se tão rapidamente que suscita receios quanto aos riscos de uma guerra civil nos Estados Unidos (39). É o que sublinha um professor de ciências políticas da Universidade Laval, de Montreal. Na verdade, e isso nunca aconteceu antes, “a América abandonou a democracia e tornou-se um império do terror” (40).
Como é que D. Trump abordará o seu próximo encontro, em meados de Maio, com Xi Jinping, considerando a fragilidade e as divisões percebidas dentro dos Estados Unidos? O encontro realizar-se-á certamente. A ambição de pôr fim à parceria estratégica entre a Rússia e a China, e de conter (contain) ou mesmo fazer reverter (roll back) a sua influência, confronta-se doravante com a realidade das profundas transformações que a estreita proximidade entre a Rússia e a China influencia de forma determinante.
Mas seja como for, D. Trump pratica o autoconvencimento à maneira do Doutor Coué: “Todos os dias, em todos os aspectos, estou cada vez melhor”. Nesta fase, este balanço negativo para Washington é igualmente negativo para os Europeus.
Quanto a esta esquerda, ela subestima muito amplamente os desafios por cegueira de russofobia e hostilidade à China. No entanto, será necessário assumir o impacto económico considerável que esta guerra terá, e do qual será preciso também pagar uma parte importante da factura. Sem qualquer oposição real, como os dirigentes europeus já o anunciaram, eles comprometer-se-ão de qualquer forma com docilidade e com todas as consequências económicas, financeiras e sociais que se podem imaginar para os povos da Europa. Acrescentando ainda que alguns países como a Espanha, a Itália, a Hungria e a Eslováquia já tomaram medidas para não terem de suportar o custo político, económico e financeiro dos impulsos norte-americanos e da subserviência sem limites dos dirigentes de Bruxelas.
Sejamos claros: não existe nenhuma hipótese de Donald Trump obter uma vitória contra o Irão. Aí reside já o desastre político do qual os Estados Unidos devem procurar escapar, o que só pode agravar a crise no seio do deep state. O futuro político de Donald Trump tornou-se incerto, e não apenas na perspetiva das próximas eleições intercalares.
Nessas circunstâncias, como não levar em conta os repetidos fracassos do Império e outros desastres eminentes?. O conflito com o Irão já é prolongado, e podemos ver como o mundo será transformado para sempre após esta guerra, que confirmará que a iniciativa agora mudou de mãos.
Uma esquerda em declínio
Durante muito tempo produtora de novas ideias, a credibilidade da esquerda está em queda na maioria dos países do velho continente, singularmente naqueles que durante muito tempo foram associados a uma vontade de mudança radical e de ruptura com o passado. De renúncias às capitulações, de traições às adesões à ideologia dominante, da apatia ao conformismo, a esquerda institucionalizou-se de forma permanente. Instalou-se no abandono dos princípios e valores que tinham moldado a sua história social e política ao longo do século passado, marcado pelos grandes movimentos de mobilização popular e de conquistas sociais do período entre as duas guerras e do pós-Segunda Guerra Mundial.
A observação anterior pode parecer condenatória, mas reflecte uma realidade e uma experiência vivida. Assim, amplos sectores da opinião pública observam que, perante os compromissos e cumplicidades, coloca-se a questão: o que distingue a esquerda da direita? Este revisionismo alimenta na população sentimentos contraditórios — descontentamento, incompreensão, impotência, desânimo — e contribui para favorecer uma forma de descompromisso político, evidente, entre outras coisas, nas eleições. O abstencionismo tornou-se assim a primeira força política em muitos países europeus, incluindo a França. É o que acabam de confirmar mais uma vez os resultados das eleições municipais em França.
Recuperar a credibilidade?
Uma das razões principais é que a esquerda abandonou as suas referências ideológicas e históricas, os seus instrumentos de análise, os seus princípios e até os seus valores. Como consequência, o mesmo acontece com as suas responsabilidades perante o mundo do trabalho e as suas lutas emancipadoras, bem como perante as suas obrigações internacionalistas. Daí a sua total incompreensão do mundo tal como ele se tornou. Ela é mais influenciada pelos acontecimentos do que guiada por eles, como evidenciado pela pobreza das suas análises.
Entrámos num período de clarificação; encostados à parede, é preciso escolher; tudo é uma questão de escolha tanto para a esquerda como para os outros.
Para recuperar a credibilidade, deve parar de ziguezaguear, transformar-se mostrando em que é diferente e por que deve ser portadora de um projeto de emancipação, de ruptura, e, sobretudo, dizer claramente qual é. Esta clarificação necessária exige que faça o seu balanço, sob a forma de um exame de consciência e de autocrítica.
Os riscos e os desafios estão presentes. Confirmam o que Miguel d’Escoto Brockmann[41] disse quando presidiu à 63ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Setembro de 2008: “A nossa sobrevivência dependerá do grau de determinação que dedicarmos à defesa da vida e da rapidez com que cumprirmos o nosso dever urgente de criar uma Organização independente do Império e capaz de combater eficazmente as várias crises convergentes que nos assolam e, sobretudo, a Origem Principal, ou seja, os Estados Unidos, que está possuído pelo demónio do Full Spectrum Dominance, do controlo absoluto do planeta Terra”.
Não escolhemos a nossa época; temos de estar à altura do que ela exige.
NOTAS
1-Godille: remo, meio de propulsão e direcção considerado incerto.
2-Michael Parenti, cientista político e historiador americano, autor de cerca de vinte livros, incluindo “The Face of Imperialism“, publicado pela Delga em 2011. O Sr. Parenti faleceu recentemente em janeiro de 2026.
3-“A Derrota do Ocidente”, Emmanuel Todd, 2022.
4-V. Putin, resposta a Emmanuel Macron. Citado por Brigitte Pascal, 15 de Outubro de 2025.
5-Mohammad Mossadegh (1882-1967), duas vezes primeiro-ministro iraniano. Ele nacionalizou a indústria petrolífera iraniana. Uma inspiração para os primeiros movimentos anticolonialistas da sua época, ele foi deposto por um golpe apoiado pela CIA que restaurou o Xá.
6-Fidel Castro.
7- Ásia Ocidental ou Médio Oriente.
8-“Com que sonham os socialistas?” Grégory Rzepski, Le Monde diplomatique, julho de 2025.
9-Citado por Rosa Luxemburgo (Junius) na sua obra sobre a crise da social-democracia.
10-União Sagrada, um movimento que procurou unir os franceses face à Primeira Guerra Mundial. Foi incentivado pela propaganda chauvinista e pela traição do Partido Socialista e da maioria do movimento sindical CGT. Em benefício exclusivo da burguesia europeia, ocorreram movimentos semelhantes no Reino Unido, na Rússia e na Alemanha.
11-“Sobre a Contradição”, Mao Tsé-Tung, 1937.
12-Data de início da “Operação Especial” decidida pela Rússia na Ucrânia. Durante o mesmo período, ver a Declaração Conjunta da Federação Russa e da República Popular da China. Chrono. cerec, 4 de Fevereiro de 2022.
13– Durante vários anos, os irmãos Kononovych, dois líderes comunistas, estiveram em prisão domiciliária e com pulseira electrónica, depois de terem sido presos, torturados, à fome e detidos nas piores condições de uma prisão do serviço secreto ucraniano.
Um apelo internacional assinado por 350 figuras proeminentes, juntamente com inúmeros actos de solidariedade, ajudou a evitar que o pior acontecesse nas mãos das autoridades. Stepan Bandera, um líder fascista ucraniano que colaborou estreitamente com a Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial enquanto servia na SS, foi responsável por múltiplos massacres de judeus, polacos e soldados soviéticos.
14-https://www.aljazeera.com/features/2026/3/10/the-fourth-successor-how-iran-planned-to-fight-a-long-war-with-the-us-and-israel.
15-A superfície do Irão é de 1.648.195 km2, o que é quase três vezes a área da França.
16-Sun Tzu, A Arte da Guerra.
17-“Internacionalismo selectivo, como os preconceitos moldam o discurso da LFI sobre o Irão”, blogue de Alain Marshal.
18- O xiismo é um ramo importante do Islão, que compreende 90% da população do país.
19-“A Minha Mensagem é Clara”, Manuel Bompard, BFMTV.
20-CRIF: Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França, é um lobby sionista associado a B. Netanyahu.
21-“Responsabilidade de Proteger” (R2P) é um princípio internacional que tem sido usado para legitimar intervenções e guerras, revoluções coloridas e mudanças de regime em muitos países. Madeleine Albright, a ex-secretária de Estado dos EUA, foi uma forte defensora dele.
22-BRICS+ é um grupo de 10 países que se reúnem regularmente para coordenar as suas políticas económicas e monetárias. OCS: Organização de Cooperação de Xangai.
23-“O Grande Tabuleiro de Xadrez”, Zbigniew Brejinski, 1997, Bayard Editions.
24-“Os Estados Unidos como uma nação indispensáve”, Madeleine Albright, ex-secretária de Estado dos EUA.
25-“O principal inimigo está no nosso país,” Karl Liebknecht, http://www.marxists.org
26-75% a 85% dos produtos alimentares dos países do Golfo provêm do Estreito de Ormuz. RTBF, 11 de Março de 2026.
27-Henry Kissinger citado em “Se a Arábia for para permanecer saudita”, Joseph Bahout, Cahiers de l’ Orient.
28-20% do tráfego mundial de petróleo passa pelo Estreito de Ormuz. A vastidão do território iraniano conecta-se com o Sudeste Asiático e com as novas Rotas da Seda iniciadas pela China.
29- “Veteranos vêem algo perturbador nos memes de guerra de Trump”, Washington Post, 25 de Março de 2026
30-Até à sua renúncia, Joe Kent, que havia sido nomeado para o cargo por Donald Trump, era o Director do Centro Nacional de Contraterrorismo.
31-O AIPAC, Comité Americano de Assuntos Israelitas, é um poderoso lobby nos EUA que apoia incondicionalmente a política israelita. Ver “O Lobby Pró-Israel e a Política Externa Americana“, de John Measheimer e Stephen M. Walt. La Découverte.
32-Ver sobre este assunto o excelente esboço em inglês de Georges Carlin, “Deus e religião”, no Youtube.
33-Húbris: um sentimento de orgulho excessivo que se refere a atitudes de orgulho sem medida.
34-“Por que D. Trump afirma que a guerra contra o Irão está quase terminada?”, Radio France, 10 de Março de 2026.
35-Massada: fortaleza, símbolo do reino de Israel sitiado pelos romanos em 73 d.C. Toda a população escolheu o suicídio colectivo em vez da rendição.
36-Em Janeiro de 2026, Trump afirmou que o seu Conselho de Paz poderia substituir a ONU.
37-Abertura da Cúpula para a Democracia iniciada por J. Biden”, WWW.RTS.CH, 29 de Março de 2023.
38-“Guerra Civil nos Estados Unidos – Tensões em Los Angeles”, The Diplomat, Junho de 2025.
39-“Um risco de guerra civil nos EUA, segundo um especialista”, Journal de Montréal, 22 de Fevereiro de 2025.
40-Emmanuel Todd, “Entrevista na editora japonesa Bungeishunju”, 12 de Março de 2026.
41-Miguel D’Escoto Brockmann (1933-2017), ex-Ministro das Relações Exteriores da Nicarágua, padre católico, líder e guerrilheiro da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). Prémio Lenine da Paz.


EUA = ESTADO TERRORISTA
ISRAEL = ESTADO GENOCIDA
PAÍSES DA EUROPA OCIDENTAL = CAPACHOS SUBSERVIENTES CÚMPLICES
De leitura indispensável, uma extensa e lúcida análise sobre a cegueria da (dita) esquerda, também sobre a paranóia da elite dirigente dos EUA (e também de uma certa Europa), e ainda também da barbárie que campeia para submeter todos aqueles que resistem ao domínio do imperialismo estado-unidense e às demências bíblicas de Israel.
Embora o artigo (excelente) fale abundantemente da esquerda, a verdade é que por tudo o que ficou dito e o mais que sabemos (como sabemos), na verdade constata-se com objectividade que o maior problema da esquerda, talvez até o único problema da esquerda é que não existe, já deixou de existir, mas parece que ainda não sabe, ainda finge que mexe mas não mexe, ainda se agita mas está parada, agarrada ao chão, pregada num atroz imobilismo mascarado, a agitar temas identitários para ocultar a ausência de ideias e atitudes. Estão mortos mas ainda se consideram vivos, cadáveres adiados. Nada os pode salvar de si próprios.