A GANÂNCIA, DE ONDE VEM? – por Carlos Pereira Martins

A GANÂNCIA, DE ONDE VEM?

por Carlos Pereira Martins

A ganância raramente nasce do nada. Cresce devagar, como uma sombra que aprende a ocupar todos os cantos do espírito do indivíduo. Há quem a traga desde a infância, moldada por dias de escassez, por mesas pobres, por bolsos vazios e pela humilhação silenciosa de desejar aquilo que os outros parecem receber sem esforço. Uma criança que conhece a fome, ou a constante insegurança de não saber se amanhã haverá o suficiente, aprende cedo que o mundo não distribui o conforto por igual. E, muitas vezes, cresce convencida de que precisa de agarrar tudo o que puder, antes que a vida volte a tirar-lhe o pouco que conquistou. A ganância, nesses casos, não surge apenas como vício: nasce também do medo, da privação e de uma ferida antiga que nunca chegou verdadeiramente a sarar.

Mas ela não pertence apenas aos que vieram da pobreza. Também floresce entre os que sempre tiveram abundância. Há homens e mulheres rodeados de luxo, patrimónios e privilégios, que continuam a perseguir mais riqueza com uma avidez quase insaciável. Negócio após negócio, fortuna após fortuna, desenvolvem um gosto doentio pela acumulação, como se o valor da vida pudesse ser medido pelo tamanho das contas bancárias ou pela quantidade de bens possuídos. E há algo de profundamente trágico nisso: sabem, no íntimo, que nunca terão tempo suficiente para desfrutar de tudo o que acumulam. Nenhum ser humano vive o bastante para gastar todas as riquezas que certos impérios financeiros conseguem erguer. Ainda assim, continuam. Porque chega um momento em que já não se procura conforto, mas poder; já não se deseja viver melhor, mas possuir mais do que os outros.

Muitas vezes, a ganância nasce também da inveja. Da comparação permanente com quem parece estar acima, mais longe, mais protegido pela sorte. Há quem não suporte ver outro homem prosperar sem sentir necessidade de o ultrapassar. E assim vive numa corrida interminável, onde cada conquista perde valor no exacto instante em que alguém alcança algo maior. O invejoso nunca descansa, porque o seu olhar está sempre virado para fora de si mesmo. Não celebra o que tem; sofre pelo que os outros possuem.

No entanto, talvez a forma mais triste de ganância seja aquela que nasce de um egoísmo profundo e de uma vaidade sem medida. Quando a pessoa deixa de viver para ser e passa apenas a existir para ter. Tudo se transforma em posse, estatuto, aparência, exibição. O espírito empobrece enquanto os cofres enchem. Esquece-se que o verdadeiro enriquecimento humano não está no ouro acumulado, mas nos valores construídos, na educação que ilumina, na cultura que amplia horizontes e na solidariedade que aproxima as pessoas. Porque uma vida dedicada apenas ao “ter” pode acabar rodeada de bens, mas vazia de sentido.

No fim, a ganância é uma fome que nunca se sacia. Quanto mais recebe, mais exige. E talvez a sua maior crueldade seja precisamente essa: convencer o ser humano de que nunca é suficiente. Nunca há bastante dinheiro, bastante poder, bastante reconhecimento. Enquanto isso, passam-lhe ao lado as coisas simples e verdadeiras — a paz, o afecto, a dignidade, o tempo vivido com humanidade.

E há uma ironia silenciosa em tudo isto: muitos passam a vida inteira a acumular riquezas para um dia serem apenas memória. O que permanece, afinal, não é aquilo que se guardou para si, mas aquilo que se foi capaz de oferecer aos outros e ao mundo.

 

 

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