PASSADO PRESENTE… O FUTURO MORARÁ MAIS À FRENTE!
por – Carlos Pereira Martins
Dizem que a felicidade mora muitas vezes na imaginação. E talvez tenham razão. Afinal, quem consegue reinventar a realidade tem sempre mais hipóteses de encontrar nela um lugar confortável para viver.
Foi exactamente isso que fizeram aqueles dois.
Encontraram-se por acaso na rua. Um encontro banal, não fosse o pequeno detalhe de terem passado cinquenta anos desde a última vez que se tinham visto. Cinquenta anos. Meio século. Uma eternidade cheia de vidas, caminhos, alegrias, desilusões, rugas, comprimidos, exames médicos e palavras-passe esquecidas.
Ela olhou para ele, sorriu e disse:
— Não queres passar lá por casa logo à noite?
Ele ficou surpreendido, mas agradavelmente surpreendido.
— Deixo a chave debaixo do vaso da sardinheira — acrescentou ela. — Se te apetecer aparecer, aparece. Mas há uma condição.
Ele conhecia aquele tom. Já aos vinte e cinco anos ela gostava de impor condições.
— Qual?
— Fazemos de conta que voltámos aos vinte e cinco.
A proposta era simples e revolucionária.
Nada de falar dos cinquenta anos entretanto decorridos. Nada de relatos sobre casamentos, divórcios, carreiras, reformas ou desilusões acumuladas. Nenhuma conversa sobre o passado. Nenhuma reclamação sobre o presente.
Nem uma palavra sobre colesterol.
Nem sobre tensão arterial.
Nem sobre o joelho que estala quando muda o tempo.
Nem sobre a coluna que faz mais barulho do que uma porta antiga.
— E se eu ficar para dormir? — perguntou ele.
— Podes ficar. Mas aviso já que talvez estranhes o colchão. Não está moldado ao teu corpo. Há cinquenta anos que anda a moldar-se ao meu.
Ele riu-se.
— E de manhã?
— De manhã vais cedo comprar pão fresco e fazer torradas.
— Só isso?
— Depois ficas livre para fazer o que quiseres. Como aos vinte e cinco.
As regras continuavam.
Não seriam admitidas desculpas para nada.
Se algo corresse mal, corria mal.
Se demorassem mais tempo a subir escadas, ninguém comentava.
Se um precisasse de óculos para meter a chave na fechadura, fingia que estava apenas a apreciar o estado das madeiras.
Se uma saída da cama ou levantar da mesa saísse menos elegante do que em tempos, seria considerada uma nova versão artística.
E, acima de tudo, estavam proibidas as queixas.
Nada de doenças.
Nada de entorses.
Nada de hérnias.
Nada de lombalgias.
Nada de comparar o presente com aquilo que já tinham sido.
Durante algumas horas, seriam apenas dois jovens de vinte e cinco anos com uma experiência de vida absurdamente suspeita para a idade.
Ela começou a afastar-se e, antes de dobrar a esquina, voltou-se para trás.
— Então, olha… talvez até logo, não?
Ele ficou a vê-la desaparecer.
E, por um instante, teve a sensação estranha de que os cinquenta anos se tinham enganado no caminho.
— A chave continua no vaso da sardinheira! — gritou ela ao longe.
E quem sabe se, naquela noite, a imaginação não fez aquilo que o tempo nunca conseguiu fazer: devolver-lhes a juventude. Nem que fosse apenas até à hora das torradas.

