REFLEXÃO AO CAIR DA NOITE
por Adão Cruz
Pintura de Adão Cruz
Eu gosto muito do meu Porto e penso que seria capaz de escrever lindos textos sobre ele. Mas não me apetece. Apetece-me escrever um texto feio. Como me apetece escrever só textos feios sobre o Porto, este país, esta Europa e este mundo, vítimas de uma das maiores enfermidades políticas, a ameaça da recidivante infecção fascista. Este Porto, este país, esta Europa e este mundo, sobre os quais gostaríamos de criar os mais belos poemas, só me desprendem lágrimas de amargura. Injustos, corruptos, mentirosos, descaracterizados, desculturados, deserdados, são o fruto da contracultura, a filha dilecta do fascismo. A aniquilação da educação e da cultura e a imposição comunicacional da mentira sobre a verdade fazem crescer a deterioração e a ausência de higiene mental, ameaçando o futuro da sociedade. Uma sociedade que pode estar condenada à degenerescência, à ignorância, à iliteracia, ao laxismo, à perda do sentido estético e da beleza, à ausência da actividade pensante, à perda da capacidade de indignação e revolta, ao amorfismo e ao conformismo, à permanência do banal como único GPS do pensamento, levando à incapacidade de cada um ser individualmente quem é, fundindo-se numa gelatinização de hábitos, de vestuários, de costumes e credos que apenas redundam numa tristonha rotina, mãe de todas as mortes. Mortes da vida como vida, mortes da criatividade e da alegria de ser, de viver e de estar, mortes do ser humano como gente, mortes da apetência cultural e da força vital da cultura, único caminho do desenvolvimento e valorização da pessoa humana em todos os sentidos. Esta anulação social que nos cerca por todos os lados é um factor de risco muito importante no empobrecimento do estado mental do cidadão, besuntando-lhe os neurónios com o sebo da ignorância, do obscurantismo e da irracionalidade. A alergia cultural do poder, a aversão pelo desenvolvimento cultural como prioridade das prioridades, a incapacidade de entenderem este impressionante fenómeno da catalisação da vida pela cultura, a arrogante negação do saber como metabolito essencial da existência e da vida matam o carácter de um país e do mundo.
O poder, que deveria ser do povo, vem de cima, do antro lamacento da corrupção, da qual não parece fácil livrarmo-nos. É mais do que provável a continuação de governações negativas e adiposas, aliadas à obesidade argentária das instituições financeiras, das grandes empresas, dos poderes económicos legítimos, ilegítimos ou organizados em quadrilha, onde a verdadeira cultura foi sempre o inimigo principal e nunca um objectivo a atingir. Eles sabem que ela é a mais importante vacina contra a corrupção e a virulência da ambição desmedida. Quanto mais longe da verdadeira cultura, melhor funciona o “caldo” deste enxame de criminosos e parasitas que infestam o mundo.



Certo! Certíssimo! De facto eles andem aí, olá se andem….