FUTEBOL E POLÍTICA por ROBERTO RIVA

 

FUTEBOL E POLÍTICA

por Roberto Riva

(recensão à edição italiana do volume do catalão Ramon Usall, Futbolitica, Roma, 2026)

Em 17 de Fevereiro de 1974 o Barcelona derrotou no estádio Santiago Bernabéu o Real Madrid por cinco a zero. Segundo os adeptos da equipa catalã, especialmente os mais politizados, aquele encontro terá dado impulso à transição para a democracia na península ibérica. Já no passado se verificaram episódios futebolísticos interpretados como gestos de forte significado político. No final dos anos 20, por exemplo, os jogadores do Barça recusaram-se a comparecer perante Miguel Primo de Rivera. Mais recentemente, em Outubro de 2017, quando o governador da Catalunha Carles Puigdemont anunciou unilateralmente a independência da região, os adeptos, em cada jogo disputado em casa dos “Blu Granata”, não pouparam ruidosos coros de cada vez que  o jogo alcançava o minuto 17.21, para recordar aquele 1721 (na realidade a queda de Barcelona aconteceu em 1714) em que a cidade perdeu a autonomia por ocasião da guerra de sucessão espanhola.

Segundo o autor, não é só o clube fundado por Hans Gamper a cruzar-se com a política, mas este fenómeno militante é típico também de outras equipas. Basta pensar no Celtic Glasgow, orgulhoso das suas origens irlandesas, no Athletic Bilbao, paladino da identidade basca, no Deportivo Atlético Baleares, próximo das instâncias do arquipélago, no Al-Wehdat, nascido nos campos prófugos palestinianos da Jordânia, ou nos Passive Resisters, que se inspiram no testemunho de Gandhi. O Racing Universitaire d’Alger fez até alinhar como guarda-redes o futuro prémio Nobel Albert Camus, enquanto a equipa Star of the Sea, nascida em Rathcoole, viu jogar como lateral esquerdo Bobby Sand, empenhado sucessivamente como activista pelos irlandeses do Norte. Até uma associação não europeia, o Deportivo Colo-Colo, terá interpretado, segundo Usall, aqueles valores de proximidade às classes populares favoráveis ao presidente Allende.

O futebol, infelizmente, também foi antecipador de guerras fratricidas: pense-se no jogo disputado entre o Dínamo de Zagreb e o Estrela Vermelha em 13 de Maio de 1990, e que terminou com os recontros violentos entre as facções croatas e sérvias. Este ódio nacionalista dilatou-se em larga escala e, depois de poucos meses, acabou por causar um cruento conflito de vários anos nos Balcãs. As rivalidades acenderam-se entre nações maiores, como por exemplo na guerra do futebol, termo que o jornalista Ryszard Kapuscinski criou ao referir-se a uma partida disputada entre Honduras e Salvador em 27 de Junho de 1969, por ocasião da qualificação para o campeonato do mundo de 1970. O “match” reacendeu contrastes territoriais entre os dois estados confinantes que, em menos de um mês, conduziu os dois países para um breve mas sangrento conflito armado.

Traduzido do catalão por Simone Berelegni, o livro de Usall é fluente e apaixonante, até para quem não se interessa por futebol e por política.  Para além de fornecer uma panorâmica geral sobre a relação entre a bola e ideologias, aborda alguns casos específicos, por exemplo, sobre como alguns clubes menores influenciaram a vida de uma nação. O autor narra, por exemplo, como a Associação Académica de Coimbra, no final dos anos 60, promoveu uma contestação (desportiva) contra o regime português. O país lusitano, já do início dos anos 60, estava a ser pressionado no sentido da descolonização dos territórios africanos, enquanto depois da ”enfermidade” de Salazar, o seu sucessor, Marcelo Caetano, embora mantendo as mesmas estruturas autoritárias, foi introduzindo tímidas reformas liberais, como a instituição de formais representações estudantis. Estas agregações juvenis não poderiam nunca criticar abertamente o governo, pois que, até à Revolução dos Cravos, Caetano manteve activa a polícia secreta; por isso, muitas vezes, a contestação foi encabeçada por audazes acções desportivas.

A Associação Académica de Coimbra englobou uma equipa de futebol não profissional e que, precisamente na Primavera de 1969, desafiou o Estado Novo, vestindo durante os jogos equipamento de cor negra e não as cores sociais, para manifestar contra as privações morais causadas pela ausência de liberdade. Nessa época, os resultados conseguidos na “Taça de Portugal” foram lisonjeiros, tanto que alcançaram a final contra o renomado Benfica. As autoridades de Lisboa tentaram inicialmente impedir que se realizasse a partida mas, preocupadas pela reacção dos universitários, muito entusiastas com as primaveras europeias do ano precedente, consentiram que as equipas entrassem em campo. Naquele 22 de Junho de 1969, no Estádio Nacional, a Académica passou inicialmente em vantagem, graças a um golo do avançado Manuel António, mas foi ultrapassada por jogadas de António José Simões e de Eusébio da Silva Ferreira, os dois “ases” da nacional lusitana. Muitos simpatizantes do Benfica não exultaram pelo título conseguido, porque na outra equipa terão visto uma renovada esperança contra a ditadura. Usall recorda, todavia que, em 2012, já num Portugal democrático, esta realidade de província obteve a sua desforra, levantando a Taça de Portugal.

(Texto publicado no “Notiziario CNR, Universidade de Milão”, n.º 131, de Abril-Maio de 2026, distribuído “on line”. Tradução de Manuel Simões.
Nota do tradutor: Nos anos 60, os jogadores da Académica de Coimbra eram simultaneamente estudantes. O episódio do final da “Taça de Portugal” teve lugar em 1969, depois da negação da palavra ao representante das Associações de Estudantes. Foi então decretada a greve geral aos exames e proclamado o luto académico. Se não recordo mal, os jogadores de Coimbra exibiam faixas negras nos braços, em sinal de luto. O equipamento negro era (e é) a marca da imagem da Académica, agora com algumas excepções em obediência às leis do mercado. A Académica de Coimbra (clube de futebol sem ligação às Associações de Estudantes) é hoje, como é óbvio, uma entidade desportiva totalmente profissional).

 

 

 

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