APRESENTAÇÃO DE “DICIONÁRIO INSUBMISSO PARA O SÉCULO XXI” DE BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS NO PORTO (UNICEPE), 10 DE JULHO DE 2026

 

APRESENTAÇÃO DE “DICIONÁRIO INSUBMISSO PARA O SÉCULO XXI” DE BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS NO PORTO (UNICEPE), 10 DE JULHO DE 2026

por Jorge Castro Guedes

Não estou preparado para o atrevimento em que o meu amigo Boaventura de Sousa Santos me meteu. Da sua obra, conheço alguma coisa e essa coisa que conheço me faz admirar e admirar o Homem. Ao mesmo tempo que se constituiu uma amizade genuína, que me levou a esquecer esta minha ‘falta de vergonha’ para falar dele e deste livro com que nos brinda.

Mas, como aqui vim, aqui direi algumas muito breves palavras.

Assim, começo por dizer que nele, livro, começo logo por me identificar com o seu início, com a sua primeira frase, ainda no Prefácio, quando diz que “a função do intelectual é perturbar o torpor do conformismo” (pág. 11). É, de facto, o que procurei fazer, como artista, no teatro, toda a minha vida. Tenho mesmo para mim que a arte só atinge verdadeiramente tal categoria, quando nos faz espantar pela beleza e inquietar pelo que nos diz, dizendo pela razão ou pela emoção. Aliás, umas linhas mais abaixo leio, a propósito do pensamento [e que será a arte senão o pensamento dos sentidos? – pergunto-me eu], diz-nos que ele, pensamento, “parte de uma inquietação partilhada”. Diria que no meu caso, na minha arte para ser mais correcto, a partilha, com o público, é o que concretiza e faz com que essa arte, o teatro, o seja. Antes disso não o é.

Aliás, quando nos propõe no capítulo 1º da obra, os “Exercícios espirituais insubmissos” (pág. 21), lançando-nos nos braços da “razão segundo Goya”, como “nosso contemporâneo” (pág. 26), a propósito dos medos, sublinha “o medo da arte” (pág. 33), que, direi eu, é um  dos instrumentos para manter a comunidade na ignorância, de par com outros medos que Boaventura cita antes: o do compromisso, o da própria condição existencial, da incoerência e da contradição, do diálogo, da educação e da auto-educação, da razão quente das imagens e das emoções – sobre este lembro a ideia da ‘razão fria’ atribuída à monstruosidade nazi por Habermas (e que Boaventura também cita) para encontrar resposta para a frieza racional do poder hitleriano –, da redundância e repetição.

Mas importa que diga que, antes, no seguimento imediato da frase inicial, Boaventura adverte-nos: “Mas não deve nunca esquecer que, se esse exercício de perturbação não for constantemente questionado por si próprio, pode transformar-se numa outra forma de torpor, o torpor do inconformismo”.

É neste registo comparativo entre sociologia e arte que me posso permitir reflectir em voz alta sobre este “Dicionário insubmisso para o Século XXI”, até porque o que é a arte senão a insubmissão da imaginação? Ou, como Boaventura diz fazer eco com Tolstoi, a propósito de “para quem qualquer modo de pensar que exclua a imaginação e não incorpore a dimensão emocional nas ideias não poderá alcançar a verdade“. Para conceitos mais elaborados, que o Professor veio desenvolvendo ao longo dos anos e que agora os enfoca nesta outra perspectiva de “trinta exercícios sócio-espirituais para uma época de isolamento e incerteza ilimitada”, quem sou eu senão um leitor curioso e ávido para entender toda a dimensão do que é, como se forma e o que nos propõe a sua epistemologia do Sul ou as ecologias dos saberes? Não porque Boaventura não seja claro e procure uma acessibilidade de compreensão, mas porque o que eu posso compreender fica muito aquém da profundidade em que nos mergulha.

É-me mais confortável falar do que faz ponte entre as propostas dessas abordagens sociológicas e a arte, aqui trazidas como elementos espirituais, tendo em conta que, como nos previne, devemos evitar confundir aquilo que é comum – colar à ideia única de religiosidade: “por muito difícil que seja delimitar o que é a espiritualidade” e, ou, como sublinha, “mesmo impossível (…) uma vez que o conceito de espiritualidade varia não só de uma cultura para outra, mas também de um período histórico para outro” (pág. 286). Colocando-me na posição de intelectual de rectaguarda, no sentido que o Professor lhe deu logo num dos nossos primeiros encontros – e guardei religiosamente (aqui religião também varia no conceito) – em função da complexidade dos tempos actuais e da falta de doutrina enformadora para seguir, mesmo como utopia, num objectivo unipolar ou unicentrado.

De resto, neste mesmo ensaio sociológico, Boaventura chama-nos à razão sobre alguma fixação rígida, dogmática, do marxismo, recordando-nos que o Marx tardio – e incompleto – que se não renunciava à sua visão analítica do capitalismo, não deixava de questionar a sua completa transição para aquilo a que Boaventura chama a sociologia da ausência, que se distancia da possibilidade de ser olhada com o modelo das sociedades industrializadas europeias; ou daquilo a que, com mais precisão, Boaventura prefere designar como a Europa e “a Europa fora da Europa”; ou seja, desde logo os Estados Unidos, mas também o que não fica sequer no Hemisfério Norte, como o mostra a Austrália, ou no lado Ocidental, como o mostra o Japão, por exemplos.

As diferenças culturais profundas traduzem a “intraduzibilidade” (como na Língua), de que Boaventura diz ser uma “questão [que] não é uma falsa questão que se resolve pelo simples facto de ser colocada” (pág. 304).  E aqui volto a cruzar com o discurso de Boaventura a arte enquanto ela-mesma, linguagem intraduzível para lá do que é a Obra. {Permitam-me uma deriva pessoal para esclarecer o seguinte: quando em debates sobre alguma das minhas encenações alguém me coloca a questão de se é isto ou aquilo que quero dizer, devolvo sempre a questão para o próprio, aceitando que essa é a leitura correcta para ele mesmo e que tudo o que eu tinha a dizer o disse pela Obra teatral que apresentei}.

Ora, neste mesmo campo, mais próximo me sinto ainda na fusão do teatro nestas perspectivas sociológicas quando Boaventura faz aquilo a que chama “o elogio da presencialidade” (pág. 272) e nos propõe (ainda nesta mesma página) “a co-convencionalidade” para tornar “presente os que vivem na ausência” das abordagens sociológicas mais tradicionais e ocidentais. É exactamente o mesmo, repiso-o, o que acontece com o teatro para ser teatro: a co-presencialidade em tempo e espaço. Sobretudo, porque, ainda-por-cima faz isso concordar com a ideia de que “nada está presente senão em relação a algo que está co-presente ou está ausente” (pág. 272), numa espécie de abordagem fenomenológica muito especial e diferenciada, que me remete para a ideia da Filosofia Ubuntu: “eu sou porque tu és”, onde se cruzam Ghandi ou Mandela, por exemplo.

Mas recuemos de novo às primeiras páginas deste “Dicionário Insubmisso para o Século XXI” para reforçar essa expressão do intelectual de rectaguarda que me cativou imediatamente como expressão lúcida da contemporaneidade. É que, como diz Boaventura (pág. 40) “é falso e irresponsavelmente optimista pensar que cada época só se põe os problemas que pode resolver”. O Zeitgeist (digamos espírito de época, para simplificar) e os tais medos a que Boaventura dá predicados, são elementos que contrariam desde logo essa ideia de uma qualquer redenção doutrinária, fora de um campo místico. Não são elementos que sirvam à sociologia, mas que a sociologia pode reconhecer como presentes e como assimptotas para um caminho que se deseje atingir. Mas nunca passam de ideações, por mais úteis (digamos assim) que nos possam ser, mesmo que como pedaço de barco num naufrágio.

Quando Boaventura nos dá o exemplo de Rosseau, dizendo que o que “o levou a imaginar uma total transformação da natureza humana como condição para viabilizar a sociedade futura”, não teve em conta que “o futuro dele é o nosso passado” (pág. 40) e que o mesmo é dizer, acrescentarei eu, que depois das muitas doutrinas que se propuseram transformar a natureza humana de forma radical para criar o seu ou seus – de cada uma – Homem Novo, redundaram em distopias de marca invertida ao que se propunham no enunciado. Ou como sintetiza Boaventura (ainda na pág. 40) em conclusão sobre isso: “o nosso passado mostra que o infinito (a total transformação da natureza humana) não pode ser nunca um objectivo humano”.

Assim, tenho para mim, que o intelectual de rectaguarda contemporâneo é o sensato que conhece tudo isso e em vez de se pretender a vanguarda de novos ideais, procura compreender os movimentos sociais, as transformações tecnológicas, as descobertas científicas, a diversidade cultural, a pluralidade de propósitos específicos de adesões políticas, numa época extremamente complexa, rica na mutabilidade e inesperada, que merece observação, muito antes ou muito além de propostas, sobretudo se se julgam universais, até mesmo só em espaço, quanto mais no tempo.

Neste maravilhoso que a História nos oferece na contemporaneidade, boiam, de par, cadáveres migrantes no Mediterrâneo, morrem à míngua velhos e crianças, a guerra é de si para si porque é negócio e etc., no mesmo passo em que o racismo e a “ignorância indolente” nos envolve em visões europocêntricas, mesmo quando combatemos essa realidade. Parece-me isso e é nisso que confluo com o que espreito ser a magna abrangência da visão de Boaventura, quando constato por certo e muito assertivo que a “produção activa e consciente de ignorância massiva de conhecimentos de cuja falsidade os produtores estão plenamente conscientes“ (pág. 120) não se queda por análise ou ‘acusação’ de uma leitura ideológica do Mundo, mas que é fácil de compreender por quem se cruze nas diferentes propostas de expressão política, tendo o denominador comum ético do humanismo.

Todavia, a esta percepção de horrores e perigos de uma aparente vitória do anti-humanismo, Boaventura contrapõe a necessidade de não confundirmos uma acédia cínica (intelectualmente produtiva, à partida) com “um profundo sentimento de incapacidade para começar ou terminar uma tarefa, como a incapacidade para transformar o Mundo ou para lutar por um Mundo melhor” (pág. 194). Por isso, quando nos diz que “o inconformismo do futuro terá uma forte dimensão artística e a arte será investida de uma nova capacidade de transformar o Mundo” (pág. 196), mais do que sentir-me orgulhoso pelo papel que atribui aos artistas e à arte, posso ver na afirmação uma responsabilidade para as gerações futuras de artistas, uma vez que a arte em mim é já mais passado e de futuro só restar o testemunho e algum pequenino contributo que dele possa ficar para essas gerações que ainda estarão apenas a despontar ou irão mesmo despontar depois.

Por mais que tema e esteja consciente daquilo a que Boaventura, numa síntese notável, chama “a dronificação do poder” ou “o poder dronificado” (ambas as expressões na pág. 201) acelera “a subjectivação [que] é o processo pelo qual alguém se torna um sujeito” e que “implica simultaneamente a sujeição a um poder que exige total dependência” (pág. 203). Ora é aqui, precisamente, que a arte pode ajudar no reconhecimento da ilusão entre a afirmação saudável do Eu moderno com a negatividade da massificação dos Eus exacerbados na aparência, modelos auto-reproduzidos uns dos outros na realidade comportamental e existencial.

Ainda assim – ou por esta mesma razão – importa olhar criticamente as chamadas “guerras culturais” (mais reconhecíveis se dissermos ‘causas fracturantes’ para identificar do que falamos). Muitas vezes, no modo superlativo, já não são nem fracturantes, senão na roupagem, nem causas, porque desligadas das mais causas a que elas deviam pertencer. É neste equívoco que justos movimentos iniciais, também podem bem reproduzir, noutro contexto, os modelos utópicos de uma sociedade sem classes na distopia dos chamados julgamentos de Moscovo. Aliás, Boaventura, também o torna explícito e ilumina o assunto quando refere que “o bode expiatório é uma forma específica de violência ritual cujo principal objectivo é criar ou reforçar um dado sistema ou organização social” (pág. 208).

A arte tem o dever de fugir de tais tentações falsas de um pós-modernismo, numa sucessão de cambalhotas e tropeções de supostas invenções do já inventado, estrangulando o tempo na procura da novidade velha. A propósito, diria eu que é, na estética, o mesmo que o ‘pós-Eu’, que já não é Eu, mas sim massa informe, atropelando o tempo. Uma coisa é a valorização do indivíduo como expressão, mesmo que romântica, do direito à expressão das singularidades de cada um; outra é a individuação de cada Eu para anular o conjunto de singularidades e massificá-lo num pensamento homogéneo.

É que também em arte, importará olhar para o que Boaventura aponta (págs. 312 e 313) como “quatro ideias-chave [que] emergem” da riqueza da verdadeira diversidade e que se podem condensar nas afirmações de que: “não existem sujeitos históricos”, mas sim um colectivo de “todas as pessoas que lutam” pelas causas que se confundem nas “dominações da modernidade”; “a Natureza não nos pertence, nós é que pertencemos à Natureza”; “é preciso recuperar a soberania temporal e o uso autónomo do tempo”;  “se é verdade que não podemos viver sem biodiversidade, não é menos verdade que não podemos viver sem demodiversidade”.

Não se trata, naturalmente, de uma cópia, mas de uma extrapolação da sociologia para a Arte. Mas julgo já ter ido além da chinela.

Gostaria de ter saberes maiores para ter apresentado este livro de forma mais aprofundada e nos mesteres próprios dela. Mas fiz o que pude. E como quem faz o que pode, a mais não é obrigado, obrigado eu por me terem ouvido.

 

XXX – XXX

Nota do Editor:

O livro pode ser também adquirido online aqui:

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Preço: €22.00

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