(Continuação do texto anterior)
que andamos nós a fazer? não nos podemos satisfazer só com o direito à indignação!
Que vergonha sinto quando se pedem punições para pais e filhos, quando se aponta com o dedo uma escola fragilizada pela tutela e pela sociedade no geral!
Que vergonha sinto quando cada vez mais se pedem medidas sancionatórias, em prol de uma maior segurança. Segurança, de quem? Certamente não das crianças agressoras ou vítimas, não, certamente, das mulheres batidas, não, certamente, das minorias, não, certamente, do intocável espaço privado!
Que revolta sinto ao viver numa sociedade que pensa que é na foz que se estanca a corrente furiosa dos rios…ignorando o percurso dos seus leitos, a pressão das suas margens…
Parece que agora se descobriu uma nova violência na escola!
A violência na escola é tão velha quanto ela, uma das primeiras denúncias de violência na escola surgiu no século XIX, em Inglaterra numa escola de ruggby. E esta terá sido a primeira situação de violência entre crianças na escola? E na rua? E em casa? E no trabalho? A Escola, de então, foi capaz, sozinha, de acabar com essa violência?
Que admiração e que fraqueza social querer dizer-ser que a violência na escola é fruto de uma escola que dizem ser permissiva! Quem assim a rotula não sabe o que é viver em democracia, entre pares, num ambiente escolar que se quer apaziguador das tensões sociais.
Digam abertamente que a escola é só para alguns, os alguns, poucos, que sabem viver em comunidade antes de entrarem para a escola; tenham a coragem de dizer que os professores e diretores são pessoas embrenhadas na mesma trama social que os pais dos alunos, que os próprios alunos; tenham a coragem de dizer que a Escola, assim pensada, não serve e que é necessário uma ante-escola (não uma pré escola onde os problemas são os mesmos) para ensinar a pais e a filhos as regras sociais da vida em comunidade; para ensinar que autoridade não é autoritarismo, que castigar não é forçosamente excluir, que o respeito tem que ser mútuo entre todos, adultos e crianças. A violência é algo que se aprende socialmente e, por isso, a regulação de comportamentos também o será.
As regras democráticas, acreditamos na democracia, não? que têm como princípios os da Declaração dos Direitos Humanos, têm de se sobrepor às regras institucionais. A família não é protetora, transmissora de conhecimentos e de afetos se não houver respeito mútuo, a sociedade não é livre e justa se não conhecer e respeitar a especificidade do outro, a Escola não é determinante para o bem-estar de todos se não valorizar e viver em conformidade com a democracia e a liberdade de se ser pessoa inteira.
É difícil não é? Mas ser difícil não é ser impossível!
Não há novas formas de violência, há, sim, novas formas de as mostrar, são precisas novas formas de se lidar com elas.
Será que os pais têm mais tempo para o trabalho ou para a família; será que os bairros sociais têm que estar separados dos outros bairros; será que os jogos para crianças têm que estar impregnados de imagens violentas; será que temos que ter uma escola a tempo inteiro ou deveríamos ter reforços familiares, avós, tios, primos, para ficarem com as crianças; será que os espaços comerciais devem ter recantos para entreter as crianças enquanto os pais são devorados pela sociedade de consumo; será que os dirigentes do país devem discutir questões menores que se resumem a diálogos, quantas vezes furiosos, sobre posições pessoais deixando sempre adiadas as questões das pessoas singulares que andam nas ruas, que são chamadas às escolas por causa do comportamento dos filhos, que vão ao hospital ver a amiga batida, ver o filho violado; das pessoas singulares que não têm dinheiro para viverem dignamente, das pessoas singulares que não têm tempo para pensar e refletir sobre o seu dia a dia e revoltarem-se.
São estas as pessoas singulares que feitas parcelas ínfimas da sociedade se podem juntar, fazer da poalha uma nuvem e dizer basta! E a nuvem, muitas nuvens fazerem um céu imenso de indignação provocando a revolta, a mudança.
(Continua)

