A VIDA É MORTE EM GAZA (DESPOEMA)
por Adão Cruz
Pintura de Adão Cruz
Em Gaza a vida morre a todos as horas
Em Gaza as horas não contam a vida
Em Gaza todas as horas contam a morte
Em Gaza todas as horas são horas da morte
Em Gaza não há vida sem as horas da morte
Em Gaza a morte não tem horas
Em Gaza a morte é desnaturada
Em Gaza a morte é intemporal
Em Gaza a morte é artificial
Em Gaza a morte é certeza
Em Gaza a morte vem de tiros e aviões
Em Gaza a morte vem de tanques e canhões
Em Gaza a morte está nas fardas
Em Gaza a morte está nos corações
Em Gaza a morte está no medo
Em Gaza a morte está nas prisões
Em Gaza a morte é degredo
Em Gaza a morte está no horizonte
Em Gaza a morte bate à porta
Em Gaza não há caminho nem ponte
Em Gaza a morte vem de noite
Em Gaza a morte vem de dia
O sol nasce em agonia
Em Gaza o sol nasce sombra
Em Gaza o sol não aquece
Em Gaza o sol é frio
Em Gaza o sol é uma criança a chorar
Em Gaza o sol é uma criança a morrer
Em Gaza não há luar
Em Gaza a lua é de chumbo
Em Gaza a lua é uma criança a chorar
Em Gaza a lua é uma criança a morrer
Em Gaza não há tempo de sentir
Em Gaza não há tempo de viver
Em Gaza não há tempo de fugir
Em Gaza não há forma de ficar
Em Gaza só há tempo de morrer
Em Gaza as estrelas não cintilam
Em Gaza as estrelas tremem
Em Gaza não há vento
Em Gaza o vento é gemido
Em Gaza o choro é lamento
Em Gaza o vento é das balas
Em Gaza só há medo
Em Gaza não há sonhos
Em Gaza as crianças morrem cedo
Em Gaza os sonhos não são crianças
Em Gaza as crianças são tiro ao alvo
Em Gaza a morte é certeira
Em Gaza a morte ceifa as crianças
Em Gaza a morte ceifa os pais das crianças
Em Gaza a morte esmaga os avós das crianças
Em Gaza a morte é inteira
Em Gaza a morte arrasa
Em Gaza a morte é sôfrega
Em Gaza a morte é maciça
Em Gaza a morte é selvagem
Em Gaza a morte é moderna
Em Gaza a morte é filmagem
Em Gaza a morte é matemática
Em Gaza a morte vem de rajada
Em Gaza a morte despedaça
Em Gaza a morte é uma desgraça
Em Gaza a morte é de sangue
Em Gaza a morte cai do céu
Em Gaza a morte está no chão
Em Gaza a morte vem do inferno
Em Gaza a morte vem do lado de lá
Onde a morte vive e canta
Onde a morte vive e dança
Dentro do peito
Que satanás roubou
Ao coração do “povo eleito”.


