CONTOS – Por José Fernando Magalhães (3)

 

 

O CAFÉ DE SEMPRE

 

Passou à porta do que fora o café de sempre. Parou. Sem perceber porquê, entrou. Estava tudo quase igual. As mesmas mesas, os mesmos espelhos, as mesmas cadeiras… mas as pessoas eram outras.

Já não havia gente nova, estudantes. Só velhos! E poucos. Velhos de olhar perdido, parado, com um copo de água como companhia.

Nem o jornal, nem o palito! Nem a piada fazia sentido.

Durante anos frequentara diariamente o mesmo café. O trabalho, os amores, os casamentos e os divórcios, os filhos, os netos … tudo e todos tinham contribuído para que esse hábito se perdesse.

– Fáxabore … disse-lhe o empregado ainda mais velho que os velhos clientes.

– Um cimbalino e uma torrada bijou, por favor.

Sem mais, virou-lhe as costas e falou alto para o balcão:

– Um café e uma bijou!

Não era assim. Não era nada assim. O atendimento foi um choque. Que indelicado, pensou.

Olhou à volta. Afinal havia mudanças.

No balcão havia um pequeno espaço envidraçado com bolos, e uma minúscula máquina de sumos. A um canto uma pequena parede dedicada à desgraça dos pobres. Raspadinhas, muitas e dos mais variados aspectos e cores.

Atrás do balcão uma senhora, ainda mais velha que todos os outros, arrastava-se penosamente.

As escadas para a cave, onde antes havia mesas de bilhar, estavam fechadas. Uma corrente plástica, vermelha e branca, impedia o acesso. Que saudades das horas infindas passadas a jogar “bilhar livre”. Três bolas apenas, o pó do giz nos dedos, o ritmo da juventude!

Um pequeno alvoroço parou-lhe o pensamento. Três mulheres, já perto dos cinquenta, com xaile, chinelos e peúgas grossas até ao joelho, por cima das calças de pijama, entraram e dirigiram-se ao balcão.

– Olá, D. Joaninha. Uma raspadinha. Daquelas dali.

Apontou para uma de entre as dezenas que lá estavam.

As duas outras fizeram o mesmo. Pagaram. Ali, a esperança custava cinco euros. Rasparam.

A uma delas saiu um prémio.

– Quer o dinheiro ou outra? Perguntou a D. Joana

– Outra. Dê-me duas!

Já não lhe saiu qualquer prémio.

– Até logo.

Saíram.

Nisto a torrada e o cimbalino chegaram sem cerimónia. O empregado nem olhou para ele. Pousou pesadamente as coisas na mesa, e afastou-se a arrastar os pés.

A torrada vinha quase fria e a manteiga era pouca. O café frio e queimado deixou-lhe um sabor amargo na língua. Sentiu-se desconfortável por ter tentado desenterrar o passado. Deixou dinheiro mais do que suficiente para pagar a pequena despesa e saiu para a rua.

Já no passeio e após uns minutos de caminhada lenta, parou. Não sabia bem porquê.

Foi então que o viu, sentado num banco de jardim, perto do Soldado Desconhecido. Com um jornal dobrado no regaço, que claramente não estava a ler, estava o João José. O mesmo João José das tardes de bilhar, das discussões sobre os Merengues, o Foz, o Boavista, o Salgueiros e o Porto, das primeiras cervejas e dos primeiros cigarros fumados às escondidas dos pais.

Envelhecera. Claro que envelhecera. Acontece a todos. Mas havia nele qualquer coisa que resistia ao tempo. A forma como inclinava ligeiramente a cabeça, ou o jeito distraído com que tamborilava os dedos no joelho. Sim, era isso! Era o João José!

Ainda hesitou. Poderia seguir em frente. Era mais fácil.

Mas as pernas não lhe obedeceram.

– João José!

O homem do banco levantou os olhos devagar, como quem se esforça por acordar de um pensamento longo. Piscou os olhos. E, num segundo, qualquer coisa mudou no seu rosto. Um misto de estupefacção e alegria.

– Ó Carlos. Que diabo fazes por aqui?

– Passei pelo café.

– Pois, nem consigo lá entrar.

– Já não é o mesmo.

– Nada é!

Por um bocado ficaram em silêncio, a olhar um para o outro. Não era um silêncio desconfortável. Era o silêncio de quem não precisa de explicar os anos que passaram.

– Tens tempo? Senta-te pá!

Carlos olhou para o banco, olhou para a rua, pensou na tarde vazia que o esperava em casa.

– Tenho, claro.

Sentou-se.

 

 

 

 

Leave a Reply