Veneza que morre, Veneza apoiada no mar,
a doce obsessão dos seus últimos dias tristes, Veneza, vende-a aos turistas,
que procuram no meio da multidão a Europa ou o Oriente,
que olham ao fim da tarde a fumaça – ou a raiva – que se levanta de Porto Marghera…
[…] Veneza é um hotel, São Marcos decerto é também o nome de uma pizzaria,
a gôndola é cara, a gôndola é apenas uma bela volta de carrossel.
[…] Veneza é uma farsa que só enche a cabeça de fatalidades:
já não sabes nada do resto do mundo, Veneza é a gente que não se importa com nada!
(Venezia, 1981)
Itália acaba de perder um dos seus grandes cantautores, Francesco Guccini (1940-2026), autor de uma discografia riquíssima desde 1967, além escritor com uma sólida obra composta de textos narrativos e ensaios; pela qualidade das suas letras amiúde tem sido apontado como um verdadeiro poeta da contemporaneidade, que sempre descreveu e cantou com versos profundos e um olhar crítico e perspicaz na leitura da sociedade.
Em 1981, no álbum Metrópolis – todo ele focado na descrição de cidades altamente simbólicas – publicou “Venezia”, uma música que já captava o declínio inexorável de Veneza, disposta a vender-se ao turismo e pronta a virar as costas à dimensão operária e industrial do polo de Porto Marghera, no imediato continente.
O engajamento político e cívico de Francesco Guccini marcou toda a sua poliédrica trajetória profissional, que abrangeu também o ensino, o jornalismo, o cinema e a banda desenhada. Algumas das suas tomadas de posição ficaram registadas em canções que surgiram a partir de notícias da atualidade italiana ou, menos frequentemente, internacional, como Primavera di Praga (1969), La locomotiva (1972), Piccola storia ignobile (1976), Canzone per il Che e Piazza Alimonda (2004) ou Il testamento di un pagliaccio (2012).
Uma das suas canções mais filosóficas é Canzone della bambina portoghese (parte do álbum Radici de 1972), uma reflexão penetrante sobre os limites do conhecimento, sobre a importância da dúvida e o sentimento do desconhecido, uma crítica a quem é prisioneiro de “verdades feitas de fórmulas vazias” e, com a pretensão de tudo saber, não alcança a compreensão do mundo. Vem simbolizar a intuição do infinito uma menina portuguesa, diante do oceano: “Não havia palavras, apenas ruídos como vozes surpreendidas, / apenas o mar e o seu primeiro biquíni amaranto, / as coisas mais bonitas e a alegria do calor na pele…”.
(Créditos de imagem: domínio público, https://it.wikipedia.org/w/index.php?curid=2828224)


