Lavo a cara com mãos de silêncio
A luz da manhã atira-me pedras
E os sonhos finalmente dormem.
Um livro limpa-me por dentro.
Agarro-me ao corrimão dos olhos
E conto as vezes de cada casa
A desconstruir o início de cada rua.
O espelho é um bolor com muros.
Em surdina recito o fulgor do recomeço.
Digo com força que construirei um barco
Um barco que leve um comboio lá dentro
Um barco já usado pelos relógios
Onde a saudade consiga pernoitar.
Escorro para o agora naquele crepúsculo
Que saliva madrugadas.
O tempo é uma argila que fumega.
Abraço-me neste hoje faminto que viaja.


