AS SÍLABAS MARGINAIS/Lavo a cara com mãos de silêncio/por NELSON FERRAZ

 

 

 

Lavo a cara com mãos de silêncio

A luz da manhã atira-me pedras

E os sonhos finalmente dormem.

 

Um livro limpa-me por dentro.

Agarro-me ao corrimão dos olhos

E conto as vezes de cada casa

A desconstruir o início de cada rua.

 

O espelho é um bolor com muros.

Em surdina recito o fulgor do recomeço.

 

Digo com força que construirei um barco

Um barco que leve um comboio lá dentro

Um barco já usado pelos relógios

Onde a saudade consiga pernoitar.

 

Escorro para o agora naquele crepúsculo

Que saliva madrugadas.

 

O tempo é uma argila que fumega.

Abraço-me neste hoje faminto que viaja.

 

 

 

 

 

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