A Estranha Arte de Nunca Estarmos Bem Onde Estamos
por Carlos Pereira Martins
Há uma coisa curiosa na espécie humana: parece ter sido concebida com uma pequena deficiência de fabrico — uma permanente dificuldade em estar satisfeita no lugar onde está.
O homem, esse animal que inventou a cadeira precisamente para se sentar – e não consta que tenha sido um alentejano, pois não amigo Mestre? – passa uma parte considerável da vida a levantar-se dela para ir ver qualquer coisa a centenas de quilómetros de distância. E, quando chega ao destino, depois de sete horas de automóvel, três cafés, duas paragens para necessidades fisiológicas e uma discussão conjugal sobre o caminho mais curto, olha para o acontecimento e diz, com ar triunfal:
— Valeu a pena!
É possível que valha. Mas também é possível que o mesmo fenómeno pudesse ter sido apreciado a partir de casa, com o conforto do sofá, uma manta nas pernas e o frigorífico a dois metros.
Tomemos o caso do eclipse.
A Lua tem aproximadamente 400 vezes menos diâmetro do que o Sol, mas encontra-se cerca de 400 vezes mais perto da Terra. É essa extraordinária coincidência geométrica que permite que, quando os três astros se alinham adequadamente, a Lua pareça cobrir quase exactamente o disco solar. Um acontecimento de enorme beleza e interesse científico.
Ora, o homem, em vez de se limitar a levantar os olhos para os ares, pode decidir que o eclipse verdadeiro só será verdadeiro se for visto a 700 quilómetros de sua casa.
E lá vai ele.
Setecentos quilómetros para um fenómeno que a Natureza, na sua generosidade, também colocou no céu da sua terra.
Não basta ver. É preciso ir ver.
E talvez seja aqui que começa a questão interessante.
Porque aquilo que parece simples insatisfação pode ser, afinal, uma característica profunda da nossa espécie: a necessidade de movimento, novidade, exploração e experiência directa.
O cérebro humano não evoluiu para ficar eternamente sentado no mesmo território a contemplar a paisagem. Os nossos antepassados tiveram de procurar água, alimento, abrigo, parceiros, novos territórios e, sobretudo, maneiras de não morrer. A curiosidade e a exploração foram, durante milhares de anos, comportamentos com enorme valor adaptativo.
O indivíduo que perguntava:
— E o que haverá para lá daquela montanha?
podia descobrir um vale fértil.
O que não perguntava talvez acabasse por morrer de fome exactamente onde estava.
A evolução, portanto, parece ter deixado dentro de nós uma espécie de funcionário público particularmente diligente, que passa a vida a dizer:
— E se fôssemos ali?
E nós vamos.
Hoje já não precisamos de atravessar montanhas para procurar caça, nem de percorrer continentes para encontrar água. Mas o mecanismo continua activo. Mudaram os perigos; ficou a inquietação.
Por isso, o adepto de futebol também não se contenta com a televisão.
Pode ter em casa uma televisão enorme, uma imagem em alta definição, repetição dos golos, comentários, estatísticas, câmaras de vários ângulos e até a possibilidade de rever uma jogada vinte vezes.
Mas o clube vai jogar a 500 quilómetros?
Ele vai também.
Porque há coisas que a tecnologia não consegue reproduzir: a presença, o apoio e calor humano !
O ruído do estádio, a multidão, o cheiro, o frio, o calor, a ansiedade colectiva, o momento em que milhares de pessoas se levantam ao mesmo tempo, o cântico que atravessa as bancadas e, sobretudo, a sensação absurda de que a nossa presença física pode influenciar o resultado.
Não pode, evidentemente.
Mas tente dizer isso a um adepto que percorreu seis horas de auto-estrada para gritar pelo seu clube.
— Se eu não estivesse aqui, isto não era a mesma coisa!
E talvez tenha razão.
Não porque o jogador marque melhor por saber que o senhor António, vindo de Bragança, está na bancada, Fila N, Lugar 17, mas porque participar num acontecimento é psicologicamente diferente de assistir ao mesmo.
A experiência directa envolve o corpo inteiro. A televisão fornece informação; a presença fornece experiência.
E o ser humano parece ter uma fome quase inesgotável de experiência.
Daí também a procissão.
Chove torrencialmente.
Há vento.
O chão está escorregadio.
O guarda-chuva virou-se ao contrário.
As meias estão molhadas.
A água entra pelo pescoço.
Uma senhora já está a tossir.
Um senhor sofre de reumatismo.
Outro diz que o calor lhe faz mal.
E, apesar de tudo isto, lá vão todos atrás do andor.
Se fizer 38 graus, também vão.
Se estiver um frio de rachar, vão.
Se houver previsão de tempestade, vão.
Depois, no dia seguinte, alguém comenta:
— Foi muito bonito, apesar do tempo.
Apesar do tempo?
Às vezes parece que o tempo é o único elemento que participa nestas actividades sem ter sido convidado.
E o mesmo acontece nas festas populares.
O português pode estar confortavelmente em casa, com os pés levantados e o ar condicionado ligado, quando ouve dizer:
— Há uma festa lá na aldeia.
Pronto.
Acabou-se o descanso.
É preciso ir.
E se estiver a chover, vai-se de impermeável.
Se estiver calor, leva-se água.
Se houver vento, segura-se o chapéu.
Se houver uma banda filarmónica, melhor ainda.
Porque, no fundo, não se trata apenas da festa. Trata-se de sair da toca.
A expressão pode parecer primitiva, mas talvez seja cientificamente bastante razoável.
Durante grande parte da nossa história evolutiva, ficar permanentemente encerrado num espaço seguro não era uma possibilidade normal. O movimento era vida. Explorar significava descobrir recursos, estabelecer relações, encontrar oportunidades.
Hoje, porém, conseguimos satisfazer quase todas as necessidades sem sair de casa.
Podemos trabalhar em casa.
Comprar em casa.
Comer em casa.
Conversar com pessoas que estão do outro lado do planeta sem sair da cadeira.
Ver futebol sem ir ao estádio.
Ver concertos sem estar na sala de espectáculos.
Ver eclipses através de transmissões em directo.
Podemos, em suma, transformar a casa numa espécie de planeta autónomo.
E, no entanto, continuamos a sair.
Talvez porque o conforto resolve necessidades, mas não resolve completamente a inquietação.
Há uma diferença fundamental entre estar confortável e estar vivo.
O conforto diz:
— Fica.
A curiosidade responde:
— Vai.
E o homem, criatura extraordinariamente sensata, costuma pagar uma portagem e seguir viagem.
Há ainda outro comportamento revelador: a necessidade quase compulsiva de fazer uma piada.
Encontramos alguém conhecido.
Não há qualquer necessidade de dizer coisa nenhuma.
Podíamos simplesmente cumprimentar:
— Bom dia!
Mas não.
É preciso acrescentar qualquer coisa.
Uma piada.
Um comentário.
Uma pequena provocação.
Às vezes com oportunidade.
Outras vezes sem nenhuma.
E há ocasiões em que a pessoa percebe perfeitamente que aquilo foi uma piada, mas não percebe por que razão foi feita naquele momento.
O autor, contudo, fica satisfeito.
Porque fez a piada.
O que prova que a insatisfação humana não se limita ao espaço físico. Também não conseguimos deixar uma situação simplesmente existir.
Temos de acrescentar qualquer coisa.
Uma opinião.
Uma explicação.
Uma fotografia.
Uma história.
Uma piada.
Um comentário sobre a história.
E, finalmente, um comentário sobre o comentário.
Talvez esta necessidade de acrescentar seja uma das manifestações mais interessantes da inteligência humana. O cérebro procura padrões, relações, significados. Não gosta muito do vazio. Quando encontra um acontecimento, procura imediatamente transformá-lo numa narrativa.
O eclipse não é apenas um eclipse.
É uma viagem.
O jogo não é apenas um jogo.
É uma peregrinação.
A procissão não é apenas uma procissão.
É uma prova de resistência meteorológica.
O encontro casual não é apenas um encontro.
É uma oportunidade para dizer uma coisa que provavelmente podia ter ficado por dizer.
E a vida, assim, vai sendo construída não apenas pelos acontecimentos, mas pela nossa necessidade de os viver mais intensamente do que a simples realidade parece permitir.
Talvez seja por isso que o homem seja estruturalmente insatisfeito.
Não necessariamente porque lhe falte alguma coisa, mas porque a satisfação absoluta seria, em certa medida, o fim da procura.
Se estivéssemos completamente satisfeitos, não partiríamos.
Não procuraríamos.
Não inventaríamos.
Não viajaríamos.
Não atravessaríamos o país para ver um eclipse.
Não faríamos centenas de quilómetros para ver onze homens correr atrás de uma bola.
Não sairíamos à chuva para acompanhar uma procissão.
Não iríamos a uma festa quando está um calor capaz de fritar um ovo no capô do automóvel.
E talvez nem faríamos aquela piada absolutamente desnecessária ao amigo que acabámos de encontrar.
Ficaríamos em casa.
Quietos.
Satisfeitos.
E, convenhamos, isso seria bastante preocupante.
Porque talvez a nossa grande doença não seja a insatisfação.
Talvez seja a incapacidade de ficar parados perante a vida.
Precisamos de partir para compreender que queríamos chegar.
Precisamos de ir longe para descobrir o valor do perto.
Precisamos, às vezes, de percorrer 700 quilómetros para perceber que o céu também estava por cima da nossa casa.
E precisamos de sair da nossa toca para descobrir uma coisa que a evolução parece ter sabido desde o princípio:
o mundo começa precisamente onde termina a nossa comodidade.
O problema é que, enquanto descobrimos isso, podemos apanhar uma constipação, uma insolação, uma dor nas costas, sete horas de trânsito e chegar a casa às três da manhã.
Mas chegamos felizes.
E, se alguém nos perguntar se valeu a pena, responderemos imediatamente:
— Claro que sim!
Depois acrescentaremos, inevitavelmente, uma piada.
Mesmo que ninguém a tenha pedido.

