Espuma dos dias — O deplorável extremismo dos ‘moderados’ . Por Norman Solomon

Seleção e tradução de Francisco Tavares

5 min de leitura

O deplorável extremismo dos ‘moderados’

 Por Norman Solomon

Publicado por  em 21 de agosto de 2026 (ver aqui)

Publicação original em  (ver aqui)

 

O New York Times aplica o rótulo tranquilizador de “moderado” àqueles que se alinham com um status quo brutal, tanto no país como no exterior, escreve Norman Solomon. O que há de moderado no genocídio?

 

O presidente dos EUA, Joe Biden, discursando sobre política externa e o trabalho de seu governo em janeiro de 2025. (Departamento de Estado, Chuck Kennedy)

 

Ultimamente, temos ouvido muitos alertas alarmistas depois de os eleitores das primárias democratas terem escolhido socialistas e outros de esquerda em vez de “moderados” em diversas eleições importantes. Os alarmes soaram ainda mais alto este mês, após a vitória do candidato progressista ao Senado por Michigan, Abdul El-Sayed, sobre a deputada Haley Stevens — que, segundo o The New York Times, era “a candidata moderada apoiada pelo establishment“.

Foto oficial de Stevens, 2018. (Phi Nguyen / Wikimedia Commons / Congresso dos Estados Unidos)

O rótulo tranquilizador de “moderado” é rotineiramente atribuído a candidatos como Stevens, que apoiam o constante fortalecimento de Israel. Ela “beneficiou de cerca de US$ 62 milhões em gastos com publicidade de meia dúzia de grupos externos”, observou o Times. “Mais da metade desse valor veio do super PAC do Comité de Assuntos Públicos Israel-Americano (AIPAC), o grupo pró-Israel mais influente do país.”

O que há de “moderado” em apoiar o genocídio?

Os políticos também são rotineiramente rotulados de “moderados” quando, na verdade, estão a dar cobertura à desigualdade extrema de rendimento e às graves injustiças no sistema de saúde — ajudando a bloquear opções políticas populares, como o aumento de impostos para os ricos o Medicare para Todos, o que conta com o apoio de três quartos dos democratas.

A base democrata está farta de um sistema que concede poder desproporcional aos ricos e às grandes corporações.

No mundo real, os chamados “moderados” estão alinhados com um status quo que continua a infligir sofrimento generalizado e mortes evitáveis, tanto no país como no estrangeiro.

A julgar pelo que dizem desgastados estrategas partidários como James Carville e Paul Begala, os candidatos de esquerda estão a enganar o eleitorado democrata. No início deste mês, Carville ameaçou deixar o partido. Begala ganhou as manchetes ao declarar: “Não gosto dos socialistas. Não os suporto.”

Mas, no mês passado, uma sondagem da CNN revelou que “cerca de um terço dos democratas e dos adultos com tendência democrata se identificam como socialistas democráticos”. Num momento em que derrotar o Partido Republicano fascista é imprescindível, qualquer estratégia que vise denegrir ou excluir esse grupo configura negligência política.

Tratar tantos eleitores democratas como intrusos que devem ser repreendidos pode até agradar aos doadores corporativos. Mas é uma tentativa vã de nadar contra a corrente política.

As sondagens mostram que quanto mais jovens os eleitores democratas, maior a probabilidade de serem favoráveis ao socialismo. “Os adultos mais jovens tendem a pertencer a grupos de esquerda, enquanto os adultos mais velhos tendem a agrupar.se em grupos mais conservadores”, observou o Pew Research Center.

Com base nos resultados da sua nova pesquisa de opinião pública, o Global Strategy Group acaba de divulgar que “os democratas socialistas tendem a ser mais jovens, com 57% deles na faixa etária de 18 a 44 anos”. Outra pesquisa, divulgada há um mês pelo Centro de Informação e Pesquisa da Universidade Tufts, constatou que dois terços dos jovens “afirmaram que as suas visões políticas mudaram de alguma forma nos últimos anos” — e “os jovens cujas visões mudaram tinham quase o dobro da probabilidade de se tornarem mais liberais/progressistas em vez de mais conservadores”.

Enquanto socialistas e outros grupos de esquerda prevalecem em muitas disputas eleitorais importantes, as críticas vindas de alguns membros da cúpula do Partido Democrata são ataques numa batalha perdida. Por definição, os jovens eleitores são o futuro do partido. As suas chances de vencer eleições diminuem na medida em que os eleitores mais jovens são levados a sentirem-se indesejados ou até mesmo vilipendiados.

Para muitos jovens eleitores democratas, o desprezo pela forma como votam vem de membros mais velhos do partido, desconectados da realidade, que tratam problemas cruciais como abstrações ou assuntos que merecem apenas atenção superficial. Milhões de americanos no início da vida adulta estão a enfrentar dificuldades financeiras com perspectivas sombrias para empregos e carreiras. As mensalidades universitárias são frequentemente proibitivas e as dívidas estudantis podem ser debilitantes. Alugueres e hipotecas são caros. As despesas do dia a dia são mais do que um desafio. A crise climática é real.

Tais realidades lançam uma sombra sobre o futuro. A última coisa que esses eleitores desejam é uma liderança arrogante que se recuse a compreender a pressão deste momento político.

 

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O autor: Norman Solomon [1951 – ], jornalista e ativista americano, é co-fundador do RootsAction.org e director executivo do Institute for Public Accuracy. Os seus livros incluem War Made Easy, Made Love, Got War e War Made Invisible (The New Press) e o novo livro The Blue Road to Trump Hell:How Corporate Democrats paved the Way for Autocracy. Vive na zona de São Francisco.

 

 

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