Seleção e tradução de Francisco Tavares
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O Cerco
Há 25 anos
Publicado por
Unpopular Front em 11 de Setembro de 2026 (original aqui)
Hoje é o 25º aniversário dos ataques de 11 de setembro ao World Trade Center, que foi o momento em que a minha infância terminou. Eu estava no meu segundo ano do ensino secundário. A minha escola ficava directamente do outro lado do East River, como as torres, e eu estava na aula quando o primeiro avião chocou. Eu não estava do lado do prédio de frente para Manhattan, mas ouvi um estrondo e um grito alto. Pensei que tivesse havido um acidente de carro lá fora, mas não compreendi o alvoroço das vozes. Acho que me perguntei em voz alta se era um motim. Um pouco mais tarde, o director do Liceu entrou na nossa sala de aula e fomos levados para a cave. Foi impossível contactar os meus pais durante algumas horas porque as torres dos telemóveis estavam sobrecarregadas, mas foi-me dada permissão para ir a casa do meu amigo Chris, em Brooklyn Heights, com alguns outros rapazes. Normalmente podia-se ver Manhattan desde a rua de Chris, mas nesse momento as torres haviam caído e a cidade estava totalmente obscurecida por cinzas e fumo. Em vez de vermos repetidamente as imagens das Torres a caírem, fomos até à loja de vídeo local e alugámos The Siege, um filme de 1998 sobre ataques terroristas islâmicos em Nova Iorque que resultaram no envio do exército e na suspensão das liberdades civis. Os árabes-americanos são presos e colocados em campos de detenção. No final, o oficial do FBI (Denzel Washington) salva o dia; ele enfrenta o coronel autoritário (Bruce Willis) e a Constituição é restaurada.
Acho que estávamos a tentar preparar-nos para o que poderia acontecer. Parecia que os filmes se tornavam realidade — havia uma série de filmes do final dos anos 90 e início dos anos 2000 mostrando a destruição de Nova York, até mesmo das próprias torres — então fazia sentido voltar ao cinema. A imagem da América e do seu lugar no mundo foi criado por Hollywood. Quando os meus pais finalmente me apanharam e voltámos para o nosso apartamento em Manhattan, assegurei-lhes que Osama bin Laden seria assassinado naquela mesma noite. Eu estava a pensar em filmes como Patriot Games ou Air Force One que retratam ataques de comando secretos fantasticamente competentes para capturar ou matar terroristas. Pergunto-me se a decisão de, eventualmente, realizar uma dessas incursões em vez de usar uma bomba ou um ataque de drone para matar bin Laden foi, pelo menos em parte, conforme a esta convenção cinematográfica.
Claro que isso não aconteceu naquela noite. Mas George W. Bush parecia um presidente de cinema, como Bill Pullman no Dia da Independência ou Harrison Ford. Ele estava a desempenhar o papel perfeitamente e foi reconfortante. Aos poucos demo-nos conta de que aquilo carecia de substância e ele estava numa situação que exigia mais capacidade do que ele tinha, controlado como estava por conselheiros insanos e malignos. Ele também não estava preparado para um país vulnerável: ele era um baby boomer [nascido logo após a II Guerra Mundial] da casta mais segura e privilegiada da sociedade americana. As pessoas dizem que a II Guerra Mundial acabou com a ascendência da WASP [do branco, anglo-saxão e protestante], mas talvez tenha sido realmente o 11 de Setembro. As grandes instituições da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria, como a CIA, fracassaram. O velho consenso diplomático desfez-se. Bush já era um membro da elite imitando um cowboy, mas depois disso prevaleceram diferentes formas de populismo de direita. As pessoas gostam de esquecer que as guerras eram muito populares no início. Mesmo os neoconservadores foram uma espécie de tentativa grosseira de reafirmar a Pax Americana apenas pela força. A Guerra ao Terror deveria ser a Segunda Guerra Mundial 2.0 e não a Terceira Guerra Mundial.
Muito se falou sobre o facto de eles serem judeus, mas, na verdade, os neoconservadores estavam a tentar criar a ideologia sucessora da hegemonia WASP — eles foram o Ralph Lauren (nascido Ralph Lifschitz, famoso estilista judeu) da classe governante. Bush, Cheney, Rumsfeld, Wolfowitz, toda a quadrilha eram operadores políticos astutos, respaldados por um patriotismo ingénuo e sentimental, que era o que os tornava tão perigosos.
Quando os planos para a guerra do Iraque se tornaram claros, todas as ilusões que eu tinha sobre a administração Bush acabaram. Penso que me ajudou ser ainda tão jovem, por isso fui impermeável às vozes liberais “sensatas” que se juntavam. Era obviamente idiota e uma mentira: Saddam não tinha nada a ver com o 11 de Setembro. As armas de destruição em massa eram um pretexto, se é que existiam. No final, não existiram. Mas era desconcertante que o país em geral fosse tão ignorante que pudesse ser convencido do contrário. Depois disso, nunca tive muita fé nas instituições. E nem ninguém mais.
O segundo golpe foi a crise financeira de 2008. Todos os responsáveis pareciam ou corruptos ou incompetentes. Então a porta ficou escancarada. Uma breve promessa de restauração americana com Obama. Não se pode desconsiderar inteiramente a possibilidade de que em algum lugar do inconsciente liberal branco ele tenha beneficiado de um tipo de personagem que Denzel Washington havia passado a década anterior aperfeiçoando: o homem negro decente, comandante e extraordinariamente competente que acaba sendo o mais forte defensor das instituições americanas — como em Crimson Tide (1995) e, sim, The Siege. Depois Trump, sempre alerta para os negócios, reconhece uma propriedade desvalorizada quando vê uma.
Temos de dar mérito a Bush por uma coisa: quando os ataques [de 11 de Setembro] aconteceram, ele foi à televisão e disse para não se culpar os muçulmanos em geral. Isso parecia civismo de bom senso na época, o tipo de coisa que é suposto que o presidente diga, mas agora o ódio é abertamente pregado pelos políticos americanos. Nem sequer fingem apoiar a unidade [nacional]. As pesquisas dizem que o nível de islamofobia é maior agora do que era logo após o 11 de Setembro. O cenário do filme The Siege, com a lei marcial e as pessoas a serem arrancadas das ruas por homens fortemente armados, parece hoje menos exagerado. Obviamente, as torres eram uma representação icónica do poder americano, o que as tornava um alvo. Mas eles eram especificamente o World Trade Center, um símbolo de abertura (e dominação) do resto do mundo. Desde então, parece que estamos a cair em nós próprios. Temos vindo a fechar-nos gradualmente ao mundo como se estivéssemos sob cerco. Mas, como no filme, é um cerco que impusemos a nós mesmos.
Quem sabe se alguma vez o veremos levantado.
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O autor: John Ganz é editor e escritor independente. Licenciado em História pela Universidade de Michigan e mestre em Belas-Artes pela Universidade de Columbia. É autor best-seller de When the Clock Broke: Con Men, Conspiracists, and How America Cracked Up in the Early 1990s do New York Times. Dirige o sítio Unpopular Front.


