Espuma dos dias — Na Bíblia de Milei faltam capítulos inteiros . Por Gabriel Levinas

Nota prévia:

Este artigo de Gabriel Levinas foi-me dado a conhecer por Thomas Palley, economista estado-unidense e doutor em Economia pela Universidade de Yale. Thomas Palley, apresenta assim o artigo de Levinas:

“O artigo seguinte intitulado “Na Bíblia de Milei faltam capítulos inteiros” foi escrito por Gabriel Levinas (irmão do meu amigo Salo Levinas) e foi publicado no jornal Perfil. É uma brilhante análise do fracasso ético de Javier Milei e dos seus perigosos métodos políticos corrosivos. Na minha opinião, aplica-se com igual força a Donald Trump”.

Faço minhas as palavras de Thomas Palley.

FT, 13/09/2026


Seleção e tradução de Francisco Tavares

5 min de leitura

Na Bíblia de Milei faltam capítulos inteiros

 Por Gabriel Levinas

Publicado por em 5 de Setembro de 2026 (original aqui)

 

O Presidente classificou o avanço do projeto Sea Lion como um “perigo concreto e urgente para a soberania argentina” / Notícias Argentinas

 

Conta a tradição que pediram a Hillel [1] que resumisse toda a Torá enquanto o seu interlocutor pudesse ficar de pé sobre um pé. Hillel respondeu: “o que é odioso para ti, não o faças ao teu próximo. Esta é toda a Torá; o resto é comentário. Vá e estude“.

O Rabi Akiva [2] dizia algo parecido:” Amarás o teu próximo como a ti mesmo ” era, para ele, o grande princípio da Torá.

Não parece muito complicado. O outro existe.

Vale a pena começar por aí para falar dos primeiros mil dias de Javier Milei. O Presidente frequentemente usa a Bíblia, a Torá e a tradição judaica para explicar a sua concepção de liberdade, economia e até ordem moral. Tem direito a isso. O estranho é que, depois de tanta Torá, ele tenha perdido precisamente o próximo.

Não um versículo marginal. É a questão central.

Milei encontra na tradição judaica a propriedade, a responsabilidade individual e a liberdade. Qualquer coisa que possa sentar-se confortavelmente para conversar com Mises, Hayek ou Rothbard aparece imediatamente. Custa um pouco mais encontrar na sua leitura o pobre, o estrangeiro, a viúva, o órfão, o endividado, as obrigações para com aqueles que têm menos e os limites impostos ao credor.

Não é preciso falsificar um livro para deturpá-lo.

Basta arrancar as páginas incómodas.

E talvez esse seja um dos mecanismos mais constantes do pensamento de Milei: escolher uma parte verdadeira e apresentá-la como se fosse o todo.

Com a economia acontece o mesmo.

A inflação caiu. Negá-lo seria fazer exatamente o mesmo que ele: escolher somente os dados que convêm.

Mas uma economia não é um índice.

Também são salários, pensões de aposentação, consumo, atividade, emprego, empresas que fecham, famílias endividadas e pessoas que usam o cartão de crédito não para comprar uma TV, mas para chegar ao dia 30.

 

Há uma economia que se anuncia e outra que se vive

Numa aparecem equilíbrio orçamental, investimentos, recuperação e prosperidade futura. No outro, pessoas comparando preços de macarrão no supermercado.

As duas podem existir ao mesmo tempo.

O problema surge quando uma pretende provar que a outra não existe.

Com a liberdade acontece algo ainda mais curioso.

Milei grita “Viva a liberdade, porra!” com frequência suficiente para que ninguém se esqueça do assunto. Mas cada vez que alguém exerce a liberdade de pensar diferente, começa o repertório.

Jornalistas, economistas, artistas, legisladores, governadores ou cidadãos convertem-se rapidamente em comunistas, socialistas, babuínos, subornados, degenerados fiscais ou integrantes de alguma casta ainda em processo de catalogação.

É uma liberdade muito generosa para pensar como Milei e muito menos hospitaleira quando se decide pensar sozinho.

E aí aparece algo que a investidura presidencial deveria resolver.

Milei não é presidente daqueles que votaram nele. É Presidente da nação.

Também daqueles que o detestam.

Aceitar esse cargo significa aceitar limites. Um presidente não se pode comportar como um utilizador exaltado de uma rede social, porque as suas palavras já não são somente suas. Ele representa o Estado.

Dizem que são questões de forma. Como se as formas presidenciais fossem uma questão de talheres. Não. Num presidente, as formas são parte do fundo.

Quando viaja ao Brasil e agride o presidente do país, a questão não é se Lula é simpático. Pode detestá-lo. Você pode excluí-lo do Whatsapp. Você pode nunca convidá-lo para jantar.

Mas o Brasil é um parceiro comercial central da Argentina.

A diplomacia foi inventada, entre outras coisas, para que os interesses de milhões de pessoas não dependessem das simpatias pessoais de dois senhores.

O mesmo acontece com a empatia.

Um presidente pode achar necessário um ajustamento. Pode sustentar que o sofrimento de hoje evitará um maior amanhã. Até pode estar certo.

O que não deve perder é a capacidade de perceber que há sofrimento.

Por trás de uma aposentação insuficiente, uma pensão, um salário deteriorado ou um emprego perdido existem pessoas.

Mais uma vez Hillel. Mais uma vez Akiva.

Outra vez o próximo que desaparece misteriosamente quando a Torá chega ao Ministério das Finanças.

E depois há o jornalismo. A ofensiva permanente contra “os jornalistas” não é simplesmente uma má relação com a imprensa. É muito mais útil do que isso. Se todos os jornalistas são subornados, vendidos, corruptos e mentirosos, então quando aparecer uma investigação incómoda já não será necessário desmenti-la. Basta desqualificar quem a publicou. É um sistema eficiente: o mensageiro é desacreditado antes que a mensagem chegue.

E assim se enfraquece um dos mecanismos mais importantes que tem uma sociedade para controlar o poder.

Também os conceitos e classificações políticas sofrem com este procedimento.

Para Milei, as diferenças históricas parecem muito menos importantes do que a utilidade do insulto. Um marxista, um social-semocrata europeu, um democrata norte-americano, um radical, um peronista ou um liberal moderado podem acabar, segundo o momento, dentro de uma mesma bolsa: comunistas.

Não importa se alguns defendem a propriedade privada, a economia de mercado e a democracia liberal, e outros propõem abolir o capitalismo. A precisão conceptual torna-se um luxo desnecessário.

 

É um sistema eficiente: desacredita-se o mensageiro antes que chegue a mensagem

A social-democracia e o Partido Democrata dos Estados Unidos podem ficar assim convertidos em variantes do comunismo com uma facilidade que teria surpreendido bastante Marx, Lenin e provavelmente também os próprios democratas norte-americanos.

Socialismo, comunismo, esquerda, coletivismo e casta acabam funcionando como palavras intercambiáveis para designar aquilo que incomoda.

Então as categorias políticas deixam de servir para entender. Servem tão comente para classificar inimigos.

Mil dias depois, talvez o problema mais interessante de Milei não esteja somente nos seus acertos ou nos seus erros. Está no método.

Uma verdadeira economia a que lhe faltam alguns números. Uma Torá verdadeira à qual lhe faltam algumas páginas. Uma liberdade verdadeira enquanto não for exercida pelo adversário. Uma classificação política verdadeira, desde que não se conheça muito de política.

Nem sempre é preciso mentir. Às vezes basta amputar a realidade e exibir o pedaço escolhido como se fosse o corpo inteiro. E depois gritar: Viva a liberdade, porra!

__________

Notas

[1] N.T. Hilel, o Ancião ou o Babilônico (60 a.C. – c. 9) líder protorrabínico, visto nas fontes rabínicas como sendo o pai fundador da casa de Hilel, viveu durante o reinado de Herodes, o Grande e foi uma figura central dos últimos tempos (período do Segundo Templo) (ver wikipedia aqui).

[2] N:T. O rabino Akiva ben Iosef, também chamado Akiva (C.50-c.135) foi um dos sábios tanaim que viveu no final do século I e início do século II e pertenceu à terceira geração dos sábios tanaim. O Rabi Akiva foi uma grande autoridade em matéria de Halakha, lei e tradição judaica. Rabi Akiva é um dos principais contribuintes para a elaboração da Mishná e Midrashim legais. É nomeado no Talmud como “Rosh Ha-Jajamim” (‘Cabeça de todos os sábios’). Embora faltem dados históricos independentes da tradição talmúdica, ele merece ser chamado de pai do judaísmo rabínico (wikipedia aqui).

 

__________

O autor: Gabriel Levinas [1951 -] é um jornalista argentino, artista plástico, galerista e fundador de revistas disruptivas como El Porteño” (1981-86) e “Cerdos & Peces” (1983). É director de plazademayo.com. Estudou artes visuais e fez parte do grupo artístico Manifesto. Ao longo da sua carreira, Levinas também se envolveu em investigações políticas e históricas de grande impacto social: Investigação da AMIA: Entre 1997 e 1998, liderou a equipa de investigação da Delegación de Asociaciones Israelitas Argentinas (DAIA) sobre o trágico atentado terrorista à sede da AMIA. Desta experiência resultou o seu livro “La ley bajo los escombros”; Doble agente (2015): É autor de uma polémica biografia não autorizada sobre o influente jornalista Horacio Verbitsky, na qual analisa e expõe as contradições da sua trajetória política e as suas ligações com o poder; Outras Obras: Publicou também títulos como “Al calor del monte”.

 

Leave a Reply