Nota prévia
Este artigo leva a uma outra pergunta para a qual não se conhece resposta: quanto custa a guerra com o Irão às populações do resto do mundo que não os estado-unidenses?
FT
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
6 min de leitura
Quanto custa a guerra com o Irão aos americanos?
Um cálculo correto deve levar em conta não apenas os custos militares.
Publicado por
em 31 de Agosto de 2026 (original aqui)

No início de março, ao falar com um grupo de parlamentares e doadores republicanos que se tinham reunido no seu clube de golfe em Doral, na Florida, Donald Trump descreveu a guerra contra o Irão, que havia iniciado algumas semanas antes, como uma “incursão de curto prazo” que terminaria “em breve”. Na última sexta-feira, o conflito completou seis meses. Embora os Estados Unidos e Israel já não estejam a bombardear alvos iranianos diariamente, cerca de cinquenta mil militares americanos continuam mobilizados na região; o Estreito de Ormuz está em grande parte fechado ao transporte comercial; um memorando de entendimento que os dois lados assinaram em junho expirou; e, segundo relatos, o governo Trump informou aos mediadores do Médio Oriente que não tem interesse em reativá-lo.
Sem um fim à vista, os custos da guerra de Trump estão a aumentar. Alguns deles não podem ser expressos em dólares e centavos. Segundo o Pentágono, dezoito militares americanos foram mortos e mais de setecentos e cinquenta ficaram feridos. O número de mortos iranianos chega aos milhares, incluindo mais de duzentas crianças, segundo estimativas da UNICEF e do governo iraniano. A guerra também se espalhou para outros países, provocando centenas de mortes adicionais — milhares, se incluirmos a ofensiva de Israel contra o Líbano.
Em princípio, é mais fácil estimar os custos económicos da guerra; na prática, porém, a tarefa está longe de ser simples. Mesmo que o cálculo se restrinja aos Estados Unidos, primeiro é preciso contabilizar os gastos militares com itens como munições, o deslocamento adicional de tropas e a reparação dos extensos danos que os contra-ataques iranianos causaram às bases americanas no Médio Oriente. Depois, há os custos financeiros que os preços mais altos da energia impuseram às famílias e às empresas americanas. Além disso, existem custos mais indiretos, como as consequências que os americanos sofreram na forma de inflação mais alta e aumento das taxas de juros. Somente reunindo todos estes fatores é possível estimar o custo total. Mas vamos começar pela conta dos gastos militares, que, em última instância, recairá sobre os contribuintes.
Um dos problemas para contabilizar esses valores é que o Pentágono tem sido pouco transparente em relação a muitos aspetos do conflito. Em julho, o secretário da Defesa, Pete Hegseth, disse à Comissão de Dotações do Senado que o conflito tinha custado aproximadamente 37,5 mil milhões de dólares, mas não forneceu muitos detalhes. Pouco antes da intervenção de Hegseth, a NBC News noticiou que as estimativas internas do Pentágono colocavam o verdadeiro custo, incluindo as despesas de reconstrução de bases militares, entre 80 mil milhões e 100 mil milhões de dólares. No início deste verão, a Casa Branca pediu ao Congresso mais 67,2 mil milhões de dólares para o Pentágono, e os republicanos da Câmara dos Representantes aprovaram um plano de despesas que incluía mais 73 mil milhões de dólares para a defesa e os serviços de informações. Espera-se que o Senado analise a medida quando regressar em meados de setembro.
Nas guerras aéreas, a maior despesa individual costuma ser frequentemente o armamento, e o mesmo acontece neste conflito. O Pentágono fez uso extensivo de mísseis de precisão, como os Tomahawk, que custam 2,6 milhões de dólares cada, segundo o Center for Strategic and International Studies (C.S.I.S.), e de sistemas avançados de defesa aérea, como as baterias de mísseis Patriot, que custam 4,9 milhões de dólares. Uma análise do C.S.I.S. sobre os custos da guerra, publicada no início deste verão, afirmou que o Pentágono utilizou mais de mil Tomahawks e até 1.400 Patriots, além de cerca de dez mil bombas não guiadas, as chamadas bombas “burras”. Este enorme consumo de munições representa 26,1 mil milhões de dólares de um custo militar total de aproximadamente 40 mil milhões de dólares, segundo a análise. O estudo identificou como segunda maior despesa os danos causados às bases dos EUA em locais como o Bahrein, o Catar, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, estimados em até 9,2 mil milhões de dólares. Embora o Pentágono tenha tentado minimizar a eficácia dos ataques do Irão, estes parecem ter destruído, total ou parcialmente, centenas de estruturas, incluindo hangares de aeronaves, depósitos de combustível, instalações de radar, armazéns e quartéis — provocando um golpe na infraestrutura militar dos EUA sem precedentes nos últimos tempos. “Seria preciso recuar até à Segunda Guerra Mundial para ver algo semelhante”, disse-me Mark Cancian, antigo coronel dos Marines e ex-responsável pelo orçamento da Casa Branca, que foi coautor do estudo do C.S.I.S. Quando o conflito terminar, prosseguiu Cancian, o Pentágono terá de ponderar seriamente se deve reconstruir ou abandonar as instalações danificadas, tendo em conta a sua vulnerabilidade a futuros ataques.
Algumas estimativas disponíveis online, que Cancian considerou pouco fiáveis, apontam para um custo militar superior a cem mil milhões de dólares. Seja qual for o valor real, trata-se de uma quantia considerável que se soma ao já inflacionado orçamento de um milhão de milhões de dólares do Pentágono, aprovado para 2026, e é dinheiro que, em teoria, poderia ser utilizado para outros fins. Tomemos como exemplo os setenta e três mil milhões de dólares em financiamento adicional aprovados pelos republicanos da Câmara dos Representantes. Os autores de uma análise publicada na semana passada pelo Center for American Progress (CAP), um grupo de reflexão liberal, salientaram que esse montante permitiria “garantir cobertura completa do Medicaid a mais 5 milhões de pessoas, com 33 mil milhões de dólares ainda disponíveis”. Esse dinheiro, por sua vez, poderia ser utilizado para aumentar substancialmente os benefícios do SNAP (anteriormente conhecido como *food stamps*) destinados a crianças de famílias pobres, bem como para duplicar o financiamento do National Park Service e da assistência de emergência para alimentação e alojamento, segundo os autores do CAP.
Em termos económicos mais amplos, o maior encargo provocado pela guerra tem sido o forte aumento dos preços da energia. Desde o final de fevereiro, o preço da gasolina subiu, em média, mais de um dólar por galão nos cinquenta estados — um aumento superior a um terço. E a gasolina não é o único combustível que ficou mais caro. O preço do gasóleo, que abastece os camiões que atravessam o país transportando todo o tipo de mercadorias, de diferentes dimensões, aumentou aproximadamente para o dobro. Segundo um indicador de custos energéticos mantido pelo Climate Solutions Lab da Watson School of International and Public Affairs da Brown University, se somarmos o aumento dos preços da gasolina e do gasóleo, o impacto financeiro sobre os americanos desde o início da guerra ronda os noventa e três mil milhões de dólares — mais de setecentos dólares por agregado familiar.
Esse não é o cálculo económico final. O preço do óleo de aquecimento subiu cerca de setenta por cento. O custo dos fertilizantes, que são em grande parte produzidos a partir de gás metano, cujo preço disparou depois do início da guerra, também aumentou acentuadamente, contribuindo para a subida dos preços dos alimentos. Dadas as complexas interligações entre os preços dos fatores de produção (como a energia e os fertilizantes) e os preços dos produtos finais (como os alimentos, os bens de consumo e as viagens aéreas), é difícil estimar em que medida a guerra fez subir o nível geral dos preços. Mas o facto permanece: desde fevereiro, a taxa de inflação subiu de 2,4 por cento para 3,4 por cento. As taxas de juro de mercado, que são influenciadas pela inflação e pelas expectativas de inflação, também aumentaram significativamente, elevando os custos das hipotecas, dos empréstimos para automóveis e de outros tipos de crédito ao consumidor.
Somando todas essas coisas, Mark Zandi, economista-chefe da Moody’s Analytics, estimou o custo total da guerra para uma família americana típica em mil dólares — um valor que ele descreveu como conservador. Isso foi no fim de junho. Mais recentemente, Zandi elevou a sua estimativa para mais de 1.200 dólares. Em vez de ser tomado como um número exato, esse valor deve ser entendido como uma estimativa aproximada que transmite a dimensão da insensatez de Trump. “A guerra está a ser extremamente cara”, disse-me Allison McManus, diretora-executiva de Segurança Nacional e Política Internacional do CAP. “Trump decidiu iniciá-la, e são os americanos que estão a pagar por isso.”
Até agora, o custo para Trump tem-se limitado, em grande medida, à queda nos índices de aprovação. Na semana passada, uma sondagem da Reuters/Ipsos colocou a sua taxa de aprovação em 33%, igualando o nível mais baixo registado por essa sondagem durante qualquer um dos seus dois mandatos, com apenas 25% dos entrevistados a aprovarem a sua condução da questão do Irão. Se não houver uma rutura no atual impasse da guerra entre agora e as eleições legislativas de meio de mandato de novembro, o presidente e o seu partido poderão acabar por pagar um preço político ainda maior. Mas os custos económicos do conflito não podem ser revertidos.
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O autor: John Cassidy [1963-] é jornalista do The New Yorker e colaborador frequente da New York Review of Books. Ele é o autor de How Markets Fail and Dot.con: How America Lost Its Mind and Money in the Internet Era and lives in New York City.


