Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime
Se não me encontrar num lugar, procure noutro,
Eu pararei em algum lugar à sua espera
“Song of Myself” de Walt Whitman
Parte II – A escrita manual e o desenvolvimento intelectual. Escrever é pensar, e pensar é o caminho para agir.
Escrever e ler são recíprocos. Ambos são necessários para que as crianças se tornem leitores e escritores fluentes
Autora anónima do sítio Learning for Life da plataforma Medium
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Nota de editor:
A ordem que se segue nesta Parte II respeita a progressão de dificuldade estabelecida pelo autor da série — N1, N2, N3 — com uma sequência interna a cada grupo pensada para maximizar a coerência de leitura: dos conceitos mais gerais para os mais específicos dentro de cada nível. O presente texto enquadra-se no Nível 1.
FT
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
3 min de leitura
Texto 5 – A inesperada conexão entre escrita à mão e aprender a ler
Publicado por
(original aqui)
Quando eu era criança, escrever significava uma de duas coisas: ou se escrevia à mão com caneta ou lápis, ou se carregava nas teclas de uma máquina de escrever. Era só isso. Os erros eram difíceis de corrigir e as revisões complicadas de fazer. Se alguém precisasse de mudar alguma coisa, tinha de apagar com cuidado (tentando não borrar ou rasgar o papel) ou usar corretivo líquido ou fita corretiva. E nunca ficava exatamente, no sentido formal, certo.
Para estudantes com diferenças de aprendizagem baseadas na linguagem, como a dislexia, isso causava muita frustração. A parte mecânica da escrita atrapalhava a expressão. Isso tornava-se uma grande fonte de ansiedade para as crianças.
Então surgiu a tecnologia de apoio à escrita. Hoje temos computadores com autocorreção, ditados por voz, previsão de palavras e muito mais. As crianças podem rever os seus trabalhos sem precisar de borracha ou fita corretiva. Ficou mais fácil para elas se expressarem.
Toda esta tecnologia também levou a outra coisa: menos foco na caligrafia. E isso tem um impacto inesperado na linguagem e na literacia. Menos prática de escrita à mão pode tornar mais difícil para as crianças aprenderem a ler.
Todos aprendem melhor quando a informação é apresentada de múltiplas formas. Isso é especialmente verdadeiro para crianças com diferenças de aprendizagem e de raciocínio. Chamamos isso de aprendizagem multissensorial.
A escrita à mão é uma atividade multissensorial. À medida que se forma cada letra, a nossa mão compartilha informações com as áreas de processamento de linguagem no seu cérebro. Conforme os nossos olhos acompanham o que se está a escrever, nós estimulamos essas áreas. O mesmo acontece se nós dissermos os sons das letras e as palavras enquanto escrevemos.
As pesquisas mostram que existe algo especial na relação entre o desenvolvimento da linguagem e o ato de escrever à mão. Em estudos feitos, as crianças que praticam caligrafia apresentam melhor desempenho na leitura e na ortografia. O motivo? Alguns especialistas acreditam que formar letras à mão enquanto se aprende os sons ativa circuitos de leitura no cérebro que promovem a literacia.
A digitalização num computador, por outro lado, não demonstrou melhorias na leitura. Sim, o uso do teclado pode ser uma salvação e um alívio para crianças com dificuldades de escrita. Ele permite que elas se expressem e tenham mais sucesso na escola. Mas não é um substituto para a instrução e a prática da caligrafia, especialmente nos anos iniciais de escola.
Não creio que o desafio para professores e pais seja decidir se “a caligrafia é importante”. Ela é importante e será sempre importante. O desafio é encontrar a abordagem correta para crianças que têm dificuldades com a escrita.
Muitas crianças sentem um desconforto físico real ao segurar um lápis. Elas queixam-se de dores nos dedos ou no braço, ou de que a mão fica cansada. A sensação de segurar o lápis pode ser uma distração. E há o desgaste emocional quando se pergunta repetidamente à criança “O que é que está escrito aqui?” sobre as letras e palavras que ela desenhou. Diante de tudo isso, é tentador abandonar as canetas e lápis e utilizar apenas teclados ou ditado.
Em Reader, Come Home: The Reading Brain in a Digital World, Maryanne Wolf discute como é que a tecnologia nos levou a “passar os olhos” (fazer leitura dinâmica) em vez de ler lenta e cuidadosamente. Ela fala sobre os benefícios da “paciência cognitiva” e lembra-nos que ler rápido não é o que torna alguém um bom leitor.
Acredito que algo semelhante se aplica à escrita à mão.
Só porque digitar é mais rápido, não significa que seja melhor. Sim, os alunos com dislexia e outras dificuldades de aprendizagem podem conseguir escrever com mais facilidade num computador do que à mão. Mas isso não significa que abandonemos a caligrafia.
A minha ideia é: vamos dar aos nossos filhos todas as oportunidades para prosperarem como leitores e como gente que aprendeu a escrever manualmente. Eles podem usar ecrãs, dispositivos e todo o outro tipo de tecnologias. Mas vamos também manter-nos a utilizar canetas e lápis à mão. Fazer o trabalho lento e, muitas vezes, difícil de praticar a escrita à mão pode ajudar as crianças a tornarem-se melhores leitores e com escrita fluente.
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O autor: Sheldon H. Horowitz é director sénior de recursos de aprendizagem e investigação do Centro Nacional para Dificuldades de Aprendizagem (NCLD). Co-autor do State of Learning Disabilities 2014 da NCLD, Horowitz trabalha em estreita colaboração com os membros do Conselho Consultivo profissional da organização e forneceu liderança e experiência para muitos dos principais projetos da NCLD, incluindo cúpulas nacionais, a criação de uma ferramenta de triagem de aprendizagem precoce e alfabetização, uma escala de observação e classificação de aprendizagem precoce e conteúdo para pais de alunos em risco sobre a transição para o jardim de infância. Antes de ingressar no NCLD, Horowitz dirigiu programas de Avaliação e tratamento baseados em hospitais em Psiquiatria e Pediatria do desenvolvimento e lecionou nos níveis primário, secundário e universitário. Os seus interesses profissionais incluem a neurobiologia da aprendizagem, a transição pós-secundária e as dificuldades de aprendizagem no local de trabalho. Membro de longa data do National Joint Committee on Learning Disabilities, Horowitz obteve um mestrado no Peabody College, Vanderbilt University, com concentração de cursos em Avaliação Educacional, e seu doutoramento no Teachers College, Columbia University.


