Hoje, vou ao Jardim da Celeste! – por Carlos Pereira Martins

Hoje, vou ao Jardim da Celeste!

por Carlos Pereira Martins

 

Hoje, não me surgiu de imediato um tema  para escrever o meu texto habitual.
Depois de pensar um pouco, entendi que deveria ser bom e até saboroso, ir ao Jardim da Celeste!

Há canções que envelhecem; outras, porém, recusam-se terminantemente a fazê-lo. Algumas porque possuem uma melodia imortal; outras porque contam, com uma simplicidade quase agrícola, histórias que a humanidade continua a praticar com notável dedicação. É o caso daquela velha cantiga popular em que um indivíduo, de nome não mencionado — porque o verdadeiro protagonista nunca é o homem — resolve ir ao jardim da Celeste.

Ora, qualquer pessoa com alguma experiência de vida sabe que não se vai ao jardim de uma Celeste sem consequências.

Comecemos pelo princípio. O homem declara:

— Fui ao jardim da Celeste…

Até aqui, nada de extraordinário. Podia ir apanhar flores, cortar uma rosa, ver se as couves tinham pegado ou pedir emprestada uma enxada. Mas não. A tradição popular portuguesa, que em matéria de inocência nunca foi particularmente ingénua, imediatamente nos deixa desconfiados de que naquele jardim havia mais mistério do que no gabinete de um ministro.

O homem entra. A Celeste aparece. E o resto é uma sucessão de acontecimentos que confirma uma das leis mais antigas da vida portuguesa: quando um homem se mete onde não é chamado, acaba sempre por trazer uma história para a taberna e uma nódoa para a reputação.

A canção, na sua versão tradicional, vai apresentando sucessivas situações, perguntas, respostas e desencontros, num crescendo de aparente inocência que, como quase tudo o que é verdadeiramente perigoso, começa por parecer absolutamente inofensivo.

Porque as grandes complicações da humanidade raramente começam com uma sirene.

Começam, geralmente, com frases como:

— Ó senhor, não quer entrar?

E o senhor, que tinha jurado à mulher que só ia comprar pão, responde:

— Já que insiste…

E é precisamente nesse «já que insiste» que começa a ruína das civilizações.

O pobre do visitante do jardim da Celeste parece ser homem de boa vontade, o que é muitas vezes uma característica muito próxima da estupidez. Não se percebe exactamente o que pretendia, mas percebe-se perfeitamente que não conseguiu sair tão depressa quanto entrou.

E há aqui uma diferença fundamental.

Entrar num jardim é fácil.

Sair de um jardim onde está uma Celeste é que pode exigir advogado, padre, testemunhas e, em casos extremos, mudança de freguesia.

Imagine-se a cena nos tempos modernos.

O homem chega:

— Boa tarde, Celeste. Posso entrar no jardim?

A Celeste responde:

— Claro que pode.

Ele entra.

Cinco minutos depois já recebeu uma mensagem da mulher:

«Onde estás?»

O homem responde:

«No jardim.»

Segue-se imediatamente:

«No jardim de quem?»

E pronto.

A partir desse instante, o jardim deixa de ser um espaço botânico e transforma-se num processo judicial.

Antigamente, porém, as coisas resolviam-se de maneira mais simples. O povo não tinha psicólogos, terapeutas conjugais, linhas de apoio emocional nem especialistas em comunicação não violenta. Tinha vizinhas.

E uma vizinha, convenientemente colocada à janela, era capaz de resolver um caso amoroso em três minutos e destruí-lo para sempre em mais dois.

— Vi-o entrar.

— Quem?

— O homem.

— Qual homem?

— Aquele que não devia.

Esta frase, «aquele que não devia», produzia antigamente mais tragédias do que uma epidemia de gafanhotos.

Depois havia a questão da reputação. Nas aldeias, ninguém sabia muito bem o que se passava, mas todos sabiam mais do que os interessados. Se um homem fosse ao jardim da Celeste, no dia seguinte já toda a terra garantia que tinha lá passado a noite, vendido a horta, pedido a Celeste em casamento e deixado três filhos.

O próprio homem, quando regressava a casa, ainda com a enxada na mão, era capaz de perguntar:

— Mas o que é que aconteceu?

— Ora, não te armes em parvo! — respondia a mulher. — A aldeia inteira sabe muito bem !

A aldeia inteira sabia sempre.

A aldeia era, antes da internet, a internet com avental.

Não havia Google, mas havia a senhora Maria da Fonte.

Não havia Facebook, mas havia o banco à porta da mercearia.

Não havia WhatsApp, mas havia a vizinha que dizia:

— Não fui eu que contei, mas ouvi dizer…

Esta expressão continua a ser uma das maiores invenções da irresponsabilidade humana.

«Não fui eu que contei» significava, normalmente, que fora precisamente ela quem contara a toda a gente.

E depois havia a Celeste.

Ah, a Celeste!

Porque ninguém escreveu uma canção sobre o jardim da Conceição sem que a Conceição tivesse uma importância decisiva. A Celeste, pela simples circunstância de possuir um jardim, adquiriu uma posição histórica na cultura popular portuguesa que muitas proprietárias de herdades jamais conseguiram alcançar.

Ela tinha um jardim.

Isso bastou.

Não sabemos se era grande ou pequeno, se tinha rosas, cravos, couves, tomates, dela ou se lhos levavam de fora,  ou uma laranjeira. Não sabemos sequer se era verdadeiramente dela. Mas era o jardim da Celeste.

E isso conferia-lhe uma espécie de poder territorial.

Ali mandava ela.

O homem podia ser presidente da Junta, comandante dos bombeiros, tesoureiro da colectividade e campeão de sueca, mas ao atravessar o portão tornava-se imediatamente apenas:

o homem que tinha ido ao jardim da Celeste.

É talvez por isso que a canção continua a divertir.

Porque todos conhecemos uma Celeste.

Talvez não se chame Celeste. Pode chamar-se Maria, Emília, Carminda, Fátima, Conceição ou, modernamente, Vanessa , melhor, Cátia Vanessa.

Mas existe sempre alguém cujo território é perigoso frequentar.

E existe sempre um homem — geralmente convencido de que é muito esperto — que afirma:

— Eu? Eu sei muito bem o que estou a fazer.

É precisamente nessa altura que se percebe que não sabe absolutamente nada.

A sabedoria popular nunca precisou de grandes tratados de sociologia para explicar estas coisas. Bastou-lhe uma cantiga.

A letra, divertida e aparentemente simples, contém uma tese inteira sobre a condição humana: o ser humano adora meter-se em situações complicadas e, quando finalmente percebe a complicação, já está no jardim, o portão fechou-se e há uma Celeste a olhar para ele.

Podemos rir-nos, evidentemente, do pobre visitante.

Mas a verdade é que todos nós, em determinado momento da vida, fomos ao jardim da Celeste.

Cada um tem a sua Celeste.

Pode ser uma pessoa.

Pode ser uma ideia.

Pode ser um negócio maravilhoso.

Pode ser uma dieta que começa numa segunda-feira.

Pode ser aquele automóvel usado que «está impecável».

Pode ser o amigo que diz:

— Tenho uma coisa para te propor.

E lá vamos nós.

Entramos no jardim.

Cinco minutos depois, já estamos a olhar para a nossa vida e a perguntar:

— Mas quem é que me mandou vir aqui?

Ninguém.

Foi-se porque se quis.

Tal como o outro.

Foi ao jardim da Celeste.

E esta é, afinal, a grande moral da canção: o problema raramente é o jardim. O problema é que nós, portugueses, ouvimos a palavra «Celeste», vemos um portão entreaberto e perdemos imediatamente o juízo.

Depois, quando a coisa corre mal, culpamos o destino.

— Ah, a vida!

Não, meu amigo.

A vida não teve culpa.

A vida estava sossegada.

Quem foi ao jardim da Celeste foi você.

E, conhecendo os portugueses, se lhe perguntarem amanhã:

— Então, já aprendeste?

Provavelmente responderá:

— Aprendi, aprendi.

E no dia seguinte…

…vai outra vez ao jardim.

Mas desta vez, diz, só para ver as flores.

 

 

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