O tempo, o fundo do mar e outras maneiras de não envelhecer, rumo é eternidade!
por Carlos Pereira Martins
É muito comum ouvir dizer que a vida passa depressa. «A vida é um sopro», dizem uns. «Passa num abrir e fechar de olhos», dizem outros. Há ainda quem, com maior realismo e menos poesia, prefira dizer que passa num abrir e esfregar de olhos, sobretudo quando já se começa a precisar de esfregar os olhos para ver o que se abriu.
Perante esta evidência, as reacções humanas dividem-se.
Há os desiludidos, que acham que a vida lhes ficou curta, como se tivessem comprado uma viagem de três semanas e recebido apenas um bilhete de ida. Há os felizes, que, apesar dos poucos anos vividos, entendem ter conseguido tirar deles uma boa colheita de afectos, amizades, amores, filhos, netos, viagens, livros, conversas, paisagens e algumas asneiras — estas últimas, quase sempre, também indispensáveis à formação da personalidade.
E há os que não estão nem para cá nem para lá. Vivem. Nem fazem grande alarde da coisa, nem se queixam particularmente. Se lhes perguntarmos se são felizes, pensam um pouco, olham para o relógio e respondem:
— Mais ou menos.
Foi precisamente esta última categoria, acompanhada por alguns desiludidos e bastantes optimistas, que acabou por dar origem a um projecto científico de proporções pouco recomendáveis para uma espécie que ainda não conseguira resolver convenientemente os problemas da segunda-feira de manhã.
Durante décadas, cientistas de várias especialidades estudaram uma hipótese extraordinária: seria possível retardar os efeitos do envelhecimento através da permanência prolongada nas grandes profundidades oceânicas?
A investigação foi levada muito a sério. Estudaram-se a pressão, a temperatura, a ausência de luz, os ritmos biológicos, a actividade celular, o metabolismo e uma quantidade impressionante de outras coisas que os cientistas estudam quando ainda não sabem muito bem onde aquilo vai dar.
Até que chegaram a uma conclusão surpreendente.
Nas profundezas, longe da agitação da superfície, o organismo parecia envelhecer muito mais lentamente.
A notícia espalhou-se.
E, como sempre acontece quando aparece uma solução científica para um problema humano, imediatamente apareceu alguém disposto a experimentá-la.
Construíram, então, um enorme submarino.
Convém esclarecer, desde já, que não levava ogivas nucleares.
Era apenas um submarino científico, embora tão grande que, quando alguém dizia «vamos descer», era preciso esclarecer se estava a falar de um andar, de um convés ou de uma profundidade oceânica.
O projecto recebeu um nome pomposo, como todos os grandes projectos científicos costumam receber, mas depressa ficou conhecido simplesmente por o Grande Submarino.
Partiram.
O destino eram as profundezas dos oceanos, onde esperavam encontrar novas formas de vida, novos conhecimentos e, quem sabe, qualquer vestígio das aventuras do célebre Capitão Nemo. Não seria impossível que, algures por aquelas regiões, ainda existisse uma porta enferrujada do Nautilus ou, pelo menos, uma placa a dizer:
«Capitão Nemo — ausente por tempo indeterminado.»
Desceram.
E desceram.
E continuaram a descer.
Quando chegaram a uma profundidade em que a luz do Sol já era apenas uma recordação administrativa, instalaram-se.
O submarino era auto-sustentável em energia, alimentação, água e tudo o que fosse necessário à sobrevivência. Produzia os seus próprios alimentos, reciclava os resíduos, cultivava plantas, criava ambientes habitáveis e dispunha de laboratórios, bibliotecas, salas de música, ginásios, oficinas, cozinhas e até espaços para discutir política — porque nenhuma civilização humana, por mais avançada que seja, consegue escapar completamente à necessidade de discutir política.
Os primeiros anos passaram.
Depois passaram décadas.
E aconteceu uma coisa extraordinária.
Os habitantes envelheciam muito pouco.
Cresciam, aprendiam, apaixonavam-se, casavam, separavam-se, faziam amizades, zangavam-se, reconciliavam-se, inventavam coisas, escreviam livros, cultivavam tomates e, sobretudo, continuavam a fazer perguntas.
Alguns casaram mais do que uma vez.
Outros descobriram que, mesmo a vários milhares de metros de profundidade, há sempre alguém que deixa a toalha molhada em cima da cadeira.
A experiência foi considerada um êxito absoluto.
Por isso, algumas décadas depois, desceu outro submarino.
Cinquenta anos mais tarde, desceram mais alguns.
E assim se foi formando, nas profundezas dos oceanos, uma verdadeira sociedade humana.
Já não eram passageiros.
Eram habitantes.
Tinham escolas, laboratórios, jardins, bibliotecas, teatros, salas de convívio, arquivos históricos e uma coisa absolutamente essencial: serões.
Porque a ciência pode transformar quase tudo, menos a necessidade humana de contar histórias.
E os serões eram magníficos.
Ali se reuniam pessoas vindas de lugares muito diferentes da superfície terrestre. Pessoas que tinham nascido em países, cidades, aldeias e ilhas espalhadas pelo planeta e que agora, séculos depois, viviam lado a lado a uma profundidade em que nenhum deles precisava de levar guarda-chuva.
Cada um contava como tinha sido a sua terra.
E contava também aquilo de que não tinha gostado.
Havia quem falasse de Lisboa, das suas colinas, do Tejo, dos eléctricos e da luz que parece ter sido inventada para fotografar a cidade.
Outro recordava o Porto, o Douro, a Ribeira, a chuva e aquela extraordinária capacidade dos portuenses para explicar ao resto do país como se faz correctamente quase tudo.
Falava-se da vida marítima portuguesa, das praias, dos pescadores, das marés, das manhãs junto ao Atlântico e da particular paisagem da Costa da Caparica, incluindo a zona próxima do Convento dos Capuchos, onde a proximidade entre o rural, o urbano e o mar sempre produziu uma combinação muito portuguesa: alguém vai à praia, outro vai tratar da horta e outro vai simplesmente ver o que se passa.
Um dos habitantes, originário da região de Viseu, demorou várias noites a explicar o que significava a ruralidade beirã junto de uma cidade.
Falou das quintas, das aldeias, das árvores, dos animais, das vindimas, das festas, das conversas demoradas e daquela relação muito particular entre a cidade e o campo, em que muitas vezes não se sabe muito bem onde acaba uma coisa e começa a outra.
Outro recordou os Açores.
E foi aí que apareceram os Bailinhos de Carnaval, o que provocou enorme perplexidade entre os habitantes que nunca tinham ouvido falar de semelhante manifestação.
Durante três serões discutiram se eram pessoas, personagens, animais mitológicos ou uma invenção açoriana destinada a provar que o Carnaval pode ser simultaneamente alegre, estranho e perfeitamente legítimo.
A Baviera também teve o seu momento de glória.
Um habitante de Munique explicou a Oktoberfest, as cervejarias, as músicas, os trajes tradicionais e a impressionante capacidade humana para reunir milhares de pessoas num mesmo espaço com o objectivo científico de beber cerveja e cantar.
Os portugueses ficaram particularmente interessados.
Mas não ficaram convencidos de que fosse ciência.
Do Brasil chegaram histórias do Carnaval do Rio, da Copacabana cheia de gente, do samba, do calor, da música e daquela exuberância que fazia parecer modestos todos os restantes carnavais do planeta.
Houve ainda relatos sobre Veneza e os seus canais; Paris e os seus cafés; Londres e a pontualidade dos transportes, quando funcionavam; Nova Iorque e a velocidade das suas ruas; Praga, onde a arquitectura parecia ter decidido nunca envelhecer; a Índia, com as suas cores, cheiros, multidões e uma diversidade que tornava qualquer tentativa de a resumir numa conversa de dez minutos uma verdadeira imprudência.
Falou-se da China, das suas cidades imensas e da sua transformação vertiginosa.
Falou-se de África, dos seus desertos, savanas, florestas e cidades.
Falou-se do Canadá, da neve e do espaço.
Falou-se do Mediterrâneo, das ilhas gregas, da Sicília, de Marrocos, da Andaluzia.
Falou-se de fado, de jazz, de rock, de ópera, de música popular e de canções que ninguém conseguia explicar por que razão ainda emocionavam pessoas nascidas duzentos anos depois de terem sido compostas.
E falou-se também dos aspectos menos agradáveis.
Porque ninguém viveu num lugar perfeito.
Um português recordou as filas nos serviços públicos, outro falou da burocracia, outro da falta de transportes ferroviários, outro dos incêndios, outro das desigualdades.
Um francês falou das greves.
Um alemão falou da obsessão pelos horários.
Um inglês falou do tempo.
Um italiano falou da burocracia.
Um espanhol falou da burocracia.
E, depois de uma longa discussão, descobriram que a burocracia era provavelmente o único património verdadeiramente universal da humanidade.
Também houve relatos sobre trânsito, guerras, pobreza, corrupção, solidão, discriminação, desigualdade, poluição, fanatismos religiosos e políticos, governos que prometiam muito e faziam pouco, e cidadãos que exigiam muito dos governos enquanto estacionavam em segunda fila para ir comprar pão.
Tudo isso pertencia à antiga Terra.
Nas profundezas, as coisas eram diferentes.
Ali não havia engarrafamentos.
Não havia aviões atrasados.
Não havia vizinhos a fazer obras às oito da manhã.
Não havia publicidade a interromper o jantar.
E, sobretudo, ninguém dizia:
— Tenho de ir andando porque amanhã trabalho.
Havia apenas um pequeno inconveniente.
Tinham deixado de saber exactamente em que dia estavam.
O calendário continuava a existir, por respeito à tradição, mas já ninguém lhe atribuía grande importância.
E, ao fim de alguns séculos, começaram a surgir situações curiosas.
Uma mulher perguntou:
— Quantos anos tens?
O homem respondeu:
— Não sei exactamente. Talvez trezentos e vinte.
— Talvez?
— É que deixei de contar quando fiz cento e cinquenta.
Outro dizia ter quatrocentos e sete, mas admitia que podia haver um erro de três ou quatro anos.
Uma senhora afirmava:
— Tenho a idade que tinha quando desci.
— E quando foi isso?
— Não faço ideia. Foi há muito tempo.
A ciência tinha conseguido algo extraordinário: o tempo continuava a passar, mas o corpo parecia ter decidido não lhe dar muita importância.
A humanidade não se tornara imortal.
Mas tinha descoberto uma forma de negociar com o envelhecimento.
E, enquanto alguns seres humanos procuravam a longevidade nas profundezas dos oceanos, outros começaram a procurá-la no espaço.
Vieram as primeiras colónias lunares.
Depois Marte.
Depois estações habitacionais espalhadas pelo sistema solar.
Mais tarde, quando a tecnologia permitiu, começaram as viagens para além dele.
A espécie humana, que durante milhares de anos se limitara a nascer, viver e morrer num pequeno planeta azul, começava finalmente a fazer aquilo que sempre fizera quando não sabia onde pôr os pés:
procurar outro lugar.
Primeiro procurou-o na Terra.
Depois debaixo da Terra.
Depois debaixo do mar.
Depois no céu.
E finalmente no Universo.
A ciência não tornou a espécie humana imortal.
Mas fez uma coisa talvez ainda mais extraordinária: alargou brutalmente o espaço onde a vida humana pode continuar.
Aqueles que antes diziam que a vida era curta passaram a ter séculos.
Os que achavam que o mundo era pequeno passaram a viver em mundos diferentes.
E os que julgavam que o destino da humanidade estava inevitavelmente preso à superfície da Terra descobriram que talvez estivéssemos apenas no princípio.
No fundo do oceano, os habitantes dos submarinos continuavam os seus serões.
Às vezes, alguém perguntava:
— Acham que ainda existe vida na superfície?
Outro respondia:
— Certamente.
— E como será?
Seguia-se um longo silêncio.
Até que alguém, normalmente um português, dizia:
— Deve estar tudo na mesma. Provavelmente ainda há quem diga que a vida passa depressa.
E todos se riam.
Porque, afinal, tinham passado séculos.
E ninguém tinha conseguido resolver a questão mais antiga de todas:
o que fazer com o tempo que nos foi dado.
Talvez a resposta estivesse justamente aí.
Não em viver para sempre.
Mas em viver o suficiente para perceber que a vida nunca foi verdadeiramente medida pelos anos que passam.
Foi medida por aquilo que conseguimos colocar dentro deles.
Uma amizade.
Uma conversa.
Uma viagem.
Um amor.
Uma paisagem.
Uma gargalhada.
Uma memória.
Um filho.
Um neto.
Uma canção.
Um serão.
E, quem sabe, uma descida ao fundo do mar.
Ou uma viagem às estrelas.
Porque, ao ritmo a que a ciência avança, já ninguém pode garantir que o futuro da humanidade esteja apenas à superfície.
Talvez um dia estejamos a viver simultaneamente em submarinos, em estações espaciais, na Lua, noutro Planeta e, sabe-se lá, onde mais.
E talvez, daqui a alguns séculos, um velho habitante de qualquer planeta remoto pergunte:
— Afinal, quanto tempo dura uma vida humana?
E alguém lhe responda:
— Depende.
— Depende de quê?
— Daquilo que fazemos com ela.
E, depois de uma pequena pausa, acrescentará:
— Mas não te preocupes. Temos tempo.
A ver vamos!

