PUTIN E XI JINPING: O QUE OS APROXIMA? – por Carlos Pereira Martins

PUTIN E XI JINPING: O QUE OS APROXIMA?

por Carlos Pereira Martins

 

Comecei a escrever com todo o esforço para não deixar transparecer influenciar o texto e análise com as minhas opções ideológicas. Sei que é impossível. Pelo menos, minimizarei, com o esforço .

Putin e Xi Jinping são, à partida, dirigentes de dois países com histórias, dimensões, economias e interesses muito diferentes. A aproximação entre ambos não resulta, portanto, de uma identidade ideológica perfeita, mas de uma convergência de interesses estratégicos que se foi aprofundando ao longo dos últimos anos. Em Agosto de 2026, Xi voltou a afirmar que a base das relações sino-russas continuaria a fortalecer-se.

PUTIN E XI JINPING: O QUE OS APROXIMA?

Putin e Xi Jinping não precisam pensar exatamente da mesma forma para perceber que, em certos assuntos, têm vantagens em caminhar lado a lado. A relação entre Rússia e China é, antes de tudo, uma relação de  interesses : econômicos, estratégicos, energéticos, militares e diplomáticos.

Um dos pontos de aproximação mais evidentes é a ideia de que o mundo não deverá ficar organizado à volta de uma única grande potência. Moscou e Pequim defendem uma ordem internacional mais  multipolar , na qual diferentes centros de poder tenham maior capacidade de decisão. Essa visão aparece explicitamente nos documentos bilaterais e nas declarações dos dois governos.

Há depois uma questão económica muito concreta. A China necessita de energia, matérias-primas e determinados recursos que a Rússia possui em abundância; a Rússia, por seu lado, encontrou na China um enorme mercado para os seus produtos energéticos e uma importante fonte de bens industriais e tecnológicos. O comércio de gás tornou-se particularmente relevante: entre 2021 e 2024, aumentou significativamente o peso da Rússia nas importações chinesas de gás natural canalizado.

Mas aqui aparece uma nuance importante: aproximação não significa dependência igual dos dois lados. A economia chinesa é muito maior e mais diversificada do que a russa. Pequim pode comprar energia russa, mas procura simultaneamente manter outras fontes de abastecimento. E algumas grandes iniciativas energéticas continuam sujeitas a negociações difíceis sobre preços, custos e segurança energética.

Existe também uma dimensão de segurança e defesa. Rússia e China realizam exercícios militares conjuntos e mantêm uma cooperação militar significativa. A Rússia forneceu durante décadas tecnologia e armamento à China, embora esta componente tenha perdido alguma importância à medida que a China desenvolveu a sua própria indústria de defesa. Os dois países, contudo, continuam a utilizar a cooperação militar como instrumento de relacionamento estratégico e de demonstração de capacidade.

Outro elemento que os aproxima é uma preocupação comum com a soberania nacional e a não-interferência externa. Moscovo e Pequim dão grande importância ao princípio de que cada Estado deve determinar o seu próprio caminho político e de segurança. Nos documentos bilaterais, ambos salientam precisamente a soberania, a integridade territorial e a defesa dos respectivos interesses fundamentais.

Há ainda uma dimensão pessoal. Putin e Xi cultivaram ao longo dos anos uma relação política bastante próxima, com encontros frequentes e uma linguagem pública de confiança mútua. A chamada “diplomacia dos líderes” tornou-se uma componente importante da relação bilateral.

E O QUE PODERÁ APROXIMÁ-LOS AINDA MAIS?

Há vários fatores que poderiam reforçar essa aproximação.

Primeiro, a energia. Quanto mais a Rússia procurar mercados alternativos para o seu petróleo e gás e quanto mais a China procurar fontes estáveis de energia, maior poderá ser a interdependência.

Segundo, comércio e infraestrutura.  Estradas, ferrovias, oleodutos, gasodutos, portos e corredores comerciais podem transformar a proximidade geográfica em uma vantagem econômica permanente.

Terceiro, a cooperação tecnológica. A Rússia possui competências importantes em sectores como energia nuclear, espaço, defesa e determinadas áreas científicas; a China dispõe de uma capacidade industrial e tecnológica muito maior em várias outras áreas. A combinação de competências poderá criar interesses comuns.

Quarto, a arquitectura internacional. BRICS, Organização de Cooperação de Xangai e outros fóruns proporcionam espaços onde Moscovo e Pequim podem coordenar posições e procurar aumentar a influência dos países não ocidentais na governação internacional.

E há finalmente um fator externo:  a evolução das relações de cada um com os Estados Unidos e com o Ocidente . Quanto maior a percepção, em Moscou ou Pequim, de que há interesses estratégicos comuns diante da pressão externa, maiores podem ser os incentivos para cooperar.

Mas existe uma fronteira que convém não esquecer: China e Rússia não são aliados no sentido clássico de uma aliança militar formal. Os próprios documentos bilaterais salientam essa característica. A relação é descrita como uma parceria estratégica abrangente, não como uma repetição das alianças militares da Guerra Fria.

E isso é importante porque também existem diferenças. A China tem interesses económicos globais que exigem relações estáveis com numerosos países. A Rússia possui uma estrutura económica, necessidades de segurança e prioridades geopolíticas diferentes. Pequim não tem necessariamente interesse em assumir todos os custos das opções de Moscovo, tal como Moscovo não está disposto a tornar-se simplesmente um instrumento da estratégia chinesa.

No fundo, talvez seja esta a melhor forma de compreender a relação entre Putin e Xi: não é uma amizade política no sentido pessoal, nem uma aliança ideológica perfeita; é uma parceria em que dois grandes Estados descobriram que, em muitas questões, juntos conseguem defender melhor determinados interesses do que separados.

E há uma ironia interessante na história: durante décadas, Rússia e China foram simultaneamente parceiros, rivais e, por vezes, profundamente desconfiados um do outro. Hoje, aquilo que os aproxima não apagou as diferenças — simplesmente tornou, para ambos, mais valiosa a capacidade de cooperarem apesar delas.

Esta relação é, por isso, melhor entendida como pragmática e estratégica, com áreas de forte convergência e outras em que persistem interesses divergentes. A própria análise especializada actual chama atenção simultaneamente para o aprofundamento da parceria e para os seus limites.

 

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