CADA PAÍS, SUA CULTURA… – por Carlos Pereira Martins

CADA PAÍS, SUA CULTURA…

por Carlos Pereira Martins

 

Cada país tem a sua cultura. É uma evidência do senso comum e uma grande verdade. E, quando se trata de transportar coisas pesadas, essa diversidade cultural manifesta-se de formas verdadeiramente extraordinárias.

Vamos esquecer, por um momento, que temos os serviços da UPS, DHL, FedEx e todas essas empresas modernas que aparecem na porta com uma van, entregam uma caixa de pó de talco ou um sanduíche de presunto e dizem logo que «cargas acima de 20 quilos» têm que ser objecto de orçamento especial.

Falemos de transporte a sério. Daquele em que é preciso alombar!

Na Finlândia, por exemplo, mandamos vir uma encomenda pesada e lá aparece um par de  renas , muito dignas, com aquele ar de quem já viu muita neve e não está a fim de aturar reclamação de clientes.

Na Alemanha, mesmo no pino do Inverno, lá vêm os pastores-alemães, devidamente organizados, disciplinados e provavelmente com uma folha Excel a indicar quem leva a caixa, quem faz a entrega e quem assina o recibo.

Em Ontário e no Alasca, a coisa é ainda mais impressionante: aparecem  ursos brancos e marrons , domesticados, formando equipes de dois. Um pega de um lado, outro do outro, e a encomenda chega ao destino. Só tem um pequeno problema: ninguém ousa perguntar sobre o prazo de entrega.

Nos países árabes, naturalmente, temos o camelo. Aguenta calor, areia, longas distâncias e, aparentemente, clientes que perguntam pela encomenda de cinco em cinco minutos.

No Vietname e na Indonésia, temos o  búfalo de água , trabalhador incansável, acostumado a terrenos onde uma van da DHL provavelmente ficaria atolada na primeira curva.

No Peru e no Chile, lá está a  lhama, elegante, resistente e com a vantagem de poder, quando o cliente se torna particularmente desagradável, limitar-se a cuspir-lhe para cima.

Na Etiópia, no Afeganistão, na Turquia e no Líbano, temos o nosso velho conhecido burro. Um animal extraordinário, que carrega praticamente tudo, não reclama do salário, não exige subsídio de alimentação e, sobretudo, não manda um e-mail a dizer: «Estou indisponível entre as 14h e as 18h.» Não esquecer, temos aí, nesses países, um bom mercado de exportação!

Na Índia, claro, temos o elefante. Quando aparece para fazer uma entrega, ninguém pergunta se a encomenda cabe na carrinha. A própria encomenda é que começa a perguntar se cabe no elefante.

E finalmente chegamos a Portugal.

E aqui é que está o problema.

Porque Portugal é um país diferente.

Nós não temos renas, nem camelos, nem búfalos de água, nem lhamas, nem elefantes. Ursos também não temos — e ainda bem, porque com o preço actual das casas já basta o que temos.

Temos burros, é certo. Mas esses, em grande parte, já foram promovidos a comentadores, gestores, especialistas de televisão, doutores, da mula ruça e políticos, pelo que não estão disponíveis para fazer entregas.

Temos bois. Mas esses também estão ocupados olhando para a economia portuguesa e tentando entender como isso tudo se aguenta.

Temos cavalos, mas são caros e não trabalham sem contrato.

Então, quem em Portugal transporta as coisas pesadas?

O português.

E aqui começa verdadeiramente a nossa especificidade cultural.

Se a carga é pesada, é costume ouvir-se, a certa distância, uma voz de homem, macho latino, cheia de autoridade e pulmão, berrar:

—  Ó Joaquim! Manda-me daí uma cabra ou um cabrão qualquer para me levarem isto para junto ao Cruzeiro da igreja!

E pronto.

Está resolvido o problema logístico.

Repare-se na extraordinária simplicidade do nosso sistema de distribuição: não há plataformas digitais, não há códigos de barras, não há GPS, não há «a sua encomenda está a caminho».

Há o Joaquim.

E o Joaquim sabe perfeitamente quem tem uma cabra, quem tem um cabrão, quem tem um carro de mão e quem, apesar de já ter setenta e oito anos, ainda consegue pegar num frigorífico pelas escadas abaixo.

É a nossa versão ancestral da logística.

Uns países têm UPS.

Outros têm DHL.

Portugal tem Joaquim.

E, se Joaquim não está, sempre tem alguém que grita:

–  Oh meu Deus!

E, tanto cabras como cabrões, parece não haver qualquer escassez.

E assim funciona, há séculos, a mais sofisticada rede de distribuição portuguesa.

Porque o português pode não ter renas, elefantes ou camelos.

Mas tem uma coisa que nenhum desses animais possui:

um vizinho que, depois de ouvir o berro, aparece para ajudar — enquanto resmunga:

— «Eu bem dizia que a coisa  não passava pela porta…»

 

 

 

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