EPISÓDIO 7/10 — A noite em que a população entrou na Câmara
É natural que tenha havido aqui ou ali qualquer contestação, mas nada de relevante. Apenas me recordo de uma, que, pela sua gravidade potencial, não pode ser esquecida.
Eu morava em S. João da Madeira. Uma noite, recebi um telefonema, já não me lembro de quem, dizendo que estava uma grande multidão frente à Câmara Municipal, com intenção de arrombar a porta e invadir a Câmara.
Telefonei de imediato ao meu fiel braço direito nestas questões político-sociais, o Padre Joaquim Moreira dos Santos, pároco de Codal, o qual, juntamente com o amigo Joaquim Matos, prontamente se apresentou no local da silenciosa contestação de algumas dezenas de pessoas.
Calmos e sorridentes, cumprimentámos, abrimos a porta da Câmara e convidámos toda a gente a entrar para o Salão Nobre.
Havia um pequeno estrado na cabeceira do salão, para onde subimos, enfrentando olhos nos olhos todos os presentes. Olhos nos olhos não foi, porque todos estavam com os olhos espetados no chão, sem coragem de os erguer.
Foi aí que percebemos que aquela gente fora arrebanhada por alguém, não sabendo verdadeiramente ao que vinha. Esse alguém estava representado por um amigo meu, do PPD.
Perguntámos o que queriam, pedimos para exporem a razão daquela manifestação e falarem à vontade. Com os olhos sempre no chão, nada responderam.
Não me lembro das palavras que eu e o Padre Joaquim proferimos. Sei que foram palavras afáveis e pacíficas.
Apenas me saiu uma pequena nota de cinismo dirigida ao meu amigo “Líder”, cujo nome e teor não vou revelar, eu que nunca fui cínico na minha vida e abomino o cinismo.
Essa meia dúzia de palavras foi suficiente para começar a ver as pessoas a abandonarem a sala e anularem qualquer eventual vontade de intervenção, ainda que solicitada por nós.
Despedimo-nos sorridentes, com “uma boa noite a todos”, um “muito obrigado pela presença” e um esperançoso “até amanhã”.
Uma das decisões que tínhamos em mente, que não se concretizou, era criar uma escola agrícola no velho Seminário dos Jesuítas, em Macieira de Cambra.
Não andámos com o projeto, pois de imediato começaram a surgir calúnias, dizendo que estávamos a querer fazer o jogo dos donos, quando nem sequer sabíamos quem eram.
Outra decisão foi proibir a abertura de uma “boite” em Ramilos.
Houve outras proibições, como a construção de prédios que nos pareceram oportunistas e abusivos, sem benefício visível para o concelho, alguns da iniciativa de um conhecido empreiteiro, meu amigo e meu paciente.
A minha memória e os tempos tão distantes não me permitem lembrar episódios de relevo.
Pessoas, sim.
Pessoas que estavam de alma e coração connosco havia muitas, felizmente, apesar de haver outras que nos atraiçoavam, mesmo sendo meus amigos e meus pacientes.
Para além de todos os valiosos elementos da Comissão Administrativa, em que o meu braço direito nos assuntos camarários era o Joaquim Matos, outras muito importantes não podem ser esquecidas.
Em primeiro lugar, o Padre Joaquim Moreira dos Santos, pároco de Codal, sempre fiel e firme do princípio ao fim.
A D. Arminda Melo, mãe da Dra. Manuela Melo, colaboradora incansável, também fiel até ao fim.
O nosso saudoso Alberto Bastos, democrata e antifascista, sempre ao nosso lado.
Refiro apenas estes três, que são icónicos, porque, havendo muitos e muitos mais, posso esquecer alguns e não quero correr esse risco.