A SEGUNDA GRANDE DEPRESSÃO – PORQUE É QUE A CRISE É PIOR DO QUE PENSÁVAMOS, de J. BRADFORD DELONG – I

Selecção de Júlio Marques Mota. Tradução de Flávio Nunes.

J. Bradford DeLong

Julho de  2013

 

Brad DeLong - I A situação actual é dura: um cartaz a publicitar uma falência  na Califórnia, Setembro de 2012. (Lucy Nicholson / cortesia Reuters)

Depois a música parou: A crise financeira, a resposta e o trabalho em primeiro lugar,  ALAN S. BLINDER. Pinguim Pres, 2013, 476 pp. $29.95.

Alan Blinder é somente o mais recente  de uma série  de economistas proeminentes, que analisaram  com detalhe as contas da  crise económica dos EUA.  A sua narrativa contabilística  estabelece as opções políticas que estavam disponíveis em cada fase da crise e a sua análise é inspirada e  com uma compreensão profunda da macroeconomia. Globalmente é a melhor obra sobre o assunto que foi publicada até à data.

 Tendo em conta as suas muitas virtudes, todavia, o livro mostra um retrato extremamente optimista do estado da economia dos EUA. “Mais de  quatro anos depois do Lehman Brothers  ter caído,” escreve Blinder, “os decisores políticos estão ainda a amamentar uma economia frágil para que este volte a estar saudável.”  Mas a economia dos EUA encontra-se bem  pior para se considerar como “frágil”, e há apenas alguns sinais de que está sendo alimentada  “para voltar a gozar de boa saúde.” A maioria dos economistas afirmam que vêm pelo menos uma fresta na recessão económica: que esta não é tão má como a Grande Depressão. Até recentemente, eu concordei; eu até passei a chamar-lhe com este episódio “a menor depressão.” Agora, desconfio que estava errado. Comparar a crise em curso com a da Grande Depressão, e não há quase nada que seja “menor” na comparação. A economia europeia está hoje em pior posição em relação a 2007 do que em 1935 relativamente a 1929, quando a Grande Depressão espoletou. E parece que a economia dos EUA, quando tudo é dito e feito, estará a enfrentar certamente uma década perdida e talvez até mesmo duas.

A economia dos EUA tem verificado uma recuperação, sobretudo no sentido de que não se tem deteriorado as condições. Blinder verificou que a taxa de desemprego subiu para  10% no auge da crise e que neste momento se encontra em cerca de  8%, quase a meio caminho de uma economia saudável. Todavia esta avaliação é enganadora. A meio da década passada, a percentagem de adultos americanos que trabalhavam era cerca de 63%. Esse número caiu agora para cerca de 59% em 2009, permanecendo assim até hoje. No que respeita ao emprego, a economia dos EUA não se encontra em recuperação, permanecendo assim na mesma situação, estagnada, não apresenta melhoras, contudo também  não tem piorado.

Olhemos para os valores do PIB: nos 12 anos entre o início da Grande Depressão e a entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial, a economia dos EUA viu a sua produção cair cerca de um montante igual a 180% da produção de um ano médio do período antecedente à crise. Se admitirmos, como o faz Congressional Budget Office, que os EUA retomará os seus valores de anteriores a 2008 por volta de 2017, a economia teria sido sujeita a uma quebra de cerca de  60% de um ano médio do período anterior à crise. Mas é improvável que a recessão económica permaneça para lá de 2017: nenhuma guerra ou grande inovação parece provável vir a aparecer neste horizonte temporal e, a poder  depois impulsionar o país para um boom económico, o caminho trilhado pela  II Guerra Mundial acabando com Grande Depressão. Se a crise se estende por uma segunda década perdida, os EUA incorrerão em  perdas iguais à produção de um ano  médio do período pré-crise, elevando o custo total da crise para cerca de 160% de um ano pré-crise médio e quase igual à quebra havida com a Grande Depressão.

Naturalmente, a presente crise tem provocado menos situações de miséria humana  do que com a Grande Depressão. Mas esse facto deve-se a factores políticos, não ar razões económicas. A grande rede de programas de segurança social estabelecida no New Deal pelo Presidente Franklin Roosevelt, pelo programa Fair Deal do  Presidente Harry Truman, pelo programa Novas Fronteiras do presidente John F. Kennedy e pelo programa Great Society do Presidente Lyndon Johnson  defendido  também  pelo presidente Bill Clinton, marcadamente  limitam a quantidade de pobreza que pode provocar  uma recessão.

E acerca do futuro? Só uma acção política ambiciosa do tipo da que criou esses programas pode proteger  o país contra o sofrimento de uma  calamidade económica igual durante anos. No entanto, o sistema político dos EUA é disfuncional. O Congresso não suportará o tipo da regulação financeira  de que o país desesperadamente precisa. Blinder conclui a  sua narrativa com uma série de recomendações inteligentes acerca do  futuro, mas a maior fraqueza do seu livro é a falta de um mapa de estrada que nos tire do impasse actual que tem a ver com o actual   clima político. Sem um conjunto mais dramático de acções, os EUA correm o risco  de ficarem sujeitos  a outra grande crise económica nos próximos anos.

(continua)

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