A Análise Americana da Economia a nível mundial ( Excertos) [1]
PARTE V
(continuação)
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Análise individual das diversas economias
Ásia
China
Depois de uma ampla desaceleração no primeiro semestre de 2013, a economia da China tem mostrado recentemente alguns sinais de estabilização, com o crescimento do PIB a subir e a atingir 7,8% no 3º trimestre, contra 7,5% no segundo semestre. Em 2012, o crescimento do PIB desceu para 7,7 por cento – a mais baixa taxa de crescimento para a China em mais do que uma década[1]. O investimento continuou a ser o motor da economia no 3º trimestre, reflectindo um aumento na aprovação do projectos pelo governo central e um rápido crescimento nas despesas públicas em gastos de infra-estruturas. A procura externa neste Verão também foi mais forte do que o esperado, levando a uma recuperação moderada no crescimento das exportações. No entanto, recentes indicadores de alta frequência, tais como a produção industrial e os investimentos em capital fixo tem começado a descer numa base sequencial, sugerindo que qualquer recuperação a acontecer neste quadro deve ser de crescimento limitado. As previsões estimam um crescimento do PIB real de 7,6% em 2013 e de 7,4% em 2014.
O excedente na balança corrente da China era de 2,5% do PIB no primeiro semestre deste ano, que se manteve basicamente inalterado, em cerca de 2,3% do PIB em 2012. Isto representa um declínio significativo desde 2007, quando o excedente na balança corrente foi mais de 10 por cento do PIB. No entanto, o equilíbrio da balança de base da China (a soma de seu saldo de balança corrente conta e o dos afluxos de investimento estrangeiro directo ) foi ainda elevado em 4,3% do PIB no primeiro semestre de 2013. De acordo com as projecções do FMI, sem uma continuada apreciação da moeda e a que se devem juntar mais reformas estruturais, o excedente da balança corrente da China será mais do que o dobro em percentagem do valor global do PIB até 2018.
A diminuição do desequilíbrio externo da China resultou em grande parte de um aumento acentuado de investimento doméstico, mais do que um acentuar do consumo interno, levando assim a um agravamento dos desequilíbrios internos. Em 2012, a percentagem do investimento da China em termos de PIB foi de 48 por cento, essencialmente inalterada desde os valores recordes de 2011 e de 2010. Enquanto isso, a parte do consumo das famílias permaneceu perto do seu nível recorde mais baixo, com 35% do PIB. Existem actualmente poucos indícios que este comportamento se vá inverter este ano, apesar de um aumento de interesse político sobre os desequilíbrios internos da China. Enquanto o ritmo de crescimento do investimento tenha diminuído no primeiro semestre de 2013, o crescimento do consumo pode ter diminuído ainda mais. Os dados do inquérito dos agregados familiares da China sugerem que o rendimento do agregado familiar em termos de crescimento continuou a trilha de crescimento do PIB no primeiro semestre deste ano, o que implica uma maior deterioração da parte do consumo das famílias no PIB.
Uma forte dependência de crédito e do investimento para manter o crescimento, desde a crise financeira mundial, levou a vulnerabilidades significativas na economia chinesa, incluindo a deficiências no sistema financeiro, ao aumento da dívida pública e à existência de um mercado imobiliário superaquecido. A taxa de investimento da China é extremamente elevada em termos históricos e a experiência internacional sugere que os aumentos acentuados no crédito e no investimento são frequentemente seguidos por problemas do sector financeiro e por uma correcção acentuada no crescimento.
A resolução dos enormes desequilíbrios internos da China não será fácil, mas atrasar a realização dos ajustamentos estruturais permitiria uma maior acumulação de riscos no sistema e pode levar [a uma forte e desagradável, porque perigosa, ] correcção da taxa de crescimento no futuro. No curto prazo, a China ainda tem as ferramentas de política necessárias para apoiar o crescimento como também o pode deslocar para uma trajectória de equilíbrio sustentado, incluindo substancial espaço orçamental para aumentar as despesas sociais.
Sendo certo que a liderança [política e económica] da China tem feito progressos em algumas áreas específicas, terão ainda que prosseguir políticas estruturais muito mais decisivas para promover o reequilíbrio interno e assegurar que a redução do excedente na balança corrente seja durável. Para apoiar o consumo das famílias, é essencial para a China perseguir políticas que aumentem o rendimento familiar e o seu poder de compra. O fortalecimento da Segurança Social na China irá melhorar a segurança de rendimentos das famílias e reduzir a necessidade das famílias continuarem a acumular grandes quantidades de poupança por efeito de precaução. Também crítica é a remoção de distorções que levam à formação de preços claramente abaixo do preço que economicamente deveria prevalecer na utilização quer dos bens e serviços necessários na produção, quer dos factores capital e trabalho aí utilizados, ou seja, estamos com subvalorização na energia, na água, na terra, no trabalho e no capital, o que faz inclinar a balança de investimento para métodos de produção e indústrias de capital intensivo e para a indústria transformadora e mais longe do sector de serviços mais intensivo em trabalho. Por fim, a reforma nas taxas de juro e na taxa de câmbio são essenciais para melhorar o poder de compra das famílias e no desenvolvimento de um sistema financeiro mais centrado no mercado. As políticas de controlo das taxas de juros feita pela China tem sido um grande impulsionador da desequilibrada estrutura do seu crescimento. Para as famílias, as taxas de juros administrativamente fixadas levaram a uma mais baixa receita financeira das suas poupanças bancárias e, portanto, a uma redução do seu consumo. Uma vez que as baixas taxas de depósito alimentam as baixas taxas de juros sobre os empréstimos, esses controles sobre a taxa de juros incentiva o investimento em projectos com rentabilidades esperadas inferiores. Eles também mudaram uma grande parte de crédito para a indústria transformadora e de bens negociáveis internacionalmente e afastando-se dos serviços não transaccionáveis e do sector privado mais dinâmico. Os controlos que mantêm retornos reais sobre os depósitos bancários baixos também apresentam riscos para o sector financeiro, como incentivam o investimento em activos de maior risco e com rendimentos mais elevados como a propriedade e os menos regulados activos financeiros na gestão de fortunas.
Os novos dirigentes da China têm sublinhado o seu desejo de criarem uma economia mais equilibrada, que pode alcançar um crescimento mais sustentável a longo prazo e têm tomado uma série de passos potencialmente importantes em direcção a este objectivo. Em Fevereiro de 2013, o Conselho de Estado lançou o seu plano de reforma de distribuição de rendimento desde há muito tempo adiado, que estabelece um quadro abrangente para melhorar a distribuição de rendimento e dobrar os rendimentos familiares até 2020. O plano também recomenda políticas estruturais importantes, tais como a liberalização das taxas de juros, o aumento dos pagamentos em dividendos das empresas públicas, as SOEs, e o aumento das despesas sociais. Em Março deste ano, o governo iniciou o processo de reforma de preços de energia, ajustando os preços do petróleo de modo mais regular para melhor reflectir os preços internacionais, e em Julho subiu o preço por atacado de gás natural em cerca de 15 por cento.
Também tem sido dado um renovado impulso para a reforma do sistema de taxas de juros. Em Julho de 2013, o Banco Central da China, o PBOC, anunciou o fim dos controles administrativos sobre as suas taxas de empréstimos bancários. Enquanto esta medida é pouco susceptível de influenciar o comportamento de empréstimos a curto prazo porque muito pouco empréstimos se fazem na base desta da taxa de referência, ela é, contudo, um sinal importante de que a China continua empenhada na sua reforma financeira. Em Setembro, o PBOC informou que vai introduzir uma taxa de empréstimo de referência baseada no mercado e permitirá que os bancos comerciais lancem certificados de depósito com os preços a serem determinados pelo mercado..
No quinto encontro U.S.-China Strategic and Economic Dialogue (S&ED) em Julho de 2013, a China reafirmou o seu compromisso de reequilibrar a sua economia e delineou várias medidas para promover uma maior procura interna. Em particular, as autoridades mostraram-se empenhados em reduzir a carga fiscal sobre os serviços das empresas, estendendo o seu programa piloto sobre impostos para além de Shanghai, de modo a cobrir todo o país e para cobrir adicionalmente outros sectores em 2014.[2] Uma vez que o programa piloto é desenvolvido por todo o país, o valor acrescentado (IVA) aplicado ao sector de serviços deve baixar a tributação sobre as empresas de serviços a taxas comparáveis às das indústrias de transformação e outras, removendo uma grande distorção política que aumentava a rentabilidade do sector de bens comercializáveis em relação à do sector de serviços. A China também se comprometeu em aumentar os dividendos pagos pelas suas empresas públicas e em aumentar as receitas de dividendos transferidas para o orçamento do governo central para os gastos com a previdência social. Isto deve diminuir os ganhos retidos dentro do sector empresarial do Estado e aumentar os recursos disponíveis para apoiar o bem-estar social e outros programas para as famílias. O FMI estima que os lucros gerados no sector empresarial do Estado e se cifram em RMB 917 mil milhões em lucros em 2011, mas pagou apenas RMB 77 mil milhões em dividendos, das quais apenas 4 mil milhões de RMB foram para o orçamento. Além disso, a China comprometeu-se em aumentar a despesa com a Segurança Social e com o emprego; em assegurar-se de que as empresas de todas as formas de propriedade têm igualdade de acesso aos produtos intermediários para a produção ( os inputs); e em desenvolver um mecanismo baseado no mercado para a determinação do preço desses mesmos produtos intermediários.
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[1] Em Setembro de 2013, a China reviu o seu crescimento de 2012 do PIB em 7,7 por cento contra de 7,8 por cento inicialmente. Entre sete a oito por cento de crescimento anual pode, de facto, ser a taxa de crescimento potencial actual da China enquanto a expansão da força de trabalho se reduz e a economia tenderá para o equilíbrio através de fontes mais sustentáveis de crescimento a longo prazo.
[2] O programa piloto VAT-for-Business foi primeiramente apresentado em Xangai. As autoridades chinesas anunciaram planos para expandirem o programa para mais nove províncias e cidades, incluindo Beijing and Guangdong, em Julho de 2012.
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[1] Excertos de: Report to Congress on International Economic and Exchange Rate Policies; U.S. Department of the Treasury, Office of International Affairs, October 30, 2013
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Para ler a Parte IV desta síntese de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas vá a:
