Quando a incompetência ou a maldade são consideradas qualidades e, como tal, premiadas – Iª Parte – C
A propósito das recentes promoções de Vítor Gaspar, Álvaro Santos Pereira e José Luís Arnaut
(continuação)
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Um aluno impertinente com uma alma do tamanho do mundo mas agora com esta a minguar por efeitos da lavagem ao cérebro da “Jota” do PSD e da Universidade Nova, dir-me-á: mas, então, as relações de custos não se comparam assim, comparam-se com os salários. Isso é manipulação sua.
Talvez possa dizer isso, diríamos, mas não é essa a minha intenção. Vejamos. Seja w o salário por hora de trabalho do espaço nacional. Seja w* o salário horário por hora de trabalho no estrangeiro.
Vejamos, então, e agora dou-lhe uma explicação que nunca dei nas aulas. Seja então w e w*. Se w unidades de moeda valem uma unidade de trabalho no espaço nacional, então uma unidade monetária vale em termos de trabalho (1/w), o mesmo se passando no estrangeiro, dado agora por (1/w*). Então expressa em termos de trabalho uma unidade de moeda estrangeira vale Rs de moeda nacional e como uma unidade de moeda nacional “vale” em termos de trabalho nacional (1/w), uma unidade de moeda estrangeira “vale” em termos de trabalho nacional Rs (1/w) contra (1/w*) no espaço estrangeiro. A relação entre os dois valores dá-nos a taxa de câmbio real com a taxa de câmbio nominal duplamente deflacionada. Dá-nos a relação dos custos, dizem-nos os neoliberais. É nesse sentido que o meu amigo e impertinente aluno aqui considerado, exige esta fórmula. Face à sua visão ultraneoliberal do mercado de trabalho, levemos as coisas a sério. O que significa (1/w)? Aqui lembro o meu amigo e antigo colega Joaquim Feio quando discutíamos Adam Smith e a teoria do valor, quando discutíamos o livro Il Valore de Cláudio Napoleoni. Esta relação significa a quantidade de trabalho que o capitalista pode comandar, pode dirigir, pode colocar no processo produtivo para vir a ser utilizada no processo de produção. Era a visão dinâmica da teoria do valor de Adam Smith, um homem altamente preocupado com o crescimento. E desta forma não tem nada a ver com aqueles que dele se reclama. Da mesma forma teremos (1/w*) a representar a quantidade de trabalho que o capitalista pode comandar, dirigir, utilizar na produção. E então a relação Rs (w*/w) o que representa? Aqui, muito cuidado a ler esta fracção. Ela indica-nos a quantidade de trabalho que uma unidade de moeda estrangeira pode comandar no espaço nacional por unidade de trabalho que pode comandar no espaço estrangeiro. A brandeza dos clássicos está aqui: o trabalho não é redutível e esta é uma propriedade que funda a teoria das vantagens comparadas de Ricardo. E mais ainda pouco nos serve no plano imediato a sua evolução. Imaginemos Portugal e Alemanha. Dá-nos a quantidade de trabalho que os alemães podem comandar em Portugal por unidade de trabalho comandado por um alemão e falamos portanto de produção futura. Tudo bem, mas em Portugal nós não concorremos com os alemães. Só no médio e longo prazo e, para isso, teríamos que fazer tanta coisa meu Deus. Percebe-se então que prefira a taxa de câmbio efectiva em que os deflatores são os níveis gerais de preços. Regressando ao absurdo então das políticas de austeridade seguidas em Portugal, recordemo-nos, na base destas políticas estiveram exactamente Vítor Gaspar e Álvaro Santos Pereira, agora nomeados respectivamente para o FMI e para a OCDE. No caso de Álvaro Ramos Pereira com que base? Vejamos o comunicado da OCDE, onde se pode ler:
“A OCDE nomeia novos directores para a política económica
16/01/2014 – A OCDE nomeou um antigo ministro português da economia e um alto funcionário alemão para cargos de direcção no departamento de assuntos económicos, reforçando assim o empenho da OCDE em identificar e promover políticas que melhorem o desempenho económico a longo prazo dos países.
Álvaro Santos Pereira será Director do Departamento dos Estudos de Política Nacional no dia 1 de Abril de 2014. Christian Kastrop tornar-se-á Director do Departamento de Estudos de Política no dia 15 de Março de 2014.
Congratulando-se com estas duas nomeações, o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, disse que o antigo ministro Álvaro Santos Pereira e Christian Kastrop trariam para a OCDE uma valiosa e fundamental experiência política, garantindo-se assim que a OCDE continue a propor soluções face aos desafios dos quais os países se encontram confrontados na economia complexa e multipolar dos dias de hoje.
O antigo ministro português da economia e do emprego, Álvaro Santos Pereira, desde Junho de 2011 a Julho de 2013, colaborará estreitamente com o economista-chefe da OCDE e velará para que a Organização permaneça na vanguarda da acção internacional em matéria de economia política. Directamente irá supervisionar 70 quadros da OCDE para fazerem uma vintena de estudos económicos anuais por país.
Enquanto ministro da economia e do emprego do governo português, Álvaro Santos Pereira foi responsável pela indústria, comércio e dos serviços, do turismo, energia e obras públicas, transportes e emprego, e nessa qualidade colocou em prática um muito importante programa de reformas nos domínios da economia e do trabalho.”
A propósito de Álvaro Santos Pereira mantemos politicamente o que escrevemos há dois anos e que voltaremos a publicar depois deste texto.
No caso presente, a dignidade da instituição está à prova, ou melhor, está ausente em toda a linha. Eis pois como se forjam descaradamente os curricula. E outra coisa não seria de esperar da OCDE, antro profundo do pensamento neoliberal, um think tank pago não pelas multinacionais mas sim pelos Estados, pelos seus respectivos governos e para dizerem portanto o que eles querem que se diga. E um velho professor meu, hoje falecido, dizia-me na altura em que eu era estudante, que já era assim no tempo de Salazar. Para isso precisam de nomear apenas e, apenas quem defenda seja a que custo for o mesmo conjunto de ideias. De Democracia, nem uma amostra. De resto digam-me onde é que vêem anúncios de concursos para as grandes organizações internacionais. Nunca vi.
Criticar o sistema em que a União Europeia funciona e o quadro de valores que esta defende é que não, quando essa crítica se afigura hoje como o primeiro passo a fazer. No texto sobre Tortus escrevemos:
“este mesmo sistema que deve ser colocado em causa. E a crise financeira vista a esta luz é apenas a superfície da crise civilizacional que atravessamos na Europa. Nesta crise civilizacional confere então sentido a ida de Gaspar para o FMI, de Álvaro Santos Pereira para a OCDE, de José Luís Arnaut para o GS – num modelo de sociedade sem princípios, porque exigir que aqueles que a dominam tenham eles princípios? Se Deus não existe tudo é permitido, ter-nos-á dito em síntese Dostoiévski, e, então, como tudo é actualmente permitido, a conclusão surge pois imediata.
A principal responsabilidade desta situação deve-se aos governos de Merkel e Sarkozy que passaram a dominar o Conselho e deve-se também à própria Comissão que sucessivamente parecia querer ser mais rígida que estes dois governos na imposição da austeridade. Todos eles interpretaram a crise do euro como sendo uma crise da dívida soberana e desta forma confundiram a causa com o efeito e nunca como efeito do modelo neoliberal desde há décadas seguido e mais que ultra-reforçado no pós-Maastricht. O acentuado aumento da dívida soberana desde 2009 não terá sido provocado por excesso de despesas sociais mas, pelo aumento de empréstimos necessários para financiar o resgate dos bancos, enquanto até aí tinha-se assistido a um degradar sucessivo da balança comercial de vários países a justificar os profundos desequilíbrios na estrutura produtiva. A este degradar também não é estranha a ausência de política comercial na Europa, que submetida e amarrada à OMC, levou a que a Europa seja a principal vítima dos novos mercantilismos sem rei nem roque: o da Alemanha e o da China, para quem o relevante era o mercado mundial, sem nenhuma regulação. A partir de 2010, que toda esta análise errada levou á criação de uma estratégia ainda mais errada para resolver os problemas: os unilaterais cortes nos gastos públicos, o reforço das políticas de austeridade, o ataque pelos mercados financeiros à divida soberana, ataques estes consentidos pelo BCE, tudo isto a fazer disparar a dívida pública. Isto tem levado a Europa para a situação de recessão. A economia está em contracção e estão a disparar os níveis de desemprego e da dívida. A força de procurar estabilizar a zona euro pelos meios errados está-se a destruir a própria estabilidade interna da zona euro.”
(continua)
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Para ler a Parte – I – B deste trabalho de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

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