Neste dia mundialmente consagrado à celebração do Teatro (oxalá o fossem, ao longo do ano, todos os dias do calendário!), comecemos por recordar o primacial significado da palavra teatro. Qualquer dicionário – desses que prezam a etimologia – nos dirá que provém do grego théatron: “ lugar de onde se vê”. (E em português, por sinal, ver já pressupõe minimamente uma atitude de interesse, de atenção que não se verifica no olhar puro e simples. Quantas vezes acontece que olhamos para uma pessoa, para uma coisa, e em verdade não as vemos, a bem dizer.)
Amplíssimo auditório circundante, escavado na austera paisagem da Grécia milenária; reduzido, luxuoso e seleto espaço de cortes principescas; edifício expressamente concebido para o serviço público da representação dramática; aglomerado de cadeiras trazidas de casa, frente a um tablado erguido numas pipas, num largo de aldeia, em dia festivo – sempre o teatro, “lugar de onde se vê”, se observa com atenção, se analisa, se julga, se admira ou se condena, no decurso duma ação puramente fictícia do dramaturgo, o comportamento individual e social de personagens as mais diversas, vivificadas e tornadas credíveis pelo talento específico dos atores.
Assim, por mais voltas a que se pretenda sujeitá-lo, o Teatro será sempre o espelho da sociedade em que está inserido, criticando-lhe as vaidades e outros desacertos, denunciando injustiças e quaisquer tendências autoritárias e antidemocráticas. Haverá certamente quem veja no teatro um simples passatempo, um mero divertimento. Não seja ele estupidificante… Por mim, como escritor preferencial de obras dramáticas, confesso que reconheço no teatro um desígnio, um propósito muito menos passivo: muito mais interveniente. E, por várias vezes solicitado a pronunciar-me sobre o assunto, na celebração deste mesmo Dia, permito-me transcrever um parágrafo da minha própria Mensagem de 2008:
“Não queiramos atribuir ao Teatro a primordial função regenerativa da Humanidade. Mas não tenhamos dúvida de que o Teatro – como todas as artes – ajuda a sociedade na superação de insuficiências diversas. Pelo que é de reclamar a sua inclusão nos programas educativos, desde a infância, na prática do ambiente escolar, complementada com a leitura de textos dramáticos e a frequente assistência a espetáculos teatrais. O gosto pelo Teatro será tanto mais forte quanto mais cedo for o acesso ao respetivo conhecimento.”
Noutra Mensagem minha, redigida em idênticas circunstâncias em 2013, poderia ler-se:
“Se o Teatro Profissional atinge por vezes níveis admiráveis de qualidade artística (devidos naturalmente à
aprendizagem regular e institucional), não deixa o Teatro Amador de surpreender-nos de quando em quando, com o desempenho de um intérprete, a destreza duma encenação, a ousadia de um cenário – decididamente superando a tradicional insuficiência de meios. Mesmo tendo em consideração a justa remuneração devida aos profissionais (que permite a sua subsistência), não creio haver grande vantagem em demarcar, insistir demasiado na verdadeira vocação do profissional e na generosa devoção do amador. Porque um e outro servem a sua Arte de eleição consoante as suas disponibilidades de tempo. E como é impressionante saber que alguém, depois de umas tantas horas de trabalho, privando-se do repouso e do convívio familiar, ainda tem ânimo de se entregar a ensaios ou representações teatrais!”
Muitos nem suspeitarão até que ponto o mundo teatral – e particularmente a Dramaturgia – aparecem referenciados no nosso viver quotidiano, no nosso vocabulário. Alguns exemplos: Ao falso devoto, ao impostor, ao que finge impecáveis sentimentos chamamos tartufo – nome do protagonista da famosa comédia de Molière. Chamamos anfitrião àquele que hospeda, recebe convivas em sua casa; embora Anfitrião seja figura da Mitologia Grega, é mais que certo que o facto de ser protagonista em comédias de Plauto, Molière e muitos outros autores proporcionou a vulgarização do vocábulo. Chamamos sósia a uma pessoa muito semelhante a outra. Pois Sósia é o escravo de Anfitrião, com quem ele compartilha andanças e equívocas situações.
E porque é certo serem as palavras como as cerejas, ousaria sugerir àqueles que pouco ou nada conhecem da minha dramaturgia: a simples leitura da “comédia erótica” Uma Nuvem Sobre a Cama,em que se recria precisamente o helénico mito de Anfitrião. E já agora, também no mesmo IV volume da coletânea Algum Teatro, a leitura da “comédia assincrónica” O Marido Ausente, sobre o mito de Penélope. Nesta última peça, escrita em 1988 e com alguma carreira internacional, Penélope encarna os legítimos anseios de liberdade do povo grego. O ponto de partida é a ocupação da Grécia pelas tropas nazis. E por várias vezes se nos depara a referência a uma espécie de “troika”, ali designada pelas “três potências protetoras. (Premonição, digamos.)
Por falar em “troika” (com licença da palavra), revejo em pensamento a impressionante cenografia natural da íngreme escadaria do Parlamento, em vívidos espetáculos de reivindicação, infelizmente necessários, infelizmente urgentes. Parece-me que encontrei o título apropriado a esta crónica inacabada: Dia do Teatro no Teatro dos Dias.
Entretanto, aqui e por esse vasto Mundo, Antígona continuará a revoltar-se contra a tirania; Otelo continuará a não acreditar na fidelidade de Desdémona, preferindo escutar as calúnias de Iago; Mãe Coragem continuará sem perceber que não é razoável aceitar benefícios de confrontos de guerra e ao mesmo tempo chorar os filhos que essa mesma guerra lhe vai roubando.

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