Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
3.Porque é que estamos numa nova era dourada
Sobre o livro Capital in the Twenty-First Century, de Thomas Piketty
Paul Krugman
Parte IV
(CONCLUSÃO)
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Às vezes, Piketty parece quase oferecer uma visão determinística da história, em que tudo flui a partir das taxas de crescimento demográfico e do progresso tecnológico. Na realidade, contudo, Capital in the Twenty-First Century torna claro que a política pública pode fazer uma diferença enorme pois que, mesmo se as situações económicas subjacentes tendem a conduzir para as situações de desigualdade extrema, o que Piketty chama de “um arrastar para a oligarquia”, esta tendência pode ser parada e ser mesmo se a classe política assim o decidir.
O ponto-chave é o de que quando nós fazemos a fundamental comparação entre a taxa de rentabilidade sobre a riqueza e a taxa de crescimento económico, o que aqui é importante é a taxa de rentabilidade pós tributação sobre a riqueza. Assim uma tributação progressiva- em especial na tributação particular da riqueza e das heranças-pode ser uma força poderosa para limitar a desigualdade. Sem dúvida, Piketty conclui a sua obra-prima defendendo uma tal forma de tributação. Infelizmente, a história tal como é muito bem analisada no seu próprio livro não nos estimula ao optimismo.
É verdadeiro que durante uma grande parte do século XX a tributação fortemente progressiva ajudou certamente a reduzir a concentração de rendimento e de riqueza, e pode-se mesmo imaginar que a tributação sobre os mais ricos é o resultado político natural quando a democracia se confronta com uma elevada desigualdade. Piketty, contudo, rejeita esta conclusão; o triunfo da tributação progressiva durante o século XX, afirma, era “um produto efémero do caos.” Se não tivessem ocorrido as guerras e as agitações de uma guerra moderna de trinta anos na Europa, sugere Piketty, nada do tipo aconteceria.
Como é evidente, Pickerty apresenta o exemplo da IIIª República Francesa. A ideologia oficial da República era altamente igualitária. Contudo a riqueza e o rendimento estavam de tal forma concentrados, quase tão dominados pela herança, como se estava na monarquia constitucional aristocrática existente através do Canal da Mancha. E a política pública não fez quase nada para se opor à dominação económica dos rentiers : os impostos sobre a propriedade, em particular, eram quase que ridiculamente baixos.
Porque é que os cidadãos franceses universalmente emancipados não votaram nos políticos que enfrentariam a classe dos rentiers? Bem, então e tal como agora, a grande riqueza comprou a grande influência-não apenas sobre as políticas, mas igualmente sobre o discurso público. Upton Sinclair sintetizou, numa expressão hoje bem famosa, esta situação quando afirmou que “é difícil conseguir que um homem seja capaz de compreender uma coisa quando o seu salário depende do facto de não a compreender.” Piketty, olhando a história do seu própria país, chega a uma conclusão similar: “A experiência da França na Belle Époque prova, se a prova é necessária, que nenhuma hipocrisia é demasiado grande quando as elites económicas e financeiras são levadas a defender os seus interesses”
O mesmo fenómeno é visível hoje. De facto, um aspecto curioso da cena americana é que a política da desigualdade parece se qualquer coisa que corre à nossa frente ou seja que parece estar antes da própria realidade. Como nós já vimos, neste momento, a elite económica americana deve o seu próprio estatuto principalmente aos salários extraordinariamente elevados mais do que aos rendimentos do capital. Todavia, a retórica económica conservadora já sublinha e celebra o capital mais que o trabalho como sendo o “criador de empregos,” não de trabalhadores.
Em 2012 Eric Cantor, líder da maioria parlamentar escolheu marcar o dia do Trabalho — com um piar que honra os empresários :
Hoje, nós celebramos todos aqueles que tomaram um risco, que trabalharam duramente, que construíram uma empresa, ganharam o direito ao seu próprio sucesso.
Talvez incomodado pela reacção, tenha sentido a necessidade de lembrar aos seus colegas, num recuo do Partido republicano, que a maioria das pessoas não possuem os seus próprios negócios — mas isso por si só mostra imediatamente como o partido se identifica com o capital, excluindo virtualmente o trabalho.
Nem esta orientação a favor do capital é puramente retórica. Os encargos tributários sobre os americanos de altos rendimentos caíram em toda a linha desde os anos 1970, mas as maiores reduções incidiram sobre os rendimentos do capital -incluindo uma descida acentuada nos impostos sobre os lucros, o que beneficia indirectamente os accionistas e as heranças. Por vezes isto parece como se uma parte substancial da nossa classe política esteja a trabalhar activamente para restaurar o capitalismo patrimonial de Piketty. E ao olharmos para as fontes dos donativos aos políticos, muitos dos quais vêm das famílias ricas, essa possibilidade é muito menos estranha do que parece.
Piketty termina a sua obra Capital in the Twenty-First Century com uma enorme chamada de atenção -um apelo , em particular, para a aplicação de impostos sobre a riqueza, aplicação esta, se possível, global, para conter o poder crescente da riqueza herdada. É fácil ser cínico sobre as perspectivas para qualquer coisa que se faça deste tipo. Mas certamente o diagnóstico magistral de Piketty sobre a situação de onde viemos, em que estamos e para onde nos estamos a dirigir faz com que se veja tal hipótese como sendo consideravelmente mais provável. Assim, Capital in the Twenty-First Century é um livro extremamente importante em todas as frentes. Piketty transformou o nosso discurso económico; nós nunca mais falaremos sobre a riqueza e sobre a desigualdade da mesma maneira como o temos feito até agora.
Paul Krugman, Why We’re in a New Gilded Age, New York Times.
http://www.nybooks.com/articles/archives/2014/may/08/thomas-piketty-new-gilded-age/
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