ONTEM, NÃO FOI UM DIA BOM PARA A ARGENTINA, por MATT LEVINE

Temaseconomia1

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

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Ontem, não foi um dia bom para a Argentina

 

Yesterday Was Not Argentina’s Day, por Matt Levine

Bloomberg View, 31 de Julho de 2014

 Matt Levine

Parte I 

Em 2001, a Argentina deixou de pagar a sua dívida. Em 2005 e 2010, ofereceu aos detentores dos títulos em incumprimento uma escolha: eles poderiam trocar estes títulos por novos títulos, a cerca de 30 centavos de dólar, ou optarem por não o fazer e não receberiam nada. Dada essa escolha, a maioria dos obrigacionistas aceitaram a troca. Alguns redutos de especuladores bem mais duros ou com raiva ou até por preguiça  não o fizeram. Eles, ou os seus sucessores, decidiram continuar a lutar para terem o seu dinheiro de volta. Eles processaram e processaram e processaram um pouco mais, argumentando que a Argentina não podia pagar suas novas obrigações de troca sem primeiro pagar aos resistentes que não aceitaram a troca de títulos velhos por títulos novos a cerca de 30 por cento.  A Argentina não tinha nada: deveriam  ter aceite  a oferta de troca, respondiam. Mas os resistentes à troca persuadiram o juiz Thomas Griesa, um juiz federal de  Nova York, para emitir uma ordem, uma decisão,  sobre esta questão . Houve um recurso da Argentina. Os especuladores em questão  ganharam na apelação. Então eles ganharam novamente no Tribunal Supremo.

A Argentina tinha que efectuar  um pagamento devido sobre os  títulos em  troca ontem mesmo, ou realmente hà  um mês atrás mas vamos dizer ontem. A decisão de  Griesa impediu a  Argentina de fazer esse pagamento. Para fazer esse  pagamento e evitar entrar em incumprimento, a Argentina precisava de chegar  a um acordo com os irredutíveis à troca, os fundos especuladores chamados de fundos abutres, para que estes aceitassem levantar  a decisão judicial e  concordarem  com que se  levante a proibição. Então, após uma década de contencioso rancoroso, durante o  qual a Argentina insistiu firmemente que os “resistentes”  não conseguiriam um negócio melhor do que os  investidores que aceitaram fazer a troca , a situação  finalmente ficou  muito séria sobre como alcançar um acordo. A associação de bancos veio com um plano inteligente para comprar os  títulos dos resistentes à troca  que assim  evitariam  certos problemas técnicos com uma liquidação directamente entre os resistentes à troca  e o Ministro de Argentina.(1) E o ministro da Economia da  Argentina, Axel Kicillof, voou para Nova York para se encontrar com um mediador oficioso e os fundos abutres .

E o ministro  chegou a Nova Iorque. E ele entrou na sala. E respirou fundo..–aqui estou a fazer um certo dramatismo na  reconstruction (2) dramática..–e o Ministro  olhou para os resistentes à  troca dos títulos  olhos nos olhos  nos olhos. E disse –lhes  (mais ou menos):

Okay, estou pronto para um acordo. Deixemos-nos de evasões. Cheguemos pois a um acordo. Estou em condições de vos oferecer o seguinte acordo:

(Pausa Dramática.)

Dou-vos as mesmas condições que demos aos que aceitaram a troca de títulos em  2005. E os senhores são como eles, têm o mesmo tratamento que aos outros foi concedido. Igualdade por todo o lado.

É um resultado surpreendente. Porque  veio? Nós, o grupo dos resistentes, contra a troca de títulos, os holdouts,  temos vindo de processo  em processo  durante uma  década para conseguir um acordo melhor do que os detentores de títulos de troca. Nós chegámos ao Supremo nos Estrados Unidos que concorda connosco. Nós conseguimos colocar a Argentina à beira de um outro incumprimento. E Argentina mandou o seu ministro da Economia  voar até aqui, a Nova York,  para nos dizer: não, nós ainda preferimos não vos pagar! Que lata, que sem vergonha!

E  agora a Argentina entra em incumprimento,  mas mesmo com todos a sermos enganados. Eu escrevi ontem que “as chances de um acordo de curto prazo parecem-me que nunca estiveram  tão elevadas como agora “, porque pessoalmente  nunca iria  acreditar  que a viagem do ministro  Kicillof a Nova York  era pura pesca à linha para peixe demasiado grande. E os títulos a  “desconto” da Argentina  eram negociados a  mais de 95 centavos de dólar..–um rendimento percentual abaixo dos 9 por cento..–ontem, antes de caírem mais uma vez  para cerca de 90 esta manhã.

Assim, o que é que se segue? Acordo:

Uma possibilidade é a que haja realmente uma solução a curto prazo. “Enquanto o mercado está optimista de que vai ser encontrada uma solução nos próximos dias, o risco de execução é maior do que durante a situação de pré-incumprimento,” diz-nos um trader. Por um lado, a retórica e a estratégia do abismo  da Argentina não deveriam fazer  de  nenhum de nós confiante de que se vá alcançar um acordo. Kicillof disse, ontem, as mesmas coisas que a Argentina tem dito há anos, e que ainda não levaram  a nenhum acordo ainda. Felix Salmon não é optimista:

Nenhum abrandamento de tom na  retórica da Argentina, nenhum mesmo. Kicillof está a assumir a linha dura. Este incumprimento  está aqui para ficar.

(continua)

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(1)  Principalmente, uma cláusula de “direitos sobre futuras ofertas” sobre a  troca de títulos pode significar que, se os  holdouts, os abutres,  obtêm  60 centavos do dólar, em seguida, os detentores de títulos de troca podem exigir a mesma coisa. Mas esta cláusula expira em 31 de Dezembro de 2014. A ideia da Associação dos Bancos   seria que os bancos da Argentina poderiam pagar aos  holdouts a 60 centavos do dólar, levantando  a proibição e  mantendo os títulos  até o final do ano e ai,  então,  fazerem eles  um intercâmbio com a Argentina que faz com que este fiquem indemnes.

 (2) Estou a fazer tudo isso.  Eu não tenho nenhuma  ideia sobre o que aconteceu e estou a trabalhar para conseguir obter o inverso deste terrível resultado.

(3) Eu suponho? Quer dizer, Standard and Poor’s  considera a Argentina em incumprimento . O júri sobre os Credit Default Swap, os famosos CDS,  ainda não reuniu.  Acho que a Argentina está a dizer  que não está em incumprimento. Na verdade não acho que haja sobre esta questão  um debate interessante..—os detentores de títulos não foram pagos e portanto há incumprimento–mas suponho que outros irão discordar. Numa nota informava-se:

The International Swaps & Derivatives Association said it will rule on whether the missed bond payment means credit-default swaps have been triggered on Argentina’s $29 billion in overseas securities. A committee of 15 dealers and investors will meet at 11 a.m. in New York today. A ruling that a failure-to-pay credit event has taken place will trigger an auction which will ascertain sellers’ liabilities.

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Ver o original em:

http://www.bloombergview.com/articles/2014-07-31/yesterday-was-not-argentina-s-day

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Para ler a introdução de Júlio Marques Mota a este texto de Matt Levine, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá:

http://aviagemdosargonautas.net/2014/08/19/uma-nota-introdutoria-de-julio-marques-mota-ao-texto-ontem-nao-foi-um-dia-bom-para-a-argentina-de-matt-levine/

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