CELEBRANDO SOPHIA – 20 – por Álvaro José Ferreira

Nota prévia:

Para ouvir os poemas de Sophia (os recitados e os cantados), há que aceder à página

http://nossaradio.blogspot.com/2014/07/celebrando-sophia-de-mello-breyner.html

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

 

Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia - 1940

Sophia fotografada em 1940.

Capa do livro “Sophia de Mello Breyner Andresen: Uma Vida de Poeta” (Editorial Caminho, 2011), catálogo da exposição que esteve patente na Biblioteca Nacional, de 26 de Janeiro a 30 de Abril de 2011. «Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura. Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.»

Sophia de Mello Breyner Andresen (excerto inicial de “Arte Poética V”, in “Ilhas”, Lisboa: Texto Editora, 1989)

MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL

Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in “Mar Novo”, Lisboa: Guimarães Editores, 1958; “Obra Poética II”, Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 62)
Recitado por Luís Lucas* (in Livro/2CD “Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX”: CD1, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)

Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel

Isabel de Portugal
Ticiano, “Retrato da Imperatriz Isabel de Portugal”, 1548, óleo sobre tela, 117 cm×98 cm, Museu do Prado, Madrid

Nota:
D. Isabel de Portugal (Lisboa, 24 de Outubro de 1503 – Toledo, 1 de Maio de 1539)
Filha do rei D. Manuel I de Portugal e de D. Maria de Castela, contraiu matrimónio com o primo Carlos I de Espanha (futuro Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico), por procuração, em Novembro de 1525, vindo a encontrar-se com o marido em Março do ano seguinte nos Alcazares Reais de Sevilha, onde se realizaram as bodas nupciais.
Deslumbrado com a sua beleza, Carlos V outorgou-lhe, por nova divisa, as três graças, sendo a primeira a rosa, símbolo da formosura; a segunda, o ramo de murta, símbolo do amor; e a terceira, a coroa de carvalho, símbolo da fecundidade – além da insígnia Has habet et superat.
D. Isabel assegurou, com singular tino e prudência, a regência de Espanha durante as prolongadas ausências do marido que andava em guerra com meia Europa, vindo a falecer em Toledo, a 1 de Maio de 1939, não havia ainda completado 36 anos de idade, na sequência de complicações ocorridas durante o parto do sexto filho, que também pereceu.
O Duque de Gandía de seu nome Francisco de Borja y Trastámara, que era bisneto do papa Alexandre VI (Rodrigo de Borja) e se casara com uma das damas de companhia que D. Isabel havia levado de Lisboa, D. Leonor de Castro, e que Carlos V fizera seu valido e que nomeará depois (Junho de 1939) vice-rei da Catalunha, sentia pela imperatriz uma enorme afeição, um amor platónico, pode mesmo dizer-se. Quando foi aberto perante si o féretro que continha o cadáver, já em decomposição, daquela que fora a mais bela mulher do seu tempo, segundo alguns literatos, foi tão dolorosa a sua visão que terá exclamado: «Nunca volveré a servir a señor que se me pueda morir!». Depois de enviuvar, em 1546, Francisco de Borja abraçou a vida religiosa ingressando na recém-criada Companhia de Jesus, vindo a tornar-se, em 1556, superior-geral da ordem. Morreu em 1572, sendo canonizado em 1671, pelo papa Clemente X, como São Francisco de Borja.
Sabe-se que a famosa frase atribuída ao duque, e que deu mote ao célebre poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, intitulado “Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal”, foi proferida por São João de Ávila no ofício fúnebre da imperatriz. Tal não significa, em bom vigor, que seja da sua lavra. É possível que a tenha ouvido a Francisco de Borja ou que alguém lha tenha contado. (fontes: “Enciclopédia Fundamental Verbo” e “Wikipédia”)

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