
Selecção, introdução, tradução e notas por Júlio Marques Mota
O Estado islâmico, cancro do capitalismo moderno, por Nafeez Ahmed
Recordemos que Nafeez Ahmed é um politólogo britânico e jornalista de investigação, que trabalha com a BBC e o Guardian. É o director do Institute for Policy Research and Development de Brighton, e ensina na universidade do Sussex. Foi nomeado em 2003 para o prémio Napoli, equivalente do Goncourt francês.
Nafeez Ahmed, Islamic State is the cancer of modern capitalism
Les Crises.fr, 15 de Novembro de 2015
(CONCLUSÃO)
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O arco dos Estados muçulmanos em falta
No Iraque e na Síria, onde o Estado islâmico nasceu, o estado de devastação no qual a sociedade se encontra, na sequência de uma situação de conflito prolongado, não pode ser subestimada. A invasão militar e a ocupação do Iraque pelo Ocidente, com o seu lote de tortura e de violência cega, jogaram um papel inegável para abrir a via à emergência de uma política reaccionária extrema. Antes da intervenção ocidental, al-Qaeda estava totalmente ausente do país. Na Síria, a guerra brutal efectuada por Assad contra o seu próprio povo continua a ser a justificação para a presença do Estado islâmico e para continuar a atrair combatentes estrangeiros.
O contributo contínuo dado às redes islamitas extremistas tem sido de importantes somas de dinheiro e recursos materiais calculados em centenas de milhares de milhões de dólares (que ninguém está ainda em condições de quantificar na sua totalidade), coordenado por esta mesma interconexão entre governos ocidentais e muçulmanos, teve um impacto profundamente desestabilizador durante o último meio século. O Estado islâmico é o resultado pós-moderno surrealista desta sórdida história.
A coligação ocidental contra o Estado islâmico no mundo muçulmano compõe-se de regimes repressivos cujas políticas nacionais aprofundaram brutalmente as desigualdades, num mundo muçulmano esmagado por dissensões legítimas, com tortura sobre activistas políticos pacíficos e espicaçado pelos seus rancores profundos. São estes mesmos aliados que financiaram o Estado islâmico e que continuam a fazê-lo, o que é visto e bem conhecido pelos serviços secretos ocidentais.
Isto, apesar da escalada de crises convergentes que reinam na região desde há uma década. O professor Bernard Haykel, da universidade de Princeton, exprimiu-se a este respeito: “Vejo o Estado islâmico como um sintoma de um conjunto estrutural de problemas muito mais profundos no mundo árabe sunita… Isto [está ] ligado à política. À educação e nomeadamente a falta de educação. Ao autoritarismo. À intervenção estrangeira. À calamidade do petróleo… Penso ainda que mesmo que o Estado islâmico viesse a desaparecer, as causas subjacentes que são a causa do Estado islâmico não desapareceriam. E estas causas deveriam ser abordadas por políticas, reformas e mudanças conduzidas ao longo de várias décadas não somente pelo Ocidente, mas também pelas sociedades árabes.”
No entanto, como vimos aquando da primavera árabe, estes problemas estruturais foram exacerbados por uma verdadeira tempestade de crises políticas, económicas, energéticas e ambientais interdependentes, todas elas geradas pelo agravamento da crise do capitalismo mundial.
Numa região sujeita a secas prolongadas, a uma insuficiência na agricultura, a uma queda dos rendimentos petrolíferos devida ao pico petrolífero local, à corrupção e à má gestão económica agravada pela austeridade neoliberal, e assim sucessivamente, os Estados locais começaram a afundar-se. Do Iraque à Síria, do Egipto ao Iémen, é esta mesma interconexão entre crises climáticas, energéticas e económicas que desfaz os governos em presença.
A alienação no Ocidente
Embora o Ocidente seja muito mais resistente a estas crises mundiais interligadas, as desigualdades persistentes nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na Europa Ocidental , que têm tido um efeito desproporcionado sobre as minorias étnicas, as mulheres e as crianças, têm-se estado a agravar.
Na Grã-Bretanha, quase 70 % dos muçulmanos procedentes de etnias da Ásia do Sul e quase dois terços dos seus filhos vivem na pobreza. Um pouco menos de 30 % dos jovens muçulmanos britânicos de idade entre os 16 e os 24 anos estão desempregados. De acordo com Minority Rights Group Internacional, a situação dos muçulmanos britânicos em termos “de acessos à educação, do emprego e da habitação “tem-se deteriorado nos últimos anos em vez de ter melhorado. Esta degradação foi acompanhada “de um aumento inquietante da hostilidade aberta” expressa pelas comunidades não muçulmanas e por uma propensão crescente dos serviços de polícia e de segurança em visarem de maneira desproporcionada os muçulmanos em virtude da autoridade que lhes é conferida no âmbito da luta contra o terrorismo. As reportagens constantemente negativas difundidas pelos meios de comunicação social sobre os muçulmanos, a que se acrescentam as frustrações legítimas provocadas por uma política estrangeira agressiva e enganosa no mundo muçulmano, criam nos muçulmanos britânicos um sentimento de exclusão social associado à sua identidade.
É o conjunto destes factores que tem um efeito destrutivo sobre a formação da identidade, e não tanto sobre cada um destes factores tomados separadamente. Observados isoladamente, a pobreza, a discriminação, as reportagens negativas sobre os muçulmanos, e assim sucessivamente, não permitem necessariamente levar uma pessoa a ficar vulnerável à radicalização. Contudo, conjuntamente, estes factores podem forjar uma fixação a uma identidade marcada pela alienação, pela frustração e pelo falhanço.
A persistência destes problemas e a sua interacção pode contribuir para a forma como os muçulmanos da Grã-Bretanha procedentes de diversos horizontes se começam a ver como um todo. Em certos casos, isto pode gerar um sentimento ancorado de separação, de alienação e de desilusão em relação à sociedade em geral. O efeito desta identidade de exclusão sobre um indivíduo depende do ambiente específico, das experiências e das escolhas do indivíduo em questão.
As crises sociais prolongadas podem lançar as bases do desenvolvimento de ideologias destrutivas e xenófobas. Estas crises abalam os costumes tradicionais quanto à certeza e à estabilidade enraizadas nas noções estabelecidas de identidade e de pertença.
Enquanto que os muçulmanos vulneráveis se poderiam virar para a cultura dos gangs ou, pior ainda, para o extremismo islamita, os não-muçulmanos vulneráveis poderiam adoptar a sua própria identidade de exclusão ligada à grupos extremistas como a Liga de defesa inglesa, ou outras redes de extrema-direita.
Nos grupos de elites mais potentes, o sentimento de crise pode inflamar as ideologias neoconservadoras e militaristas que censuram as estruturas do poder em exercício , justificam o status quo, defendem o sistema deficiente que sustenta e apoia o seu poder, e diabolizam os movimentos progressistas e os das minorias.
Neste maelström, a injecção de milhares de milhões de dólares em redes extremistas islamitas que têm uma inclinação para a violência ao Médio Oriente dá poder a grupos que, anteriormente, não dispunham de apoios locais.
Enquanto que várias crises convergem e se intensificam, comprometendo-se ao mesmo tempo a estabilidade do Estado e desencadeando ainda maiores frustrações, este contributo massivo de recursos de que beneficiam os ideólogos islamitas é susceptível de atrair no cume do extremismo xenófobo os indivíduos em cólera, alienados e vulneráveis. Este processo conclui-se pela criação de autênticos monstros.
Uma desumanização
Enquanto estes factores elevaram até um nível crítico esta vulnerabilidade regional, o papel desempenhado pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha depois do 11 de Setembro de 2001, na coordenação do financiamento secreto fornecido pelos Estados do Golfo aos militantes islamitas extremistas através da região, basicamente lançou gasolina sobre o fogo.
As relações de que dispõem estas redes de islamitas no Ocidente significam que os serviços de informação nacionais periodicamente fecharam os olhos sobre os seus discípulos e infiltrados no seu próprio país, o que permitiu a estes últimos crescer, recrutar e enviar os candidatos ao Djihad no estrangeiro.
É por isso que a componente ocidental do Estado islâmico, embora muito mais pequeno que o contingente de combatentes que aderem ao grupo a partir dos países vizinhos, permanece largamente impermeável a qualquer debate teológico significativo. Não são movidos pela teologia, mas pela insegurança de uma identidade e de um psiquismo fracturados.
É aqui, nos métodos de recrutamento completamente calibrados do Estado islâmico e das redes que apoiam a sua organização no Ocidente, que podemos ver que o processo de doutrinamento psicológico se refinou ao longo dos anos devido às formações efectuadas sob a tutela dos serviços de informação ocidentais. Estes serviços de informação com efeito estiveram sempre implicados intimamente na elaboração de instrumentos violentos de doutrinamento islamita.
Na maioria dos casos, o recrutamento do Estado islâmico faz-se expondo os indivíduos a vídeos de propaganda cuidadosamente elaborados, desenvolvido através de métodos de produção avançados, e de que os mais eficazes estão cheios de imagens reais de massacres perpetrados pela força de fogo ocidental contra os civis iraquianos, afegãos e palestinos, ou por Assad contra os civis sírios.
A exposição constante a estas cenas horríveis de atrocidades perpetrados pelo Ocidente e pela Síria pode frequentemente ter um efeito similar ao que se poderia alcançar se estas cenas fossem vividas directamente, ou seja, uma forma de traumatismos psicológicos que pode mesmo provocar um stress pós-traumático.
Estas técnicas de propaganda sectária contribuem para agitar emoções terríveis de choque e de cólera, que por sua vez servem para destruir a razão e desumanizar “o Outro”. O processo de desumanização é concretizado com a ajuda de uma teologia islamita pervertida. O que importa, não é a autenticidade desta teologia, mas sim a sua simplicidade. Esta teologia pode fazer maravilhas sobre psiquismos traumatizados por visões de mortes em massa e de que a capacidade para raciocinar fica bloqueada pela situação de raiva criada.
É por isso que o recurso a uma literalidade levada ao extremo e completamente descontextualizada é uma característica tão comum aos ensinos islamitas extremistas: com efeito, para um indivíduo crédulo, tendo um fraco conhecimento da erudição islâmica, à primeira vista tudo aquilo parece verdadeiro sobre o plano literal.
Baseadas em décadas de interpretação errada e selectiva dos textos islâmicos pelos ideólogos militantes, as fontes são extraídas com cuidado e escolhidas sobre a vertente para justificar o programa político do movimento: um reino tirânico, massacres maciços e arbitrários, a subjugação e a dependência das mulheres, e assim sucessivamente, elementos que se tornam todos eles parte integrante da sobrevivência e da expansão “do Estado”.
Dado que a função principal da introdução do raciocínio teológico islamita extremo é a de legitimar a violência e sancionar a guerra, este trabalho é conjugado a vídeos de propaganda que prometem o que ao recruta vulnerável parece faltar, a glória, a fraternidade, a honra e a promessa da salvação eterna, pouco importa os crimes ou delitos que possam ter sido cometidos no passado.
Se acrescentarmos a isto a promessa do poder (o poder sobre os seus inimigos, o poder sobre as instituições ocidentais supostas terem eliminado os seus irmãos e irmãs muçulmanos, o poder sobre as mulheres), bem como um hábito (fato) religioso e das reivindicações de devoção suficientemente convincentes, então as sirenes do Estado islâmico podem ficar irresistíveis.
Isto significa que a ideologia do Estado islâmico não é o factor determinante da sua eclosão, da sua existência e da sua expansão, embora seja importante compreendê-lo e contestá-lo. A ideologia é simplesmente o ópio do povo de que este se alimenta e com que alimenta os seus potenciais discípulos.
Em suma, o Estado islâmico é um cancro do capitalismo industrial moderno em pleno desmoronamento, um subproduto fatal da nossa dependência inabalável ao ouro negro, um sintoma parasitário da escalada das crises de civilização que agitam ao mesmo tempo o mundo muçulmano e o mundo ocidental. Enquanto não se atacarem as raízes destas crises, o Estado islâmico e o seus semelhantes não são prontos para desaparecer.
Nafeez Ahmed, Islamic State is the cancer of modern capitalism. Texto disponível em:
http://www.middleeasteye.net/columns/cancer-modern-capitalism-1323585268
Este texto foi publicado em Middle East Eye e encontra-se disponível na versão francesa em Les-crises.fr com o título L’Etat islamique, cancer du capitalisme moderne, no seguinte endereço :
https://www.les-crises.fr/letat-islamique-cancer-du-capitalisme-moderne-par-nafeez-ahmed/
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Para ler a Parte II deste trabalho de Nafeez Ahmed, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
O ESTADO ISLÂMICO, CANCRO DO CAPITALISMO MODERNO, POR NAFEEZ AHMED – II
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