Um poeta português no Festival Internacional de Poesía de Medellín – por Carlos Loures

 A Augusta Clara de Matos lamentava ontem que no excelente Festival Internacional de Poesía de Medellín não houvesse representação portuguesa. De facto, assim aconteceu na 21ª edição do certame. No entanto, já ali esteve um poeta português. Não sei se foi caso isolado, mas em 1997, no 7ª Festival, o poeta português Egito Gonçalves, meu amigo e companheiro de muitas andanças políticas e literárias, ali esteve e declamou “Morte no Interrogatório”, do seu livro «Os Arquivos do Silêncio» – um poema notável, belo e corajoso. Não me recordo de outras presenças portuguesas, embora as deva ter havido. José Craveirinha, o grande poeta de Moçambique, foi ali recordado e tem havido  representações brasileiras.

 

Tentarei saber se houve mais poetas portugueses em Medellín. Para já deixo aqui uma pequena nota sobre Egito Gonçalves e o poema “Morte no Interrogatório”.

 

 Egito Gonçalves nasceu em Matosinhos, em 8 de Abril de 1922, e morreu no dia 29 de Janeiro de 2001 na cidade do Porto. Os seus primeiros poemas datam de 1941, quando cumpria serviço militar em Ponta Delgada. Aderiu ao MUD

 

(Movimento de Unidade Democrática) e participou na campanha do general Humberto Delgado. O poema «Notícias do Bloqueio», escrito em 1952, é um dos mais belos da poesia portuguesa contemporânea, estando traduzido e muitos idiomas. Premiado com frequência, inclusive por academias e instituições estrangeiras, foi-lhe outorgado em 1995 o Prémio de Poesia do Pen Clube, bem como o Grande Prémio de Poesia de Associação Portuguesa de Escritores pelo seu livro «E no Entanto Move-se»). Tendo recebido diversas condecorações, foi em 1994 agraciado pelo presidente da República com o Grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. A produção literária de Egito Gonçalves está espalhada por cerca de 20 colectâneas poéticas, das quais destacamos: «A Viagem com o Teu Rosto» (1958), «Falo de Vertigem» ) e «No Entanto Move-se» (1995).  

 

MORTE NO INTERROGATÓRIO

Às três da madrugada eu dormia sem sonhos.
Minha mulher dormia a meu lado. Eu tinha
uma da mãos pousada sobre a sua coxa.

Uma lua de outono brilhava sobre as ruas;
um ar agreste preparava as noites para o inverno.

Às três da madrugada os companheiros
dormiam quase todos. Um deles, porém,
regressava, fatigado, de um trabalho nocturno.

Era a hora dos fogos-fátuos sobre as campas;
a hora em que os exilados buscam o sono em comprimidos.

Às três da madrugada sua mulher ainda velava.
Embrulhada num xaile tinha um livro entre as mãos;
insone, acendera a luz havia meia hora.

Na sala o interrogatório atravessava o tempo;
lâmpadas de mil vátios tornavam a vida irrespirável.

Às três da madrugada o coração fraquejou
e os dois comissários ficaram perante um homem morto
e dois cinzeiros com trinta pontas de cigarros.

Egito Gonçalves

 

 

 

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