José Afonso – A nossa voz (3) – por Carlos Loures

Subitamente, Grândola

 

Em Maio de 1972, numa récita em Santiago de Compostela, José Afonso estreia Grândola Vila Morena. Em 1964 é editado um novo disco – Coro dos Caídos, Maria, Vila de Olhão, Canção do Mar. Na noite de 17 de Maio desse ano, actua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, a «Música Velha», como a colectividade é designada pelas gentes da terra. Aqui se inspira para a criação de Grândola, Vila Morena (que dedica à colectividade), canção que viria a estrear num récita que realizará em Maio de 1972, em Santiago de Compostela. Aliás, essa noite de Maio de 1964, pode dizer-se, muda a sua vida.

 

Canta perante uma assistência constituída maioritariamente por gente pobre, mas faminta de cultura – trabalhadores da indústria corticeira, amadores de música, ceifeiras, alguns clandestinos ligados ao Partido Comunista… José Saramago, então um escritor quase desconhecido, está também entre a assistência. Mais tarde, após a morte de Zeca, Saramago interroga-se sobre o que José Afonso sentiria se pudesse observar o rumo social e político do Portugal dos nossos dias – «Creio que estaria, pelo menos, tão desanimado como eu», conclui o Nobel. Nesta sessão conhece Carlos Paredes, o prodigioso guitarrista – «o que esse bicho faz com a guitarra!», exclama Zeca numa carta aos pais. Compra uma pequena parcela de terreno em Grândola, com uma modesta casa, onde gosta de passar os seus tempos livres. Grândola cativara-o definitivamente pelo ambiente fraterno que envolvia as suas gentes. Pedro Martins da Costa, militante do PCP e, a partir de 1974, vice-presidente do município durante mais de 25 anos, presente no famoso concerto de 1964, diz que ao Zeca agradou sobretudo a igualdade que ali existia antes e depois da Revolução de Abril – continuaram a ser «tão igualitários que nem se sabia quem era o presidente».

 

A letra da canção não constitui, portanto, um conjunto de simples metáforas… Durante anos, na placa toponímica da vila, fechando o círculo de interacções entre a «cidade» e o seu cantor, lia-se. Grândola, Vila Morena – Grândola mudou a vida de Zeca e Zeca alterou a vida e a história da vila (actualmente, a placa foi retirada – decisão política?) Como se diz numa reportagem de Miguel Mora publicada no El País (9 de Agosto de 2007): «Hoje, em pleno centro de Grândola, a Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, continua de pé, sóbria e austera. Resiste, embora tenha estado durante algum tempo fechada e rodeada de tapumes para reconstrução. O tijolo, a construção civil, foram substituindo a pouco e pouco a cortiça, o arroz como fonte de riqueza do concelho». No interior vazio da Música Velha, subsistem, pelo menos no imaginário dos que amam a liberdade, os ecos nostálgicos do que ali ocorreu naquela noite mágica de Maio de 1964.

 

Cantares

 

Ainda em 64, é editado o EP Cantares de José Afonso. Sai também a público o álbum Baladas e Canções (reeditado em CD em 1996). Neste ano parte para Lourenço Marques, dando aulas, primeiro nesta cidade e, depois, em 1966 e 1967, na Beira. Nesta cidade, compõe a música para a peça de Brecht A Excepção e a Regra. Trabalha também no Centro Associativo dos Negros, dirigido pelo Dr. Luís Arouca. Em 1965 nasce a sua filha Joana e em 1967 regressa a Portugal. É colocado como professor em Setúbal. Devido a uma grave crise de saúde, é internado numa clínica. Quando sai, 20 dias depois, fora expulso do ensino oficial. Estamos em 1968. Embora mais tarde venha a ser readmitido, opta por se dedicar exclusivamente à música.

 

A Nova Realidade, uma pequena editora de Tomar, publica o livro Cantares de José Afonso, com um prefácio de Manuel Simões. O livro, que contém as letras das canções e notas do autor, esgota-se em poucos dias. Sai uma segunda edição que acaba por ser apreendida pela polícia política. Em 1992, com a chancela da Fora do Texto, uma cooperativa editorial de Coimbra, sairá a 3ª edição que, além do prefácio de Manuel Simões, terá também novos textos introdutórios deste e de Rui Mendes, Ainda em 1968 é editado o álbum Cantares do Andarilho. Zeca participa activamente na CDE de Setúbal durante a campanha para eleição de deputados à Assembleia Nacional que se segue à «queda da cadeira».

 

Em 1969 saem o álbum Contos Velhos, Rumos Novos e o single Menina dos Olhos Tristes e Canta Camarada, canções em que é acompanhado à viola por Rui Pato. É distinguido com o prémio da Casa da Imprensa para o melhor disco. Nasce o seu filho Pedro. Em 1970, a Nova Realidade lança o livro Cantar de Novo, com uma introdução do poeta António Cabral (1931-2007). É editado o álbum Traz Outro Amigo Também, gravado num estúdio de Londres. Desta vez, Rui Pato não o poderá acompanhar, pois a polícia política não autoriza a sua saída do País. Ganha novamente o prémio da Casa da Imprensa. Vai a Cuba participar num Festival Internacional de Música Popular.

 

 

 

 

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