A Respeito de Factores de Risco (uma visão pessoal) 1 – Adão Cruz (médico cardiologista)

 

(Adão Cruz)

 

Teoricamente, não é difícil conceber os caminhos para uma sociedade saudável, justa e equilibrada.

 

1 – Prioridade máxima às crianças, a todas as crianças, sementes da saúde de uma sociedade futura.

2 – Educação e Cultura, sangue de uma sociedade nova.

3 – Justiça social, fiel da balança de qualquer sociedade.

 

Na prática, tais caminhos são de difícil percurso, por quatro razões principais:

 

1 – Os ricos e poderosos são, de uma maneira geral, cegos e egoístas, tendo como principal objectivo na vida a acumulação de dinheiro, e não vêem ou não querem ver que é muito maior a felicidade de viver numa sociedade justa e equilibrada do que a felicidade de contemplar a pobreza do alto de um pedestal.

2 – O poder político pouco mais é do que o executor dos interesses do poder económico. Além disso, os políticos são, muitas vezes, medíocres, facilmente corruptos, insensíveis e sem visão construtiva de um mundo que colide, de algum modo, com os seus interesses pessoais e de grupo.

3 – O povo não é suficientemente culto para entender as complexas relações de causa e efeito, daqui decorrendo a sua incapacidade para romper o amorfismo e empreender as mudanças de comportamento necessárias à germinação da semente de uma sociedade nova.

4 – Os mais responsáveis, os ditos intelectuais, aqueles que, por força do conhecimento, mais próximos deveriam estar da verdade e da moral, os detentores da ciência nos seus mais diversos ramos, os agentes da abertura das mentalidades, estão obrigatoriamente enfeudados, consciente ou inconscientemente, nas formas de pensamento impostas pelas linhas dos grandes interesses.

 

Estas razões constituem, a meu ver, os maiores e mais graves factores de risco da nossa sociedade doente, razões a que não se alude em nenhuma das inúmeras conferências e revistas sobre o tema, e que sistematicamente se escamoteiam para não descarnar a verdade, sempre incómoda.

 

Tudo isto vem a propósito dos Factores de Risco das doenças dos nossos dias, sobretudo das doenças cardiovasculares.

 

Doenças a que os poderosos, os políticos, os corruptos, os senhores das grandes fortunas, muitos deles vivendo do sangue dos outros, não estão imunes, por mais caras que paguem as radiografias dos seus corpos e das suas almas. Serão estúpidos, se pensarem que os males sociais não lhes tocam, a eles, aos seus filhos e aos seus netos.

 

Sabemos que são vários os comportamentos, no que respeita ao estilo de vida, capazes de promover o desenvolvimento das manifestações clínicas de muitas doenças, sobretudo das doenças degenerativas, cardiovasculares e outras. Hiperalimentação e dietas pouco saudáveis, dislipidemias, sedentarismo, obesidade, hipertensão, diabetes, tabagismo etc. Inúmeros estudos se têm debruçado sobre estes factores de risco, amplamente divulgados por tudo o que é revista científica ou de cabeleireiro, e por toda uma comunicação social interessada em transmitir ideias e imagens, ditas modernas, mas que não façam ondas, cumprindo os desígnios de quem a comanda e os desígnios dos encomendadores de notícias, mais interessados numa desinformação, ignorante e acrítica, do que na séria elucidação das pessoas.

 

A medicina actual tende a identificar prevenção e terapêutica com fármacos, ficando cada vez mais dependente da indústria farmacêutica e mais enleada nos seus pressupostos. A interdependência entre a indústria e a ciência médica é um facto incontestável, e tudo isto não seria negativo se não fosse, muitas vezes, perverso. Tudo isto poderia ser francamente positivo, se não procurasse transformar os médicos e as associações médico-científicas em assessores. Assentesapenas nos contributos monetários dos seus membros, tais associações dificilmente sobrevivem sem a substancial ajuda das empresas farmacêuticas, venerandos parceiros de uma investigação tão útil quanto astuciosa e estratégica. Não há, hoje em dia, congresso, simpósio ou seminário que não tenha como objectivo principal a divulgação de estudos e trabalhos que levem à promoção e venda de remédios e aparelhos. Toda a constelação de iniciativas humanitárias e campanhas de sensibilização e rastreio, não passam de eufemismos e processos de convergência para fins que pouco têm a ver com a preocupação da saúde da humanidade. As associações médico-científicas, que deveriam ser o mais autónomas e independentes possível, são as ideais correias de transmissão, credibilizadas por uma autoridade, que em termos científicos e de investigação lhes é, tacticamente e principalmente fornecida pela indústria. Torna-se triste ver e ouvir palestrantes de congressos debitar sabedorias que muitas vezes não têm, e nada mais são do que recados ou mera transmissão da investigação de outros, nem sempre credível do ponto de vista da moral científica e do bom-senso. Surgem, como conferencistas, em matérias que nunca investigaram, e assinam, muitas vezes acriticamente e a troco de benesses os resultados que lhes impõem. São os recrutados da Opinion Leader Management. Todos sabemos que muitos dos artigos científicos das melhores revistas médicas constituem a melhor estratégia dos vendedores de doenças e terapêuticas, artigos especializados, aparentemente objectivos e independentes. Mas também não ignoramos que muitos deles são planeados, encomendados, propagandeados, e por vezes ajustados a interesses que não estão no caminho da saúde da humanidade.

 

Na grande mesa-redonda dos congressos, a mesa de primeira, a mesa central do poder científico, o altar-mor, reza-se a missa solene. Mas para que ninguém se sinta fora do banquete, permite-se e até se paga, paralelamente, a elaboração de miríades de trabalhos de segunda. Se os há com indiscutível interesse clínico, na sua maioria não passam de especulações pseudo-científicas, sem qualquer repercussão na saúde dos pacientes, apenas para fazer currículo, pouca ou nenhuma mais-valia trazendo à saúde. Como se costuma dizer, nem oito nem oitenta ou tudo o que é de mais é moléstia. Parafraseando um colega, os congressos são como as romarias, onde se fortalece o espírito de grupo e se combina a feira com a missa, o contrato com a festa, a medicina com a liturgia, a palestra com o sermão, o palco com o púlpito. Os próprios diapositivos modernos, as tábuas sagradas do PowerPoint, mais preocupados com a sugestão, a insinuação e o aliciamento do que com a verdade do conteúdo, tantas vezes pagos, fornecidos e submetidos pelas próprias empresas à censura das Slide Reviews, são como retábulos a ilustrar o evangelho, desde o discreto até ao excesso barroco, tão sobrecarregados de adereços que às vezes é difícil descobrir o motivo.

 

Se há médicos conscientes e críticos, que não submetem, de ânimo leve, a sua ética a estas práticas e a estas normas, outros há que se deixam arrastar pelos campos magnéticos desta indústria, situando-se nas órbitas seguras de todas as suas esferas de influência e acção, dando por vezes uma triste imagem de submissão.

 

Ninguém pretende negar o valor da investigação. Pelo contrário, os médicos têm a obrigação de a enaltecer, sobretudo perante a inoperância, a negligência e a incapacidade do Estado, realçando o papel do estudo e do conhecimento nas mais importantes descobertas da actualidade. No entanto, a despeito de se terem encontrado fármacos quase milagrosos, a despeito de se terem desenvolvido métodos eficazes e fiáveis para se obterem estimativas do risco cardiovascular e se criarem normas de boa prática clínica, é muito redutor cingir a prevenção ao uso de fármacos, como insinua a profusa propaganda das revistas médicas, acriticamente consentida, que à semelhança das revistas de quiosque mais parecem propagandear perfumes e detergentes, como se os médicos não passassem de receptivas donas de casa delirando com as milagrosas propriedades do Tide e do Presto. A própria indicação de práticas higieno-dietéticas, de difícil realização numa sociedade carenciada como a nossa, bem como a sensibilização através de campanhas de marca e bem-me-quero  protagonizadas por simpáticas senhoras, pouco ou nada sensibilizam, transformando-se, por vezes, em mero folclore e em mais um processo para aumentar o consumo irracional de exames e de drogas, ao fim e ao cabo, o objectivo de todos os magnânimos patrocinadores.

 

Tais campanhas deveriam fazer parte, isso sim, de um profundo trabalho de pedagogia política e social desde a instrução primária, com lúcido empenhamento de todos nós e do Estado. Apesar das curvas de declínio na mortalidade cardiovascular, após a utilização e divulgação de todas as descobertas e novas medidas decorrentes da investigação, nem tudo são rosas. Não nos podemos esquecer de uma realidade intencionalmente escondida, as graves consequências iatrogénicas, isto é, as consequências resultantes do mau uso e abuso dos medicamentos e das más práticas médicas, seja a iatrogenia química, a iatrogenia dos inúmeros exames dispensáveis, a iatrogenia invasivo-interventiva, a iatrogenia social ou económica, incidindo muito especialmente na terceira idade, a maior vítima da irracional medicalização e instrumentalização da vida. Uma loucura e uma catástrofe, pouco perceptível a uma parte dos médicos, incapazes de parar para pensar.

 

(continua)

 

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