O Centenário de Manuel da Fonseca – 1911-1993

 

Da esquerda para a direita, Artur Fonseca (irmão de Manuel), Luiz Pacheco e Manuel da Fonseca (em 1981).

 

 

Passa no próximo dia 11 de Outubro o centenário do nascimento de Manuel da Fonseca. Pela grande qualidade literária deste autor, grande vulto da literatura contemporânea, 11 de Outubro publicaremos textos de Manuel da Fonseca e também trabalhos sobre a sua obra.

 

 

As Balas

 

 

Dá o Outono as uvas e o vinho

Dos olivais o azeite nos é dado

Dá a cama e a mesa o verde pinho

As balas dão o sangue derramado

Dá a chuva o Inverno criador

As sementes da sulcos o arado

No lar a lenha em chama dá calor

As balas dão o sangue derramado

Dá a Primavera o campo colorido

Glória e coroa do mundo renovado

Aos corações dá amor renascido

As balas dão o sangue derramado

Dá o Sol as searas pelo Verão

O fermento ao trigo amassado

No esbraseado forno dá o pão

As balas dão o sangue derramado

Dá cada dia ao homem novo alento

De conquistar o bem que lhe é negado

Dá a conquista um puro sentimento

As balas dão o sangue derramado

Do meditar, concluir, ir e fazer

Dá sobre o mundo o homem atirado

À paz de um mundo novo de viver

As balas dão o sangue derramado

Dá a certeza o querer e o concluir

O que tanto nos nega o ódio armado

Que a vida construir é destruir

Balas que o sangue derramado

Que as balas só dão sangue derramado

Só roubo e fome e sangue derramado

Só ruína e peste e sangue derramado

Só crime e morte e sangue derramado.

Manuel da Fonseca, in “Poemas para Adriano”

 

 

 

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