O MUNDO DA INFÂNCIA –I AS MINHAS MEMÓRIAS INFANTIS – 1 – por Raúl Iturra

http://www.youtube.com/watch?v=V92OBNsQgxU

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Wagner a cavalgada das walkirias

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 http://www.youtube.com/watch?v=8Akgmq-A6gg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tchaikovski   Album for children

 


                   

Parece um mundo feliz, especialmente se o bebé que nasce é resultado de uma grande paixão. As paixões têm a sua história pessoal e privada, como essa, que anos mais tarde, produziu o bebé deste ensaio. Paixões com cronologia, tempo e espaço que pertencem apenas aos que entram em amores mútuos. 

 

Começava o ano académico na Pontifícia Universidade de Valparaíso. Ele, tinha, por teimosia, contradizendo a família, abandonado a casa paterna, a da cidade e a do fundo (fazenda em língua lusa), onde as aborrecidas obrigações, como a de supervisor do trabalho dos jornaleiros, caseiros, a orientação das malhas (trilla, em castelhano chileno), eram, para ele, que vestia como os jovens da sua classe social, elegantes e bem-parecidos, uma ofensa. A mãe foi sua cúmplice, embarcou num comboio com destino à cidade onde existia a licenciatura que queria estudar: engenheria. Todavia, o seu projecto sofreu alguns percalços, no transporte conheceu uma maestra (professora) que o seduziu, resultado ficaram juntos vários dias na capital do país. Lembrando-se, mais tarde, do compromisso que tinha firmado com a sua mãe. Assim, como todo o sedutor, deixou a jovem professora, prosseguindo a viagem empreendida dias antes. Foi acolhido em casa de uma família amiga de Concepción, os Philippi. Emílio (mais tarde Embaixador do Chile em Portugal), jornalista e fundador da Escola de Jornalismo da Universidade Central do Chile, conhecia este aspirante desde os 5 anos, ensinou-lhe escrita e leitura e, em Valparaíso, acolheu-o, como se fosse seu filho, com Genoveva, a sua mãe. Era o menino mimado dos Philippi[1].

 

 

As aulas começaram, tendo, previamente, estes descendentes de italianos, matriculando-o e, ele, não tinha outra alternativa que cumprir o seu capricho e estudar para a sua pretensão.

 

Nesse primeiro dia de aulas, mal entrou pela porta principal da Universidade, conheceu uma rapariga – este aspirante não podia viver sem elas – que o encantou. Sem se lembrar das horas, aproximou-se dela e reparou que era uma Dama Espanhola de famílias antigas e endinheiradas. Ela ia estudar Matemática e Línguas. Entre namoro e namoro, amores castos e celibatários, completaram os seus cinco anos de estudo, graduaram-se, e uma dor intensa de emotividade e ciúmes trespassou-o e chorou. Ela, forte e destemida, falou com o seu pai, que desconhecia os amores da sua filha, tinha uma casa de dois quarteirões e, como acontece em todas as cidades universitárias, alugava quarto para estudantes de fora. Ele mudou-se da casa dos Phillippi para a da sua pretendida. Somente a grande amiga, Fany Lozano Rubio, sabia o que se passava entre ambos e, naturalmente, passou a ser a chaperona destes amores castos e escondidos. A pretendida trabalhava com advogados, o pretendente viajava por causa dos seus trabalhos de engenheria naval.

 

Pretendente que não suportava a paixão que o alagava, a família estava distante, não havia ninguém para pedir a mão da rapariga. A pretendida, forte como era, falou com o seu pai, que tinha cinco filhas para casar, anunciou o seu noivado, com Fany sempre perto dela, como se ela fosse o pai que cumpria um dever social. O compromisso foi anunciado em casa do pai, com Missa e cocktail, como mandam os costumes de uma sociedade que estudei, e escrevo os resultados neste minuto, por não gostar desse tipo de hábitos. Costumes pelos que, mais tarde, eu também passei , e os nossos descendentes…e o que virá…

 

O pretendente, após confessar-se como hipotético sogro: quem era, qual a sua família, quais os seus pergaminhos, fortuna e posses, ficou autorizado a casar com a menina dos seus sonhos. A 29 de Agosto de 1937, toda a família acompanhou a noiva, com pajens e damas de honor, os donos das indústrias de Valparaíso, das curtidoras de Buenos Aires….cheirava dinheiro. Apesar disso, a noiva gostava de trabalhar e muito bem o fazia. Ainda solteira, morava na casa paterna, entregando o seu ordenado ao pai, reservando uma parte para a sua autonomia, que sabia usar e respeitar. Algum tempo depois do anúncio do casamento, nas capitulações que a lei manda fixar em lugares públicos, a data foi marcada, mas duas surpresas vieram ao encontro da pretendida dama: uma, a família do noivo anunciou que não viria por este ter rompido o compromisso ancestral de casar com uma pessoa de família, e Ema ficou frustrada na sua terra de Concepción: eram maus costumes, esse de casar apenas dentro da família para não dividir heranças, mas juntá-las. A segunda, nos típicos chás de quinta-feira à tarde, no famoso café Riquet, centro das reuniões e festas dos ricos de Valparaíso e Viña del Mar, foi-lhe anunciado pelo já noivo que, a partir do dia do matrimónio, não trabalharia mais, porque uma senhora é para tomar conta da casa e da prole. O casamento podia não acontecer com tantas estruturas pré definidas: ela adorava a sua autonomia, ganhar o seu dinheiro, não depender do marido, tal como nunca tinha dependido do seu pai. A ameaça foi dura: ou fazes como eu mando, ou não há casamento. Foi assim que o noivo mostrou as suas agalhas de patrão, mandava e gostava de ser obedecido, sem resposta. A noiva calou, despediu-se dos seus chefes, porque outro escravizador de fêmeas tinha aparecido. Calma e serena, diferente do seu pretendente que tinha um temperamento azedo e gostava de ser servido pela sua mulher, como, aliás, sempre foi. Até começarem a aparecer os rebentos. Mas, o esforço era grande e nada acontecia. Apenas quatro anos depois, nasceu o tão desejado descendente. O marido apenas sabia mandar e ser obedecido sem ninguém refilar pelas suas ordens. Queria um filho varão e que tivesse o seu nome. Não esqueçam os leitores que estamos a falar dos anos trinta e quarenta do Século XX. A vida era diferente, a História tem o seu andar cronológico, interactivo, pacífico e calmo ou com guerras que surgem em alguns cantos do Universo. Este matrimónio foi celebrado na época da guerra civil espanhola e da invasão nazi na Europa.

 

O que interessa neste minuto é saber como se desenvolve o mundo da criança. O esperado bebé trouxe com ele a demonstração, por parte da sua mãe (que por desespero ia à Missa onde fazia votos para milagres, com o desejo de engravidar), de que era fêmea e podia dar à luz. O marido devia zarpar num barco, mas as dores de parto começaram o que o levou a adiar a partida. Acompanhou, nos demorados dias de dar à luz, a sua mulher, mas mal o bebé nasceu partiu, regressando cinco meses depois, período em que o bebé permaneceu na casa dos avós, não era necessário ter casa: mulher mãe, só e sem saber como eram criados os filhos, precisava de companhia. Os avós do novo neto, tinha uma corte de parentes e nanas, para o servir, entre avós, tios novos solteiros que lutavam para acariciar o bichinho, mas com a prudência necessária para não o acordar. O bebé não mamava, engolia o leite da mãe, enquanto ela cantava acompanhada pela sua irmã mais nova, ainda viva. O pai da criança não corria, voava para ver esse seu primeiro rebento, que adorava. Quando, um dia, a mãe do pequeno o mandara, com a sua nana, ao passeio da rua para que tomasse sol. O novo pai perguntava com urgência qual de todos eles era o seu filho… mas o pequeno reconheceu a mãe, esticou os braços na procura do colo materno….e o pai quis dar-lhe colo, abraça-lo com o mais profundo amor, mas o bebé chorou tanto, que, o novo pai, cheio de raiva, entrou em casa e nem quis ver o filho. A sábia mãe soube acalmar esse furioso pai, soube ensinar-lhe a mostrar a sua real tristeza, dizendo-lhe que não era menos masculino se abrisse a torneira do pranto. Existe esse parvo adágio de que os homens não choram a que ele aderira. Desde pequeno, tinha sofrido muito na sua vida. Adulto já, apenas queria divertir-se, brincar com os filhos e adoptar a família da sua mulher, como a sua. Tinha excelente fama de ser um homem divertido: sabia cantar, contar histórias, reais ou inventadas. A sua mãe tinha falecido quando ele tinha dois anos de idade. Moribunda, solicitou à sua prima consanguínea, filha de uma irmã do seu pai, que tomasse conta do garoto. Bem sabia que o pai, mais velho que ela, ocupado com os negócios das suas terras, essas mais de vinte casas que tinha para alugar e outros comércios, especialmente políticos, como conselheiro da comuna de Hualqui, onde possuía a maior parte das terras, ou aconselhar os seus primos intendentes e senadores, não teria tempo para se importar com a vida do pequeno. A prima directa prometeu e tão bem, que até casou com o viúvo e passou a ser mãe do pequeno órfão, pequeno que sempre a chamou mamã.


[1] A história pode ser lida no meu livro de 2010: Para sempre tricinco. Allende e Eu, Capítulo 6, Editado por Carlos Loures, Estrolabio, ligação  http://estrolabio.blogs.sapo.pt/523682.html

 

(Continua)

 

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