Um texto sobre o acordo estabelecido com o Partido Republicano ou talvez com a minoria do Tea Party, um texto que nos levanta questões sérias mas discutíveis sobre a política de diálogo e de conciliação do Presidente Obama, política que esta que o faz ir perdendo pontos de apoio à esquerda e simultaneamente faz com o que seu projecto de política para a América se vá ele próprio pouco a pouco desfigurando. Disso são prova as concessões feitas e para termos um sinal basta lembrar, e os mercados lembraram-no bem, que uma descida de rating custaria ao contribuinte entre 100 a 200 mil milhões de dólares. Não se deu a descida do rating mas deu-se a queda de um principio fundamental nesta triste história: os ricos não pagam a crise, e mais uma vez. Compromissos ou momentos de espera da equipa de Obama. Para Robert Kramer trata-se de compromissos, de abdicação, para nós trata-se de mais um compasso de espera. Entre as duas leituras, venha mais uma dos nossos leitores. Mas uma coisa é certa: este texto vale inclusive por nos mostrar como é que uma extrema direita aguerrida, mesmo minoritária, pode chegar ao poder e mesmo democraticamente, como ao poder também chegaram Hitler e Mussolini. Que os neoliberais não se esqueçam, ao menos disto.
Júlio Marques Mota
Parte II-D : Os rufiões de Agosto
Robert Kuttner
Vamos encarar de frente uma verdade importante: Os Estados Unidos têm-se tornado ingovernáveis, excepto em termos da extorsão promovida pela extrema-direita.
Pela primeira vez na história moderna, um dos dois maiores partidos está nas mãos de uma facção tão extrema que está disposta mesmo a destruir a economia se não se seguir o seu caminho.
E os republicanos Tea Party tem uma plano perfeito no presidente Barack Obama. O acordo orçamental é a conclusão lógica da premissa de Obama de que a maneira de lidar com os parceiros da extrema-direita é a de os manter apaziguados. Ele é o saco perfeito para amortecer as pancadas. Ele pode ser acusado de ser um liberal de extrema-esquerda como pode acusado de ser um fraco.
Nós não tínhamos que chegar a esta situação. Em qualquer um dos vários pontos nos últimos dois anos, um presidente democrata poderia ter denunciado a pura perversidade das políticas que os republicanos têm estado a exigir. A maioria dos eleitores não quer cortes na Segurança Social, Medicare ou Medicaid . O plano de Paul Ryan “Roteiro para o Futuro da América” por si só, nas mãos de um presidente democrata politicamente competente, deveria, por si-só ter sido suficiente para destruir a credibilidade dos republicanos.
Se se quiser ver como um líder eloquente, persuasivo e politicamente democrático se comporta, basta ouvir o discurso de Nancy Pelosi proferido no sábado.
Tivesse Obama falado com esta clareza e então o programa republicano e a sua política teria sido claramente exposta, criticada e colocada depois em quarentena.
Mas nesta semana foi Pelosi, que ficou isolada pelo jogo que a Casa Branca estava a fazer. Tacticamente, os democratas da Câmara opuseram-se ao projecto de lei de Boehner e apoiaram o plano do senador Harry Reid, para obter uma extensão de dívida sem sacrificar o Medicare, Medicaid ou a Segurança Social. Mas à medida que o fim de semana ia passando, o Plano de Harry Reid passou a parecer-se cada vez como sendo o plano de Boehner.
Os democratas, de Obama até à base do Partido Democrata , nunca deveriam ter aceite a premissa de que a política económica em 2011 tinha que ser feita à volta da redução do défice. Uma vez que se aceitou este jogo, os republicanos conseguiram jogar de modo extremamente perigoso com a dívida nacional.
Na sua maior parte, os grande media – com excepção de grande parte da cobertura do New York Times e dos seus editoriais inteligentes – fizeram o papel de colaboradores, tratando o tecto da dívida como se fosse a história principal. Admitindo que o acordo está finalizado, os grandes títulos e e as entrevistas e comentários serão pura trompete a anunciar que se evitou a situação de incumprimento de pagamento, esquecendo assim inteiramente a verdadeira questão.
A política de incumprimento sempre foi uma criação artificial promovida pelos republicanos. A história real é que os republicanos fizeram do presidente Barack Obama como que sendo um verdadeiro violino, enquanto que o acordo é a terrível economia.
Economicamente, o acordo orçamental vai enfraquecer ainda mais uma economia agora em situação já bastante frágil. Politicamente, o acordo é uma bomba-relógio. Este representa um caminho para cortes mais profundos em programas que os democratas deveriam estar a defender. Sob o acordo, o mesmo cenário de incumprimento versus enormes cortes no orçamento que funcionou tão bem para os republicanos, como se está a ver neste momento, será repetido no próximo ano.
Os Estados Unidos são agora uma reminiscência de um país que em vários períodos da sua história foi ou paralisado por grupos extremistas minoritários ou, o que é ainda pior, elegeu- os para governarem.
A ascensão da direita Tea Party é um caso clássico de como uma pequena facção extremista, toma o controle quando o contexto político não consegue resolver os profundos problemas nacionais . É um amálgama de uma extrema-direita que sempre andava à volta de um quinto do eleitorado, dilatada agora pelas frustrações de pessoas anteriormente apolíticas.
Em grande parte da Europa de hoje, os partidos de extrema-direita populista estão agora tipicamente com 20 a 25 por cento dos votos. Com o sistema parlamentar multipartidário da Europa, no entanto, eles não alcançam o poder , mas em vários países são agora o segundo ou terceiro partido mais popular .
Esses partidos representam aproximadamente a mesma proporção de opinião pública que o Tea Party nos EUA Mas na América, com o nosso sistema de dois partidos e a nossa máquina constitucional de bloqueio, se uma determinada minoria ganha o controle de um partido pode fazer com que alcancem o governo. Isto é o que já ocorreu, e isto é o que se vive na nossa política entre o agora e as eleições de 2012, e possivelmente para além dessa data.
Como o cientista político Andrew Hacker sublinha num importante artigo na New York Review of Books, os republicanos da actual Câmara tiveram um total de 30.799.391 votos nas eleições intermédias de 2010. Barack Obama teve mais de duas vezes o valor anterior, teve 69.498.215, nas eleições presidenciais de 2008.
A sua queda entre 2008 e 2010 foi apenas um pouco pior do que o que é habitual. No entanto em 2010 a maioria dos novos eleitores eram maioritariamente de oposição à política de direita de Obama. Muitos dos eleitores da classe jovem e dos trabalhadores que saiu para votar em Obama em 2008 não viu nenhuma razão para votar em 2010 nas eleiçõe intercalares. Assim, os republicanos estão-se a comportar como se tivessem um mandato radical e que supera de longe o apoio real que podem ter para as suas tácticas e para as suas políticas – e Obama não está a contestá-los.
Como convidar a direita radical a tomar o poder? Comece-se com 30 anos de estagnação do nível de vida ou mesmo em declínio para a maioria das pessoas. Em seguida, adicione-lhe uma crise financeira feita em Wall Street. Depois, elege-se um presidente democrata que nos traz a esperança, mas que acaba por ser um aliado próximo das mesmas forças que causaram o colapso. Temos um presidente que tem um temperamento tal que se recusa a culpar a direita e que anda principalmente à procura de evitar inccómodos . A direita coloca então Washington e Wall Street no mesmo saco, e culpam depois os democratas.
No final de tudo isto, temos um centro fraco e incapaz de propor políticas de reforma ou de recuperação, uma direita zangada e irascível e uma esquerda debilitada e incapaz de lançar um desafio ao seu Presidente antes de ser tarde de mais.
Trata-se de um momento terrível na história da nossa República. E a política de extorsão por parte dos republicanos do Tea Party não vai acabar com este acordo. Pelo contrário, o acordo vai encorajar que haja mais do mesmo.
Quais são agora as opções para os progressistas?
Os progressistas na Câmara devem votar no sentido de liquidar este acordo. Eles foram postos à venda pela Casa Branca. O presidente poderia, então, ser forçado a invocar a Emenda 14, o que ele já deveria ter feito antes.
Os progressistas têm necessidade de construir um movimento de massas a partir de si-mesmos, das suas bases. As pequenas frustrações que animaram o Tea Party não serão sanadas pelo programa republicano. É preciso encontrar uma alternativa de esquerda. E a base do Partido Democrata precisa de deixar bem claro que Obama não pode ter o seu apoio como garantido e que acordos como este devem levar os activistas a trabalhar para eleger progressistas para a Câmara dos Representantes e para o Senado.
Até que isso aconteça, a direita republicana, com a maioria das cadeiras na Câmara dos Representantes e impondo os pontos de vista de uma pequena minoria, continuará a governar.
Robert Kuttner é co-editor de The American Prospect e a senior Fellow at Demos. O seu último livro é A Presidency in Peril.
