Morrer de sede, por Fernando Correia da Silva

 

 

 

 

 

 

 

           Estrangeiro que fui no meu país,

            saltei fronteiras a tentar a sorte.

            Estrangeiro que sou, perdi o norte,

            corri o mundo, não deitei raiz.

            É meu rasgado e velho passaporte

            a sede antiga, esta cicatriz

            queimadura que diz e contradiz

            a pátria calcinada até à morte.

            Mas torno sempre ao lar: fornalha, frágua,

            cinzas e pedras sob cada ponte.

            Orvalho, quando o há, é só de mágoa.

            E quando exijo ao verde que desponte

            e vem Abril abrir-se em olhos d’água,

            vou eu morrer de sede ao pé da fonte.

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