Hiroxima – discurso contra o esquecimento – Carlos Loures

 

 

 

Referindo-se ao bombardeamento atómico de Hiroxima e Nagasáqui, o professor Eduardo Lourenço, num artigo publicado no Público há mais de vinte anos dizia:

 

«Desde Heródoto que a História existe como discurso contra o esquecimento, como estratégia para conferir um ¨sentido¨, uma plausível inteligibilidade inerente à vida e acontecimentos humanos. Para termos essa existência plena, semelhante à dos deuses gregos, imunes ao tempo, assumimos a vigília sem noite que chamamos História. Nela e com ela, sabemos de onde vimos e para onde vamos. Subsidiariamente, quem somos. Desta ilusão fundadora Hiroxima nos despiu. Os seus “cem mil sóis” não podem ser olhados sem morrer. Mesmo a sua recordação é mortal. Hiroxima impõe o esquecimento.» (…) «Hiroxima é um não-lugar, uma Pompeia fabricada de mão pensada pelos homens. Os japoneses deviam tê-la conservado assim, arrasada como Cartago pelos novos romanos, insuportável à vista e intolerável para o coração. Preferiram dissimulá-la e ninguém está no seu lugar para os julgar. Para sobreviver, incorporaram o esquecimento na sua história privada. Sem o saber, inauguravam a lúdica era da pós-modernidade que não é culto pedantismo de intelectuais europeus expulsos de uma História como fonte de sentido, mas tempo de gente que incorpora o esquecimento-Hiroxima por saber de mais que, sem ele, desembocaria descalça num terraço com vista privilegiada sobre o nada. Aquele onde tão festivamente estamos.»

 

Eduardo Lourenço, citando Marguerite Duras, lembra nesse artigo publicado no Público quando do cinquentenário da destruição atómica: «Un jour je ne me souviendrai plus. De rien». São palavras de Emanuelle Riva, a intérprete principal do filme Hiroshima, mon amour:* «- Um dia já não me lembrarei. De nada». Um dia, Hiroxima será uma data nos livros de História.

 

Não nos lembraremos. De nada

 

 

 

* – Hiroshima, mon amour, filme franco-japonês, realizado em 1959 pr Alain Resnais, com guião de Marguerite Duras. A história de uma relação amorosa entre uma francesa e um japonês, tem como pano de fundo o drama de Hiroxima.

Leave a Reply