Pinturas cantadas: arte e performance das mulheres de Naya, por Clara Castilho

 


 

Lina Fruzzetti e Ákos Östör  fizeram um  filme com este nome, em que nos mostram as pinturas feitas pelas mulheres de Naya, aldeia do Estado de Bengala, na Índia,  por eles estudada ao longo de muitos anos e que cantam as histórias que pintam em extensas tiras de papel. Os temas são os mais variados, indo do reportório das tradições orais da comunidade às mudanças sociais e políticas e aos acontecimentos que marcam a vida da aldeia, do país ou do mundo – o ataque ao World Trade Center de Nova Iorque em 11 de Setembro de 2001, o tsunami de Dezembro de 2005, a problemática da SIDA.

 

Esta forma de expressão e prática cultural de grande profundidade temporal era antes desempenhada por homens, mas as mulheres foram-na aprendendo e utilizando como instrumento da sua afirmação e promoção económica. Para tal, tiveram de conjugar a competência técnica do desenho e da pintura com a capacidade performativa da narrativa que se consubstancia nas canções que dão corpo à pintura.

 

No filme podemos também ouvir o canto das pinturas pelas vozes destas mulheres. Em Julho de 2007 pudemos embevecermo-nos com uma exposição no Museu de Etnologia, em Lisboa.

 

 

  

Cantiga da pintura VIH

 

Swarna Chitrakar


Ouçam todos, prestem atenção. Gostaria de falar do VIH.

O VIH veio do ocidente e infectou centenas na Índia.

Não é uma doença infecciosa. Pode haver contágio em quatro situações: partilha de seringas entre toxicodependentes, partilha de seringas em injecções, mulheres grávidas portadoras de VIH ou relações sexuais sem preservativo com mulheres infectadas.

No caso de estas quatro situações estarem controladas, não ocorrerá transmissão de VIH. É por isso que solicito aos médicos: as seringas devem ser trocadas antes de aplicar a injecção.

No caso de transfusão sanguínea, o sangue tem de ser analisado primeiro.

Se uma mulher está grávida o bebé pode nascer já infectado.

Apelo a todos os indianos que usem preservativos Nirodh.

As pessoas que tiverem SIDA não devem guardar segredo. Dirijam-se ao hospital distrital. Por 10 rupias, podem fazer uma análise ao sangue, confidencial, em centros VCTC (Centro Voluntário de Aconselhamento e Análises)

 

 

  

Cantiga da pintura Tsunami, de Snehalata Chitrakar:

 


Ó, mãe do mar, Mãe do Ganges, porque ceifaste tantas vidas. Ó, irmão, a água do mar veio com toda a fúria, com árvores e folhas a flutuar. Morreram tantos homens! O meu coração chora por eles.

Mães foram privadas dos filhos, filhos perderam as mães, mulheres ficaram sem marido. Que dor! Ó, misericordioso Dayal do meu coração, como chora o meu coração! O céu chora, o vento grita, a mãe infeliz chora os filhos perdidos.
É difícil entender o teu jogo Lila, como fazes uns chorar e outros sorrir.
O exército apareceu quando soube da notícia. Salvaram as pessoas, derramando lágrimas.
Sri Lanka, Tailândia, Andaman – pessoas de doze países tiveram mortes prematuras.

 

 

 

 

 

Será de realçar que a elaboração destas pinturas veio a constituir para estas mulheres uma oportunidade também comercial tendo-se organizado numa associação  destinada à venda em feiras de artesanato, a patrocinadores estatais e a um público internacional.

 

 

1 Comment

Leave a Reply